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DCF III-2, Doc. 390A
Doc. 390A1
5 dez. 1918, Leiria
Artigo do “Jornal de Leiria”2 com críticas a artigos de “O Dia” e de “O Mensageiro” sobre a “predição” de Fátima.
Publ.: “Jornal de Leiria”, Leiria, 2 (91), 5 de Dezembro de 1918, p. 3, col. 1.
FÁTIMA
Os leitores recordam-se: Na serra da Fátima, em 13 de Outubro de 1917, 30 ou 40 mil pessoas se reuniram para presenciar um grande milagre: a aparição da Virgem, só vista por uns pastorsitos e o Sol a girar, numa rotação vertiginosa! Simplesmente assombroso!
Agora, passado um ano, a sra Maria Madalena3, que assistira a tão estupendo milagre e publicara no Dia um artigo a êle referente, que o órgão “católico”-monárquico local transcreveu, publicou naquele jornal um novo artigo, intitulado A predição da Fátima, onde pretende ligar o facto de ter terminado a guerra com as palavras um ano antes atribuidas aos pastores intérpretes da vontade divina: “Dentro de um ano há-de acabar a guerra, e os soldados voltarão para as suas terras dentro de um ano”.
Entre as várias e inúmeras Madalenas que de longada se fôram à Fátima, ia também um sr. Carlos Silva, que não sabemos quem seja, — êle há tantos! —, que enviou ao redactor do já citado órgão “católico”-monárquico local uma carta que principia assim: “Várias pessoas que me conhecem, que sabem que não sou jasuita nem fanático da religião, me teem perguntado o que vi e o que se passou na Fátima. Como também fiz parte do número dos estúpidos que lá foram, como algumas pessoas dizem, a quem não levo nada pelo elogio, apenas o devolvo à procedência, desejo em poucas palavras explicar o que presenciei...”
E o epistológrafo que, como se vê, era modesto, depois de falar no seu amigo Neves, da Quinta da Sardinha, de se estasiar com o aspecto sublime das mulheres com sacas à cabeça a serpentear pela serra, de notar que a chuva, engrossando, punha em verdadeiros pintos aqueles que não tinham guarda-chuva e que êle estava perto duma azinheira tiritando de frio e encharcadinho até aos ossos, viu, não sabe como, levantar-se uma lebre que sucumbiu a uma paulada, não chegando um pêlo a cada um que a seguia! E também, sem saber como, viu toda a gente descoberta e de joelhos, depois de uma das meninas ter dito que já lá estava Nossa Senhora!
Prosseguindo na descrição do que sucedia, escreve o sr. Carlos Silva:
“Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito: – A guerra acaba por estes dias; brevemente os soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela, pois que sou a Senhora do Rosário.”
E depois de terem sido levadas em triunfo para casa dos pais, a assistência começar retirando dando por bem empregado o tempo que ali estivera a pé firme apanhando a chuva e o vento da serra, o brilhante epistológrafo confessa:
“E eu fiquei com cara de palerma a olhar para tudo isto sem saber explicar tão imponente fenómeno.”
Os leitores notaram a contradição existente entre a sra Madalena e o sr. Silva, quanto à predição do fim da guerra.
Madalena ouviu que acabava – dentro dum ano –; o epistológrafo ouviu – por êstes dias.
Qual dos dois disse a verdade? Ambos certamente, não contando com aqueles que afirmaram ter ouvido dizer às pastoras que a guerra terminava no próprio dia do suposto milagre...
Não gastaríamos tempo, tinta e papel com êste caso se não fôsse a exploração que certas alminhas ainda hoje com êle fazem e ao qual a própria autoridade eclesiástica não ligou a importância milagreira que várias Madalenas... bíblicas e não bíblicas lhe atribuiram, de parceria com numerosos romeiros que, à semelhança do citado epistológrafo, não são jasuitas, mas ficaram como êle ficou, sem saberem explicar tão imponente fenóneno!...
Nicolau de Pina
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (4)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.