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DCF III-1, Doc. 117
A - ASF, Documentos de 1917
Descrição do documento: Quatro folhas de papel de carta, com 26 linhas. Estão numeradas, no canto superior direito, de 1 a 4, pelo próprio autor. Seguimos a numeração por páginas de 1-4v
Querida Isabelinha
A tua carta, que com surpreza acabo de receber, confunde-me e coloca-me em sérios embaraços. Não contente em agravares a minha situação impondo-me a responsabilidade de prendas que não tenho, julgas-me com aptidões de cronista e pedes-me que o seja do caso egréjio, e já agora famigerado, da Fátima.
A pedido de senhoras não se resiste, e muito menos ao teu que vem de pessoa que muito estimo e aprecio e que muita indulgencia terá para me absolver da involuntária imperfeição do relato, que passo a fazer, minucioso e imparcial, como desejas e como convêm a um capitulo interessante da história dos tempos que correm.
Convidado pela Senhora D. Maria de Jesus, que num requesito de extremada gentileza quiz tambem por ventura proporcionar a um suposto descrente ensejo para lhe pôr á prova a sua crença, fui á Fátima, lugar de tradição moirisca, no dia 13 do corrente, em que, conforme estava de há muito anunciado, se devia produzir o grande sinal que teria o condão de converter em crentes os descrentes. O dia, ao contrário dos que o antecederam, amanheceu chuvoso e frio.
E o meu entusiasmo, que frio tambem era porque o não estimulava o calor de uma convicção intima, teria cedido á contrariedade que á jornada opunha o tempo agreste e inclemente, se á mente não me acudisse que a desistencia poderia maguar a Senhora D. Maria de Jesus que com tão penhorante amabilidade quiz reservar-me um dos muito cobiçados lugares4.
A chuva que nos déra treguas desde a nossa partida de Tôrres, ás 9 horas, até chegarmos perto de Vila Nova de Ourem, começou de fustigar-nos batida do vento que soprava rijo, encharcando-nos e enregelando-nos, até á Fátima, em casa de cujo prior nos recolhemos para enxugarmos a roupa e tomarmos alguma coisa que nos confortasse.
Não julgues que eramos nós só que assim tão corajosamente afrontavamos sem dar mostras de cobardia ou fraqueza a intemperie do tempo e a fúria do vendaval. Dezenas, centenas, milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais encontrámos nós pelo longo caminho utilizando todos os variados meios de transporte, desde o burro cabisbaixo e de orelhas cahidas até ao automovel luxuoso e cómodo. A todos a fé no desconhecido dava alento e coragem, sem um grito de revolta, sem um gesto de desânimo. A gravidade e a compostura que em todos os rostos se descobria éra garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos impunha.
Reconfortados com os cómodos e gasalhado do lar hospitaleiro do bom do Prior, seguimos para o teatro dos sensacionais e estupendos acontecimentos, que da Fátima dista uns bons dois quilómetros.
Entretanto a chuva continuava impertinente e o vento soprava rijo, apenas se vendo correr na atmosfera os castelos encantados de nuvens densas e negras. Ao chegarmos ao sitio já agora memoravel, eu tive a impressão de um vastissimo acampamento onde milhares de pessoas se acolhiam em barracas cobertas de ardósia. Tal o efeito de milhares de chapeus de chuva abertos...
Como a estrada estava alagada da chuva que caía abundante, não saímos do auto, e ficámos ali, onde centenas de carros e automoveis estavam alinhados num extensão aproximada de um quilómetro.
A distancia que nos separava da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trono á celeste Visão, não mediria cem metros, e não prejudicava a observação do que junto dela se passava. A multidão, em muitos milhares de pessoas computada, aglomerava-se numa ordem, num respeito, num acatamento que impressionavam vivamente o espirito dos espectadores. Até nós vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solene.
Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e estraordinário que ainda me foi dado presenciar. No relógio do auto o ponteiro marcava duas horas: aproximava-se o momento augusto por que milhares de corações ricos de fé anciavam. A chuva, que tinha abrandado, deixou-nos então de todo; e para o norte diviso numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.
Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã chuvosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. O ponteiro indicou 2h e 5m, depois 2h e 10m e na terra o silencio éra apenas cortado por ecos mal distintos que repetem as orações que junto á Carrasqueira se fazem. Emquanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé, eu pensava no modo mais airoso de me sair do ridiculo a que não me pouparia a mofa dos meus amigos companheiros de todos os dias.
Já em algumas almas piedosas surgia o receio de que facto estrondoso anunciado não se désse realizasse, quando de repente toda aquela imensa multidão se agitou e num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o ceu, aonde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias num movimento de veloz rotação, que na frase pitoresca de alguns lembrava uma rodinha de fogo.
Os espectadores, entreolhando-se, apresentavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte vermelho-alaranjado onde quer que os olhos se fitavam viam-se fachos de luz esbatida, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.
Tal foi o fenomeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma expectativa benévola.
Descrentes lá houve, e alguns até com resaibos de ateísmo, que se declararam rendidos perante o poder que tal prodigio operava.
Aqui tens, minha boa Isabelinha, o que eu observei, e comigo milhares de pessoas.
Agora vou dizer-te a minha impressão pessoal porque nada quero ocultar-te em assunto que está interessando vivamente o paíz desde as arribas do Douro e Trás-os-Montes até ao marulhar dolente das ondas que beijam o Algarve.
É fóra de dúvida que estamos em presença de factos que comoveram fundamente as multidões, não hesitando muitos em classificá-los de milagre.
Sê-lo-há? Seria temerário afirmá-lo.
Todavia é certo que em boa critica historica não devemos nem podemos na apreciação dos factos separar êstes das circunstancias que os precederam e que os acompanharam. Creio e admito que, senão todos, o maior numero dos factos observados são explicaveis á luz da sciencia; e tambem é meu parecer que presentemente o estado da alma popular, por multiplas e variadas razões que se filiam nas agruras da vida actual, cortada de dificuldades de toda a ordem, alanceada de tristezas e desgostos, amargurada pela saudade dos entes queridos que lá longe correm riscos graves nos campos de batalha, é sobremaneira propício para atirar com a alma atormentada para as regiões puras do ideal em demanda do auxilio e do confôrto que na terra não logra encontrar. Seja terror, seja superstição, o que quizerem; o que é certo é que ali milhares de corações encontram apoio, refrigério e lenitivo. E no caso da Fátima, damos de barato que tudo se explica por causas naturais, uma circunstancia basta para lhe dar fóros de maravilhoso o ter sido anunciado para o dia e hora certa com a antecedencia de 6 mêses, e depois ainda no próprio dia. Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado. Imediatamente o sol, que até então se conservára encoberto, aparece e mostra-se pela fórma que fica dito.
Coincidencia? Seja. Mas não será admiravel e surpreendente semelhante coincidencia de um facto com tanta antecedencia firmemente anunciado para dia e hora certa, e ainda no próprio dia e á hora precisa?
E ponto, sôbre o caso da Fátima. Aos sábios deixemos a palavra; e ao futuro a verificação de um milagre, ou a confirmação de uma mistificação.
Dos meus nada de novo te posso dizer pois que continuam a vida de todos os dias. Mãe13 e filha14 gravitam na mesma órbita, descrevendo curvas irregulares e concentricas com pontos obrigados de paragem nas casas de Barachos, Pimenta e de teus Pais, onde ela é mais demorada. O João vai arrastando uma vida aborrecida em
E o meu amiguinho Neca18? Estou daqui a pouco a vê-lo de fraque e chapeu de côco.
E a engraçada e donairosa Xaninha?
Não me falas nêles; e de todos temos verdadeira saudade.
Vou livrar-te do suplicio de leres a minha prosa insulsa, do que todavia me não cabe a culpa visto tu assim o quereres. Mas antes, peço-te que apresentes os cumprimentos afectuosos da minha gente e os meus, que para ti tambem são.
Beija por nós os teus Filhinhos, e crê-me com sincera simpatia
Tôrres Novas, 18-10-1917
João Lúcio
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (10)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.