Testemunhas /

Maria Magdalena Trigueiros de Martel Patrício

Jornalista

Poetisa e escritora nascida em 1883 (com cerca de 34 anos), mulher do Dr. Francisco Patrício, juiz da comarca de Pinhel, onde vivia em 1917. Escreveu o seu artigo sobre o 13 de outubro para o jornal lisboeta O Dia na Quinta do Amparo (Marrazes, Leiria), no próprio dia.

Residência: PinhelVeio de longe2 relatos · 13 de outubro de 1917

Também aparece como: Maria Madalena Trigueiros Martel Patrício

13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuir

Despovoaram-se os logares, as aldeias, as cidades proximas.

Pelas estradas, já nas vesperas, seguiam grupos de romeiros a caminho de Fátima.

Pescadores da Vieira4 deixaram as casa de madeira negra assentes sobre o mar, as lides da arrumação da pescaria. Pelos pinhaes, onde as camarinhas parecem gotas de orvalho na verdura, pelos areaes onde giram as vellas dos moinhos, vieram a pé, os coturnos de lã nas pernas musculosas, saias de agazálho sobre as costas, á cabeça o sáco com o farnel, no passo meúdo e meneado, que lhes fazia voltear a rodaria das saias, e agitar os lenços alaranjados onde assentavam os chapeus pretos. Operarios da Marinha5, lavradores de Monte Real6, das Córtes7, dos Marrazes8, serranas de longe — das serras do Soubio9, de Minde10, do Louriçal11, gentes de toda a parte onde chegasse a voz do milagre, deixavam as casas e os campos, e vinham por ahi fóra a cavalo, de carro ou a pé, cruzando as estradas, atravessando montes e pinhaes, de longada pelos caminhos, que durante dois dias se animaram do rodar dos carros, do chouto dos jumentos, do vozear dos grupos dos romeiros.

O outomno avermelhava as vinhas vindimadas. O vento do nordeste, frio e cortante, anunciando o inverno, fazia tremer os choupos transparentes das bordas dos rios, que desmaiavam saúdosos do sol, em tons amarellos de rendas antigas.

Nos areaes giravam as vellas brancas dos moinhos. Nos pinhaes curvavam-se ao vento os cimos verdes dos pinheiros.

As nuvens iam cobrindo o ceu. Amontoava-se o nevoeiro em flócos leves e macios.

O mar, na vastidão da praia da Vieira, espumava, bramia, enrolava-se em ondas altas, e pelos campos ia-se ouvindo, n'um clamor sinistro, a sua voz!

Toda a noite, toda a madrugada choveu, uma chuva miudinha, persistente, que encharcava os campos, que entristecia a terra, que ia trespassando até aos ossos, de uma humidade fria, as mulheres, as creanças, os homens e os animaes, que cruzavam as estradas lamacentas, no caminhar apressado para a Serra do Milagre.

A chuva cahia, cahia, macia e teimosa.

As saias grossas d'estamenha e riscadilho pingavam, pezavam como chumbo, nas fitas das cinturas. Os barretes e os chapeus largos escorriam agua sobre as jaquetas novas dos fatos de vêr a Deus. Os pés descalços das mulheres, as botas ferradas dos homens, chapinhavam nas poças largas do lodaçal das estradas.

Mas a chuva parecia que não molhava, parecia que não sentiam a chuva!

Caminhavam sempre, subindo a serra, illuminados de fé, na ancia do milagre que Nossa Senhora promettera, no dia 13, pela uma hora, a hora do Sol, ás almas simples e puras de trez creanças que apascentavam gados!

Iam ficando para traz, perdidos na nevoa, esfumados na transparencia da chuva, pinheiros, choupos, carvalheiras, manchas vermelhas de vinhas, casaes, campos lavrados de terra escura... Os campos eram desertos. As casas eram fechadas!

Havia um silencio estranho nos campos desertos, de gentes e de gados, havia um ar de espera e de emoção na attitude das cousas, das casas pobres como adormecidas no silencio, janellas e portas fechadas á luz!

A serra era alta, mas parecia aos caminheiros que os não cançava a subida da serra!

A serra era triste, cada vez mais triste, de pedras escalvadas e negras sem a alegria da verdura de uma arvore, mas os caminheiros não sentiam a tortura impressionante e tragica da paysagem de dôr!

A chuva começou a rarear. Era agora só um veu de nevoa muito leve que se ia desfazendo a pouco e pouco, e pouco a pouco a serra ia aclarando.

Approximava-se um murmurio que vinha descendo do monte. Murmurio que parecia a voz longinqua do mar, que se tinha calado no silencio dos campos...

Eram canticos que se definiam, entoados por milhares de boccas.

No planalto da serra, cobrindo o monte, enchendo um valle, via-se uma mancha enorme e movediça de milhares e milhares de creaturas de Deus, milhares e milhares d'almas em prece!

