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DCF III-1, Doc. 117

18 out. 1917Torres NovascartaJoão Maria Lúcio Serra

João Maria Lúcio Serra1 escreve a Isabel de Carvalho2, sobre os acontecimentos na Cova da Iria, no dia 13 de Outubro de 1917.

A - ASF, Documentos de 1917

Descrição do documento: Quatro folhas de papel de carta, com 26 linhas. Estão numeradas, no canto superior direito, de 1 a 4, pelo próprio autor. Seguimos a numeração por páginas de 1-4v

Querida Isabelinha

A tua carta, que com surpreza acabo de receber, confunde-me e coloca-me em sérios embaraços. Não contente em agravares a minha situação impondo-me a responsabilidade de prendas que não tenho, julgas-me com aptidões de cronista e pedes-me que o seja do caso egréjio, e já agora famigerado, da Fátima.

A pedido de senhoras não se resiste, e muito menos ao teu que vem de pessoa que muito estimo e aprecio e que muita indulgencia terá para me absolver da involuntária imperfeição do relato, que passo a fazer, minucioso e imparcial, como desejas e como convêm a um capitulo interessante da história dos tempos que correm.

Convidado pela Senhora D. Maria de Jesus, que num requesito de extremada gentileza quiz tambem por ventura proporcionar a um suposto descrente ensejo para lhe pôr á prova a sua crença, fui á Fátima, lugar de tradição moirisca, no dia 13 do corrente, em que, conforme estava de há muito anunciado, se devia produzir o grande sinal que teria o condão de converter em crentes os descrentes. O dia, ao contrário dos que o antecederam, amanheceu chuvoso e frio.

E o meu entusiasmo, que frio tambem era porque o não estimulava o calor de uma convicção intima, teria cedido á contrariedade que á jornada opunha o tempo agreste e inclemente, se á mente não me acudisse que a desistencia poderia maguar a Senhora D. Maria de Jesus que com tão penhorante amabilidade quiz reservar-me um dos muito cobiçados lugares4.

A chuva que nos déra treguas desde a nossa partida de Tôrres, ás 9 horas, até chegarmos perto de Vila Nova de Ourem, começou de fustigar-nos batida do vento que soprava rijo, encharcando-nos e enregelando-nos, até á Fátima, em casa de cujo prior nos recolhemos para enxugarmos a roupa e tomarmos alguma coisa que nos confortasse.

Não julgues que eramos nós só que assim tão corajosamente afrontavamos sem dar mostras de cobardia ou fraqueza a intemperie do tempo e a fúria do vendaval. Dezenas, centenas, milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais encontrámos nós pelo longo caminho utilizando todos os variados meios de transporte, desde o burro cabisbaixo e de orelhas cahidas até ao automovel luxuoso e cómodo. A todos a fé no desconhecido dava alento e coragem, sem um grito de revolta, sem um gesto de desânimo. A gravidade e a compostura que em todos os rostos se descobria éra garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos impunha.

Reconfortados com os cómodos e gasalhado do lar hospitaleiro do bom do Prior, seguimos para o teatro dos sensacionais e estupendos acontecimentos, que da Fátima dista uns bons dois quilómetros.

Entretanto a chuva continuava impertinente e o vento soprava rijo, apenas se vendo correr na atmosfera os castelos encantados de nuvens densas e negras. Ao chegarmos ao sitio já agora memoravel, eu tive a impressão de um vastissimo acampamento onde milhares de pessoas se acolhiam em barracas cobertas de ardósia. Tal o efeito de milhares de chapeus de chuva abertos...

Como a estrada estava alagada da chuva que caía abundante, não saímos do auto, e ficámos ali, onde centenas de carros e automoveis estavam alinhados num extensão aproximada de um quilómetro.

A distancia que nos separava da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trono á celeste Visão, não mediria cem metros, e não prejudicava a observação do que junto dela se passava. A multidão, em muitos milhares de pessoas computada, aglomerava-se numa ordem, num respeito, num acatamento que impressionavam vivamente o espirito dos espectadores. Até nós vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solene.

Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e estraordinário que ainda me foi dado presenciar. No relógio do auto o ponteiro marcava duas horas: aproximava-se o momento augusto por que milhares de corações ricos de fé anciavam. A chuva, que tinha abrandado, deixou-nos então de todo; e para o norte diviso numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.

Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã chuvosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. O ponteiro indicou 2h e 5m, depois 2h e 10m e na terra o silencio éra apenas cortado por ecos mal distintos que repetem as orações que junto á Carrasqueira se fazem. Emquanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé, eu pensava no modo mais airoso de me sair do ridiculo a que não me pouparia a mofa dos meus amigos companheiros de todos os dias.

Já em algumas almas piedosas surgia o receio de que facto estrondoso anunciado não se désse realizasse, quando de repente toda aquela imensa multidão se agitou e num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o ceu, aonde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias num movimento de veloz rotação, que na frase pitoresca de alguns lembrava uma rodinha de fogo.

Os espectadores, entreolhando-se, apresentavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte vermelho-alaranjado onde quer que os olhos se fitavam viam-se fachos de luz esbatida, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.

Tal foi o fenomeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma expectativa benévola.

Descrentes lá houve, e alguns até com resaibos de ateísmo, que se declararam rendidos perante o poder que tal prodigio operava.

Aqui tens, minha boa Isabelinha, o que eu observei, e comigo milhares de pessoas.

