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DCF III-1, Doc. 69

13 out. 1917Lisboa / RodrigosnotaMaria Bettina Basto

13 out. 19171, Lisboa e Rodrigos

Apontamentos de Maria Bettina Basto2 sobre a sua viagem de Lisboa à Cova da Iria, de 11 a 13 de Outubro de 19173.

A - ASF - Documentos de 1917. Oferta da autora, em 21 de Janeiro de 1978.

Descrição do documento: Pequeno caderno de apontamentos (10,3x6,3cm), de cor amarelada, constituído originalmente por 16 folhas, das quais foram arrancadas quatro (da fl. 2 à fl. 5), resultando um conjunto de 12 folhas ou 24 páginas, sem numeração4. Fizemos nós nova numeração: fl. 1 a 12. Cada página tem 21 linhas. A fl. 1 está escrita a tinta preta; a fl. 1v está em branco; as fls. 2 a 11v estão escritas pela Autora com dois lápis diferentes: preto (fls. 2-3; 4-12) e arroxeadas (fls. 3-4).

Se aquilo que a gente sente cá dentro tivesse voz todo o mundo teria pena de nós6.

1917

9h. Estação do Rocio. Estamos num optimo lugar foi quasi disputado a murro mas vamos bem. Isto deve estar a partir.—

Já passamos o tunel paramos em Campolide. A viagem vai ser talvez massadora por termos de parar em todas as estações, mas como não temos pressa, isso tambem nos vai entretendo. O tempo não pode estar melhor vamos ter um dia lindo afinal, não temos parado em todas as estações7.

Chegados á estação de Torres8, metemo-nos num carro não sei bem que nome lhe dê uma carriola qualquer que faz carreiras entre a estação e a vila, que ainda fica a bastante distancia lá viemos bem apertados e sempre aos tombos. A vila é bastante grande e como todas as vilas parece ter pouca graça viemos agora ver a igreja de Sr. Jesus [de] S. Thiago10 que é muito bonitinha e muito notável por ter aqui um Senhor Morto que foi achado em Troia, quando andavam lavrando umas terras. Cresce-Lhe a barba e as unhas e diz que todas as primeiras Sextas feiras do mez vem aqui em promessas milhares de pessoas por ser muito milagroso11, gostava imenso de o poder ver12. Consegui vê -Lo. Faz impressão é com certeza uma imagem antiquissima parece ser de madeira mas as unhas são perfeitamente naturais!

Depois de vermos duas quintas que não teem nada de notavel, começamos o nosso caminho para Rodrigo14 que para mim fechou com chave d'ouro o nosso primeiro dia de viagem. Viemos em quatro burros, mas burros muito mansos, que não nos fizeram dar nem uma cambalhota foi da unica coisa que tive pena. Quando chegamos aqui, já era noite ceamos e fomos dormir.

A Snr. Assumpção e o seu Carlos15 é uma gente muito simpatica e estes costumes do campo para nós teem todos imensa graça. Mal vai amanhecendo, o burro zurra o porco grunhe a cabra berra o galo canta etc é impossivel dormir mais16.

Passamos o dia em preparativos para a viagem. Deviamos partir às 11 h da noite fazendo a viagem de noite para lá chegar de manhã.

Para a noite o tempo começa a toldar-se e pouco depois a trovoada desencadeia-se mas que trovoada era mais de meia noite e não se ouvem senão trovões e as faiscas são continuadas que fazer não partir é uma desolação. O Carlos persigna-se e diz que assim não vai espera-se pedindo a N. Senhora que afaste a trovoada. Ás 2h o tempo está melhor decidem-se a partir, a noite está escurissima prendem a mula à carroça; dentro poem umas cadeiras baixas para nós, e com uns cobertores lá nos instalamos. No banco da frente vai a mulher do Carlos e a afilhada17 a trás vamos nós18 a Regina19 e a Emilia20. O Carlos leva a mula pela arreata e assim começamos a viagem.

De quando em quando, os clarões iluminam o caminho, a trovoada está mais longe mas continua.

Assim andamos mais de uma hora os caminhos são medonhos a carroça vai sempre aos tombos tem a vantagem de não nos deixar dormir a Emilia faz-nos rir constantemente.

Já começamos a subir a serra de Aire o pior é que a chuva volta e nós temos pouca defesa, pois a agua que cai dos chapeus de chuva encharca a carroça e molha os cobertores.

O Carlos uns bocados sobe para o banco e lá continua a guiar o bicho o que vale é que conhece muito bem os caminhos.

Começa a clarear a chuva, agora é miudinha quasi um nevoeiro molhado como já está alguma luz vemos arvores rachadas pelas faiscas da trovoada aqui na serra, devia ter sido medonha. Bem dizia o Carlos que não vinha; ele já as conhece.

