Explorar / Relato

João Maria Lúcio Serra · 13 de outubro de 1917

Profissionalinspetor escolar em Torres Novas
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarCores nas pessoas e na paisagem

Convidado pela Senhora D. Maria de Jesus, que num requesito de extremada gentileza quiz tambem por ventura proporcionar a um suposto descrente ensejo para lhe pôr á prova a sua crença, fui á Fátima, lugar de tradição moirisca, no dia 13 do corrente, em que, conforme estava de há muito anunciado, se devia produzir o grande sinal que teria o condão de converter em crentes os descrentes. O dia, ao contrário dos que o antecederam, amanheceu chuvoso e frio.

E o meu entusiasmo, que frio tambem era porque o não estimulava o calor de uma convicção intima, teria cedido á contrariedade que á jornada opunha o tempo agreste e inclemente, se á mente não me acudisse que a desistencia poderia maguar a Senhora D. Maria de Jesus que com tão penhorante amabilidade quiz reservar-me um dos muito cobiçados lugares4.

A chuva que nos déra treguas desde a nossa partida de Tôrres, ás 9 horas, até chegarmos perto de Vila Nova de Ourem, começou de fustigar-nos batida do vento que soprava rijo, encharcando-nos e enregelando-nos, até á Fátima, em casa de cujo prior nos recolhemos para enxugarmos a roupa e tomarmos alguma coisa que nos confortasse.

Não julgues que eramos nós só que assim tão corajosamente afrontavamos sem dar mostras de cobardia ou fraqueza a intemperie do tempo e a fúria do vendaval. Dezenas, centenas, milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais encontrámos nós pelo longo caminho utilizando todos os variados meios de transporte, desde o burro cabisbaixo e de orelhas cahidas até ao automovel luxuoso e cómodo. A todos a fé no desconhecido dava alento e coragem, sem um grito de revolta, sem um gesto de desânimo. A gravidade e a compostura que em todos os rostos se descobria éra garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos impunha.

Reconfortados com os cómodos e gasalhado do lar hospitaleiro do bom do Prior, seguimos para o teatro dos sensacionais e estupendos acontecimentos, que da Fátima dista uns bons dois quilómetros.

Entretanto a chuva continuava impertinente e o vento soprava rijo, apenas se vendo correr na atmosfera os castelos encantados de nuvens densas e negras. Ao chegarmos ao sitio já agora memoravel, eu tive a impressão de um vastissimo acampamento onde milhares de pessoas se acolhiam em barracas cobertas de ardósia. Tal o efeito de milhares de chapeus de chuva abertos...

Como a estrada estava alagada da chuva que caía abundante, não saímos do auto, e ficámos ali, onde centenas de carros e automoveis estavam alinhados num extensão aproximada de um quilómetro.

A distancia que nos separava da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trono á celeste Visão, não mediria cem metros, e não prejudicava a observação do que junto dela se passava. A multidão, em muitos milhares de pessoas computada, aglomerava-se numa ordem, num respeito, num acatamento que impressionavam vivamente o espirito dos espectadores. Até nós vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solene.

Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e estraordinário que ainda me foi dado presenciar. No relógio do auto o ponteiro marcava duas horas: aproximava-se o momento augusto por que milhares de corações ricos de fé anciavam. A chuva, que tinha abrandado, deixou-nos então de todo; e para o norte diviso numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.

Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã chuvosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. O ponteiro indicou 2h e 5m, depois 2h e 10m e na terra o silencio éra apenas cortado por ecos mal distintos que repetem as orações que junto á Carrasqueira se fazem. Emquanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé, eu pensava no modo mais airoso de me sair do ridiculo a que não me pouparia a mofa dos meus amigos companheiros de todos os dias.

Já em algumas almas piedosas surgia o receio de que facto estrondoso anunciado não se désse realizasse, quando de repente toda aquela imensa multidão se agitou e num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o ceu, aonde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias num movimento de veloz rotação, que na frase pitoresca de alguns lembrava uma rodinha de fogo.

Os espectadores, entreolhando-se, apresentavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte vermelho-alaranjado onde quer que os olhos se fitavam viam-se fachos de luz esbatida, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.

Tal foi o fenomeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma expectativa benévola.

Descrentes lá houve, e alguns até com resaibos de ateísmo, que se declararam rendidos perante o poder que tal prodigio operava.

Aqui tens, minha boa Isabelinha, o que eu observei, e comigo milhares de pessoas.

[…]

Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado. Imediatamente o sol, que até então se conservára encoberto, aparece e mostra-se pela fórma que fica dito.

Notas dos editores (3)

1 Nasceu em Castelo Branco. Foi Inspector escolar em Torres Novas. Foi convidado por Maria de Jesus Raposo para ir a Fátima, pois ela queria ter consigo uma pessoa responsável e de confiança. Faleceu a 23 de Novembro de 1919.

2 Isabel de Maria Amado Jara de Carvalho, sobrinha da esposa de Lúcio Serra, portanto sua sobrinha, por afinidade. Filha de João Maria Amado de Melo Ramalho Pimentel de Almeida da Cunha e Vasconcelos Matamouros e de Isabel Maria de Figueiredo Azevedo Velez Dantas Pereira.

4 Foram no automóvel as seguintes pessoas: Mariana Dantas, João Amado da Cunha Vasconcelos, Josefina da Cunha Serra, esposa do autor, Maria Ermelinda de Vilhena Barbosa e sua Mãe, Branca Lobo de Moura Vilhena Barbosa, o Dr. Formigão, a filha de João Serra, Maria Elisa da Cunha Serra e o autor desta carta.

DCF III-1, Doc. 117 · carta · 18 out. 1917 (5 dias depois)Digitalizações (5)
Abrir