Agora vou dizer-te a minha impressão pessoal porque nada quero ocultar-te em assunto que está interessando vivamente o paíz desde as arribas do Douro e Trás-os-Montes até ao marulhar dolente das ondas que beijam o Algarve.

É fóra de dúvida que estamos em presença de factos que comoveram fundamente as multidões, não hesitando muitos em classificá-los de milagre.

Sê-lo-há? Seria temerário afirmá-lo.

Todavia é certo que em boa critica historica não devemos nem podemos na apreciação dos factos separar êstes das circunstancias que os precederam e que os acompanharam. Creio e admito que, senão todos, o maior numero dos factos observados são explicaveis á luz da sciencia; e tambem é meu parecer que presentemente o estado da alma popular, por multiplas e variadas razões que se filiam nas agruras da vida actual, cortada de dificuldades de toda a ordem, alanceada de tristezas e desgostos, amargurada pela saudade dos entes queridos que lá longe correm riscos graves nos campos de batalha, é sobremaneira propício para atirar com a alma atormentada para as regiões puras do ideal em demanda do auxilio e do confôrto que na terra não logra encontrar. Seja terror, seja superstição, o que quizerem; o que é certo é que ali milhares de corações encontram apoio, refrigério e lenitivo. E no caso da Fátima, damos de barato que tudo se explica por causas naturais, uma circunstancia basta para lhe dar fóros de maravilhoso o ter sido anunciado para o dia e hora certa com a antecedencia de 6 mêses, e depois ainda no próprio dia. Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado. Imediatamente o sol, que até então se conservára encoberto, aparece e mostra-se pela fórma que fica dito.

Coincidencia? Seja. Mas não será admiravel e surpreendente semelhante coincidencia de um facto com tanta antecedencia firmemente anunciado para dia e hora certa, e ainda no próprio dia e á hora precisa?

E ponto, sôbre o caso da Fátima. Aos sábios deixemos a palavra; e ao futuro a verificação de um milagre, ou a confirmação de uma mistificação.

Dos meus nada de novo te posso dizer pois que continuam a vida de todos os dias. Mãe13 e filha14 gravitam na mesma órbita, descrevendo curvas irregulares e concentricas com pontos obrigados de paragem nas casas de Barachos, Pimenta e de teus Pais, onde ela é mais demorada. O João vai arrastando uma vida aborrecida em

Alpiarça onde interinamente serve o lugar de praticante de finanças. O Augusto15 de pé no estribo para Santarem. Do Pedro16 consta viver uma vida feliz com a sua cara metade17 que ainda nem por sombras me prometeu um neto.

E o meu amiguinho Neca18? Estou daqui a pouco a vê-lo de fraque e chapeu de côco.

E o simpatico e buliçoso Bão19? Êsse talvez não conserve a lembrança de Tôrres20.

E a engraçada e donairosa Xaninha?

Não me falas nêles; e de todos temos verdadeira saudade.

Vou livrar-te do suplicio de leres a minha prosa insulsa, do que todavia me não cabe a culpa visto tu assim o quereres. Mas antes, peço-te que apresentes os cumprimentos afectuosos da minha gente e os meus, que para ti tambem são.

Beija por nós os teus Filhinhos, e crê-me com sincera simpatia

Tôrres Novas, 18-10-1917

João Lúcio

Notas dos editores

1 Nasceu em Castelo Branco. Foi Inspector escolar em Torres Novas. Foi convidado por Maria de Jesus Raposo para ir a Fátima, pois ela queria ter consigo uma pessoa responsável e de confiança. Faleceu a 23 de Novembro de 1919.
2 Isabel de Maria Amado Jara de Carvalho, sobrinha da esposa de Lúcio Serra, portanto sua sobrinha, por afinidade. Filha de João Maria Amado de Melo Ramalho Pimentel de Almeida da Cunha e Vasconcelos Matamouros e de Isabel Maria de Figueiredo Azevedo Velez Dantas Pereira.
4 Foram no automóvel as seguintes pessoas: Mariana Dantas, João Amado da Cunha Vasconcelos, Josefina da Cunha Serra, esposa do autor, Maria Ermelinda de Vilhena Barbosa e sua Mãe, Branca Lobo de Moura Vilhena Barbosa, o Dr. Formigão, a filha de João Serra, Maria Elisa da Cunha Serra e o autor desta carta.
13 Esposa de Lúcio Serra, Josefina da Cunha Serra
14 Maria Elisa da Cunha Serra
15 Augusto Maria da Cunha Serra
16 Pedro Rocha, médico em Vila Real
17 Maria Luísa Rocha. Enlouqueceu, vindo a falecer em Idanha, Belas.
18 Manuel.
19 João
20 Torres Novas
Aparato crítico e remissões (10)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

3 Cf. Doc. 107, de 17 de Outubro de 1917, nota 7.
5 Riscou palavra ilegível.
6 Riscou dentro de e substituiu por ali.
7 Riscou silencio e substituiu por recolhimento.
8 Riscou palavra ilegível e substituiu por a mofa.
9 Riscou foi.
10 désse, sublinhado no original. Pensamos que o autor pretendia riscar a palavra désse e substituir por realizasse.
11 a corr. e; riscou quem.
12 Riscou com dois traços o que se observa.
21 Palavra ilegível, devido a um rasgão no original.
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