Muito temos andado por esta serra que parece não ter fim. Agora dizem que estamos perto de Fatima chove a valer já estamos encharcadas. Para não arrefecer muito e nas subidas para ajudar a mula vamos todos a pé, menos a Emilia que não pode andar muito.

Finalmente chegamos a Fatima são 9h o tempo está um pouco melhor, mas o ceu está todo coberto e ameaça mais chuva vem chegando muita gente, por vários caminhos da serra como nós veem molhados a maior parte mas todos vão, nem eu sei para quê, pois não está nada marcado e é só porque dizem que a Senhora falará hoje à Lucia.

A carroça fica em Fatima comemos alguma coisa, e agora vamos a pé para a Cova da Iria que é o lugar onde dizem tem havido as aparições.

Andamos quasi uma hora quando chegamos ao campo uma extensão bastante mais baixa que a estrada e onde há apenas algumas azinheiras, está bastante gente que espera, vamos a ver o quê!

É perto de meio dia dizem que os pastorinhos vão chegar gostava de os ver. O local onde se deram já as aparições está marcado com uns paus para deixar espaço para os pequenos estarem mais livres do povo mas já não podemos aproximar-nos muito, pois está muita gente. A terra está tão encharcada que os pés enterram-se já estamos de tal maneira enlameadas. Resolvemos ficar num ponto um pouco mais alto embora mais longe. Há movimento na multidão são os pastorinhos que chegam uns homens abrem-lhe caminho mal os vejo vão para o sitio dos paus chove a valer.

Começa a dizer-se que a Lucia diz para fecharem os chapeus, que a Senhora vem mas chove tanto embora todos obedecem e fechamos os chapeus. Com efeito pouco depois a chuva pára, mas não vemos mais nada. Os nossos olhos procuram por toda a parte. Agora uma pequena nuvem parece que pousa sobre uma azinheira ao pé dos paus, o sol aparece entre nuvens, mas sem brilho nenhum, parece a lua e dir-se-ia que tem uma cruz no meio e agora, ó maravilha a atmosfera tinge-se das cores do arco-iris vejo o chapeu de feltro branco da Rita24 cor de laranja depois verde, depois azulado depois rosa25

Esboço do sol com uma cruz, feito por uma testemunha ocular, 13 de outubro de 1917
Esboço do sol com uma cruz, feito por uma testemunha ocular, 13 de outubro de 1917

e por ultimo doirado; está tudo doirado que coisa linda!

Todos se sentem fascinados um homem perto de nós cai no chão sem sentidos de repente, o sol negro completamente parece que se despega do ceu e começa a rodar sobre si mesmo muito depressa parece que vai cair ouve-se um grito de toda a multidão que cai de joelhos pedindo misericordia.

Encontro-me tambem de joelhos em cima26

Esboço a lápis de uma igreja com sineira
Esboço a lápis de uma igreja com sineira

dum monte de pedras sem dar por isso. Mas tudo passa num momento o sol volta a estar encoberto pelas nuvens, a nuvem parece que levanta estão todos sem saber o que se passou como que atordoados dizem que a Lucia falou com a Senhora. Não conseguimos tornar a ver os pastorinhos. Encaminhamo-nos para Fatima, onde nos metemos na carroça e voltamos para Rodrigo o tempo está bom apenas se veem algumas nuvens soltas no ceu e o sol tem o brilho natural.

Quando chegamos, a roupa já está meia enchuta, a Emilia está aflita porque diz que podemos adoecer mas não, o que estamos é muito cansadas, comemos alguma coisa e deitamo-nos amanhã vamos para Lisboa.