Mãos erguidas, olhos em extase, vinham na fé ardente da crença. Vinham pedir o milagre a Nossa Senhora, pedir a redempção dos peccados, pedir a benção para as amarguras da vida!

Á uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva.

O céu tinha um tom acinzentado de perola e uma claridade extranha illuminava a vastidão biblica e tragica da paysagem triste, cada vez mais triste...

O sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudéssem olhar. O tom cinzento da madreperola transformava-se como n'uma chapa de prata luzidia, que se ia rompendo até que as nuvens se rasgaram e o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar, a girar em volta do circulo das nuvens afastadas!

Foi um grito só em todas as boccas; cahiram de joelhos na terra encharcada, os milhares e milhares de creaturas de Deus que a fé levantava até ao céu!

A luz azulava-se n'um azul exquisito, como se viesse, atravez dos vitraes de uma cathedral immensa, espalhar-se n'aquella nave gigantesca ogivada pelas mãos que se ergueram no ar...

O azul extinguiu-se lentamente para a luz parecer coada por vitraes amarellos.

Manchas amarellas cahiam agora sobre as caras, sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a serra.

Tudo chorava, tudo rezava, de chapeu na mão, na impressão grandiosa e unica do milagre esperado!

Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vivídos foram!

Passaram nuvens sobre a claridade vaga e cinzenta que velava o sol!

As almas em prece, que tiveram por instantes a vida suspensa, á vida voltaram.

Esfarraparam-se as nuvens, appareceram bocados azues do céu. O sol, na serenidade impassivel de todo o sempre, illuminou vagamente a serra escalvada, onde Nossa Senhora fez juntar, pela bocca de trez creanças que apascentavam gados, milhares e milhares de creaturas de Deus!

Notas dos editores (9)

3 Este artigo viria a ser publicado em PATRICIO, Maria Magdalena Martel - Impressões de arte e de tristeza, Porto, Officinas da Empreza Lit e Typographia, 1918, p. 63-68

4 Vieira de Leiria, lugar e freguesia do concelho de Marinha Grande, distrito de Leiria.

5 Marinha Grande, concelho do distrito de Leiria.

6 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

7 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

8 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

9 Não identificámos esta localidade.

10 Localidade do concelho de Alcanena, distrito de Santarém.

11 Freguesia do concelho de Pombal, distrito de Coimbra.

DCF III-1, Doc. 127 · notícia de imprensa · 13 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 346Digitalizações (4)Ligação
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA chuva a pararA multidãoPalavras dos videntes

Fez um anno, domingo, dia 13, que na serra de Fátima quiz Deus juntar milhares de creaturas para que ouvissem da bocca de trez pastorsitos que na biblica solidão da serra escalvada apascentavam gados, promessas de Paz, de felicidade e de socego para a desgraçada e linda terra portugueza!

Rasgaram-se as nuvens no ceu torvo e triste, e rompeu o sol illuminando a serra!

Foi a promessa luminosa da Paz na tristeza pesada da vida, e de joelhos cahiram, pedindo que se cumprisse a promessa, milhares de creaturas que viam na luz bemdita do sol o sorriso de Deus, que de novo abençoava a terra onde tão tristes males se tinham espalhado!

Viam, os pastorsinhos em graça, passar o manto diaphano da Virgem, viam, nas azinhagas escuras, o rasto luminoso dos seus pés descalços, e a serra escurecer á hora do sol claro e a serra acclarar, por milagre, nos dias turvos e escuros quando o meio dia ao longe tocava nos sinos das aldeias e das villas!

Fallava a Virgem aos pastorsinhos em graça, e as suas almas puras do mal, entendiam as falas da Senhora... assim deram esperança ás mães, ás noivas, ás mulheres dos soldados que a guerra levára! Prometteram que dentro de um anno3 a guerra acabava, e voltariam os soldados para as suas terras!

Pelo caminho, em grupos, de mãos postas, olhando o sol, que promettera a Paz, vinham as mães, as noivas, as mulheres a quem a dôce promessa tinha sido feita. Repetiam baixinho, na esperança que Deus as ouvisse melhor: "Dentro de um anno acaba a guerra, voltam os soldados dentro de um anno!"

Notas dos editores (1)

3 Em nenhum documento escrito entre Outubro de 1917 e este, se refere esta predição: que a guerra acabaria "dentro de um ano". Apenas Lúcia, no interrogatório de 8 de Julho de 1924 diz: "a minha prima Jacinta disse-me em casa que a Senhora falou assim: convertam-se que a guerra acaba dentro de um ano" (cf. DCF, vol. 2, Doc. 8, p. 144 e Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 228 e 257).

DCF III-2, Doc. 387 · notícia de imprensa · 12 nov. 1918 (13 meses depois)Digitalizações (2)Ligação
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