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DCF III-2, Doc. 387

12 nov. 1918Lisboanotícia de imprensaMaria Madalena Trigueiros Martel Patrício

Artigo de Maria Madalena Trigueiros Martel Patricio, publicado no jornal "O Dia".

Publ.: "O Dia", Lisboa, 4/19 (671/7782), 12 Nov. 1918, p. 1, col. 4

A PREDIÇÃO DE FÁTIMA

Fez um anno, domingo, dia 13, que na serra de Fátima quiz Deus juntar milhares de creaturas para que ouvissem da bocca de trez pastorsitos que na biblica solidão da serra escalvada apascentavam gados, promessas de Paz, de felicidade e de socego para a desgraçada e linda terra portugueza!

Rasgaram-se as nuvens no ceu torvo e triste, e rompeu o sol illuminando a serra!

Foi a promessa luminosa da Paz na tristeza pesada da vida, e de joelhos cahiram, pedindo que se cumprisse a promessa, milhares de creaturas que viam na luz bemdita do sol o sorriso de Deus, que de novo abençoava a terra onde tão tristes males se tinham espalhado!

Viam, os pastorsinhos em graça, passar o manto diaphano da Virgem, viam, nas azinhagas escuras, o rasto luminoso dos seus pés descalços, e a serra escurecer á hora do sol claro e a serra acclarar, por milagre, nos dias turvos e escuros quando o meio dia ao longe tocava nos sinos das aldeias e das villas!

Fallava a Virgem aos pastorsinhos em graça, e as suas almas puras do mal, entendiam as falas da Senhora... assim deram esperança ás mães, ás noivas, ás mulheres dos soldados que a guerra levára! Prometteram que dentro de um anno3 a guerra acabava, e voltariam os soldados para as suas terras!

Pelo caminho, em grupos, de mãos postas, olhando o sol, que promettera a Paz, vinham as mães, as noivas, as mulheres a quem a dôce promessa tinha sido feita. Repetiam baixinho, na esperança que Deus as ouvisse melhor: "Dentro de um anno acaba a guerra, voltam os soldados dentro de um anno!"

Passavam dias, passavam mezes, e a guerra durava, durava sempre. Iam morrendo longe uns soldados, emquanto outros vinham vindo contentes abraçar as mães, as noivas e as mulheres, que preparavam os fatos domingueiros para os irem esperar, emquanto as outras que não tinham sorte, com as chitas pretas dos luctos choravam a morte dos que não voltavam...

Todos se foram esquecendo da predicção de Fatima.

Só as mães, as noivas, as mulheres, que ainda tinham o coração na guerra, repetiam baixinho para que Deus as ouvisse, beijando o ramo sêcco da azinheira de Fatima: "Dentro de um anno ha-de acabar a guerra, e os soldados voltarão para as suas terras dentro de um anno!"

No dia 13, d'este outubro frio, depois do silencio que as doze badaladas do meio dia trouxeram ao barulho animado do mercado, emquanto os homens tiravam os barretes, as mulheres tiravam os chapeus, e as mãos se erguiam na reza do dia, na claridade doirada do sol, passou uma nuvem leve, pequena, transparente, e a sombra sahiu repentina e estranha como se de repente anoitecesse, para logo a madrugada raiar afogada em sol!...

Com a escuridão repentina que desceu, com o sol que illuminou a casaria branca da villa, a montanha de esmeralda do castello, depois de ter passado a nuvem transparente, a predicção de Fátima passou na lembrança de todos, que havia um anno, áquella hora, a tinham ouvido!...

Foi no dia 13, d'este mez de Outubro frio e triste, que a primeira noticia de Paz foi lida, entre lagrimas de alegria por todas as mães, noivas e mulheres que tinham ainda o coração na guerra...

Começaram n'esse dia a antever a esperança que se realisasse a predicção bemdita da serra de Fátima, como ha um anno a tinha promettido a falla da Senhora aos pastoresinhos em graça, e o sol luminoso que rasgou as nuvens no dia 13 á uma hora de uma tarde enevoada e escura do mez de Outubro!

Casa de Flandes – Outubro de 1918

Maria Magdalena

Notas dos editores

3 Em nenhum documento escrito entre Outubro de 1917 e este, se refere esta predição: que a guerra acabaria "dentro de um ano". Apenas Lúcia, no interrogatório de 8 de Julho de 1924 diz: "a minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falou assim: convertam-se que a guerra acaba dentro de um ano" (cf. DCF, vol. 2, Doc. 8, p. 144 e Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 228 e 257).
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 108, de 17 de Outubro de 1917, nota 2.
2 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 88, de 15 de Outubro de 1917, nota 1.
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