Notas dos editores

1 Embora a redacção destes apontamentos se tenha processado de 11 a 13 de Outubro de 1917, colocamos este documento na última data. Nas notas seguintes, indicaremos a sucessão dos vários momentos de redacção.
2 Nasceu a 16 de Dezembro de 1897. Filha de Rafael Eduardo de Azevedo Basto e de Fernanda Guiot Correia Basto. Viveu na Estrada de Benfica, nº 310, Lisboa, desde 1901 a 1950. Casou a 2 de Dezembro de 1950, com o engenheiro silvicultor José Agostinho da Cunha Monteiro e enviuvou a 17 de Fevereiro de 1970. Faleceu a 15 de Julho de 1987.
3 Maria Bettina Basto escreveu-nos em Agosto de 1977, contando-nos o modo como teve conhecimento dos acontecimentos de Fátima: "Minha irmã Rita chega a casa, depois de visitar uma amiga de nossa mãe, e pede-lhe para a deixar ir com a criada dessa senhora a Fátima. Essa criada, Emília, era duma aldeia perto da Serra de Aire e lá falava-se muito das aparições e dizia-se que em Outubro seria a última. Eu, cheia de curiosidade, peço para ir também. Minha mãe consente. Eu tinha 19 anos".
4 Este pequeno caderno fazia parte de uma agenda que tinha pertencido a Hortense de Jesus Silva, e depois a uma sua amiga, tia materna da autora. Mais tarde, Bettina Basto guardou apenas as folhas em que ela própria tinha feito os apontamentos de viagem de Lisboa à Cova da Iria.
5 Na fl. 1, encontra-se um texto manuscrito a tinta preta, em francês e latim, que não é da Autora: "Prière avant la méditation — Veni Sancte Spiritus etc — Mon Dieu je crois que vous êtes ici présent et je vous adore du plus profond de mon coeur. Je reconnais que je ne suis pas digne de paraître devant vous à cause de mes péchés, mais je sais aussi que vous ne rejetez [...]".
6 Décima primeira quadra do poema "Canção das Perdidas" em GIL, Augusto - Luar de Janeiro, Paris-Lisboa, Livrarias Aillaud e Bertrand, 1909, p. 79. O texto correcto é: "Se aquilo que a gente sente / Cá dentro tivesse voz, / Muita gente... toda a gente / Teria pena de nós!".
7 Desde: 1917 até: em todas as estações. foi escrito no comboio, no dia 11.
8 É a estação de Torres Novas, na Linha do Norte, a doze quilómetros a sul da vila, conhecida por estação do Minhoto.
10 Na primeira redacção a lápis preto escrevera egreja de S. Thiago; depois acrescentou a lápis-tinta Sr. Jesus S. . Trata-se da paróquia de S. Tiago de Torres Novas.
11 Numa capela lateral, da invocação do Senhor Jesus dos Lavradores, existente na igreja paroquial de S. Tiago, construída nos princípios do século XIII e modificada depois de 1755, há uma imagem de madeira que a tradição diz ser muito antiga. Segundo essa tradição, andavam uns boieiros a lavrar o campo do Espargal ou campo da Golegã (e não em Tróia, como diz a Autora), próximo de Riachos, lugar então pertencente à freguesia de S. Tiago e elevado a paróquia canónica em 1920 e freguesia civil em 1923, quando os bois se joelharam, recusando erguer-se. Procurando averiguar a razão deste facto, verificaram que o arado se prendera numa pedra resistente. Tratava-se de uma espécie de sepultura com a imagem do Senhor crucificado, que posteriormente foi levada para a referida igreja (cf. O Senhor Jesus - seo apparecimento, seos milagres (...), Torres Novas, Minerva Comercial 1907; edição fac-similada, Torres Novas, Misericórdia, s.d., p. 6-7).
12 Desde Chegados à estação até poder ver, foi escrito em Torres Novas, junto da igreja de S. Tiago.
14 Rodrigos, povoação da freguesia de S. Pedro, concelho de Torres Novas (COSTA, Francisco dos Santos - Rodrigos, meu torrão natal [monografia], s.l., s.d., 31 p.).
15 Assunção Costa, natural de Valhelhas, freguesia de Olaia, concelho de Torres Novas, e Carlos de Oliveira, natural de Rodrigos. Eram sobrinhos de Emília (cf. nota 20).
16 Desde - Consegui vê-Lo até dormir mais. foi escrito com lápis arroxeado, na manhã do dia 12.
17 Clotilde da Assunção Ferreira que veio a casar com Manuel Pinto, do Carvalhal da Aroeira. Falecida a 4 de Março de 1986.
18 Trata-se da Autora e da sua irmã Rita (cf. nota 24).
19 Regina Ferreira ficou órfã, ainda pequena, passando a viver em casa de sua prima Isabel da Nóbrega Machado. Faleceu em 1953.
20 Governanta da casa do conselheiro Augusto Jacques de Magalhães Machado, casado com Isabel da Nóbrega Machado, vizinhos e amigos da família Basto (cf. notas 3 e 15).
24 Rita, irmã de Maria Bettina. Nasceu a 1 de Março de 1896. Casou com o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990). Rita faleceu a 8 de Agosto de 1969, no Porto.
25 Maria Bettina diz-nos: "a silhueta que desenhei foi a que imaginámos ser o vulto da Senhora que aparecia aos pastorinhos".
26 Maria Bettina diz-nos: "O esboço da igreja de Valhelhas foi feito no dia 12, quando visitámos essa igreja situada próximo de Rodrigos" (cf. nota 14).
Aparato crítico e remissões (6)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

9 aqu iria a escrever aquela, mas corrigiu para estação.
13 A partir de - Consegui escrito a lápis arroxeado.
21 No original ums, depois de correcção de umas.
22 enxarcada corr. encharcada.
23 as nuvens corr. uma pequena.
27 Sic.
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