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DCF III-1, Doc. 236

30 out. 1917Angra do Heroísmonotícia de imprensaA Verdade

O jornal "A Verdade"1 publica um extenso artigo sobre os acontecimentos de Fátima, transcrevendo, parcialmente artigos de "A Ordem", de "O Dia" e de "O Século".

Publ.: "A Verdade", Angra do Heroísmo, 6 (1194), 30 Out. 1917, p. 1, cols. 1-3; p. 2, cols. 1-3; p. 3, cols. 1-2.

CASO MARAVILHOSO

XXX

Fátima — palavra até hoje perdida entre os numerosissimos nomes de logarejos insignificantes e de remotas aldeias das provincias do nosso continente, é agora guardada religiosamente na memoria de milhões de crentes, como o nome dum logar privilegiado que o Ceo escolheu para theatro dos seus misericordiosos prodigios, em nossos dias.

Se esta multidão é ou não ludibriada em seu piedoso acatamento ao que dizem os jornais ter ocorrido ultimanente naquela obscura aldeia da Extremadura, segundo o testemunho de cerca de cincoenta mil pessoas, de todas [as] classes sociaes, opiniões religiosas e graus de ilustração, não o dizemos nós, nem tão pouco nos pertence averiguá-lo. Nesta noticia apenas nos limitamos ao simples oficio de chronista, servindo-nos para isso das informações fidedignas de pessoas crentes e incredulas, testimunhas presenciaes do facto que apresentam como prodigioso.

Fátima — é uma pequena freguezia de cerca de mil e setecentas almas, simples e boas, como no geral o são todas as das nossas aldeias, onde, como ali acontece, o fulcro, em volta do qual gira toda a vida individual e colectiva, é a Religião. É situada na encosta da serra de Minde, a cerca de oito kilometros de Vila Nova d'Ourem, a cujo concelho pertence, ficando-lhe a sud'oeste, entre as cidades de Leiria e Thomar, e a meio caminho, pouco mais ou menos, de Lisboa para Coimbra.

Por uma carta particular dum distincto cavalheiro que reside no continente para a sua familia, nesta cidade, sabemos que aquele nosso conterraneo foi uma das numerosissimas testemunhas do facto maravilhoso, ocorrido em trese do corrente mês, em Fátima. Vinha já prendendo tanto a atenção de todos o que testemunhas presenciaes diziam dar-se ali no dia trese de cada mês, desde maio, que aquele nosso conterraneo para lá partiu no dia dose do corrente, de automovel, com um seu ilustre amigo. Em Fátima encontrou uma imensa massa de povo, que ele calculou em cerca de cincoenta mil pessoas e que para ali tinham vindo atraidas pelo prodigio anunciado, utilisando todos os meios de condução, os que não puderam ir a pé. Encontravam-se naquela charneca, triste por naturesa e mais triste naquele dia escuro e em que uma chuvinha miuda e impertinente encharcou todos os espectadores, mais de quinhentos automoveis, o que está perfeitamente d'harmonia com as informações dum correspondente do Diario de Noticias, em Vila Nova d'Ourem, o qual diz terem regressado de Fátima, pela referida Vila mais de cem automoveis, cento trinta e cinco bicicletas e duzentos e quarenta carros diversos.

Chegada a hora a que era esperado o milagre, diz o citado informador que o sol, aparecendo pela primeira vez naquele dia, foi perfeitamente fixado por toda aquela multidão que os raios solares tingiram sucessivamente de azul, amarelo e cor de purpura, ao mesmo tempo que se notava naquele astro umas tremuras e movimentos desconhecidos.

Eis a sumula do que diz a referida carta, que obsequiosamente nos foi facultada, e que narra o que toda aquela imensa mole de gente presenciou, conforme os testemunhos que abaixo transcrevemos de varios jornaes e que foram escriptos por quem ali foi expressamente para informar o publico do que ali se passasse.

É que corria já longe, despertando a curiosidade de toda a gente, a noticia sensacional do que vinha ocorrendo em Fátima.

No dia d'Ascenção do Senhor, trese de maio, tres creanças,

Lucia, de dez anos, Francisco, de nove e Jacinta de sete, andando a apascentar gado nos arredores daquela povoação, tiveram a piedosa lembrança de resar o terço, todos juntos. Durante essa devota pratica, viram, segundo as suas declarações, uma senhora de extrema beleza que lhes pediu que ali fossem durante seis mezes, em tal dia. As crianças assim o fizeram, indo tambem ao local da aparição muitas outras pessoas, cujo numero foi aumentando, á medida que noticia tão sensacional ia correndo.

No dia tres3 de setembro a concorrencia ali orçou por vinte mil assistentes, que nada de extranho observaram, mas que levaram para as suas terras a noticia de que no dia trese de outubro, sexto e ultimo dia das anunciadas aparições, um caso sensacional e milagroso corroboraria a veracidade da aparição de que falavam aquelas tres crianças.

Foi esta noticia que ali atraiu cerca de cincoenta mil pessoas, segundo os calculos de varios espectadores e dum correspondente do Diario de Noticias.

O importante diario catholico de Lisboa — A Ordem, de que é director o distintissimo engenheiro e conhecido escriptor, José Fernando de Sousa (Nemo) enviou a Fátima um seu redactor, de cujas impressões publicadas naquele jornal extractamos o seguinte:

“Em Fátima que ha? Que tem havido? [...] que fortemente comovia.

O Dia, bem conhecido e muito apreciado diario da capital, publicou sobre o caso de Fátima um lindo artigo da ilustre escriptora ex.ma sra D. Maria Magdalena Martel Patricio, distincta colaboradora da Pagina Feminina, do Diario Nacional, onde aquela nobre dama descreve, no seu estilo encantador, as suas impressões sobre o extraordinario acontecimento a que assistiu.

Eis os termos em que a sra D. Martel Patricio narra o facto:

À uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva.[...] milhares e milhares de creaturas de Deus!

O sr. Avelino d’Almeida, catholico renegado e actualmente pertencente ás fileiras radicaes e e jacobinas do Seculo, foi tambem ali, como enviado especial daquele jornal, onde depois publicou um relato do que observou. Do que ele escreveu recortamos o que segue:

A chuva cai incessantemente mas ninguem desespera. [...] — Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!

Em consequencia da justa sensação produzida por tal acontecimento um redactor do Seculo foi entrevistar o celebre astronomo sr. Frederico Oom que, interrogado sobre as perturbações solares observadas em Fátima, disse:

“A ser um phenomeno cosmico, os observatorios astronomicos [...] ao systema dos mundos, por minimas que sejam. Já vê...”

É importante esta declaração daquele ilustre homem de sciencia, pelo qual se vê que o facto maravilhoso observado em Fátima por milhares de individuos não foi um phenomeno natural, pois não só não foi visto em nenhuma outra parte, mas nem os mais delicados aparelhos scientificos o registaram.

Ahi deixamos aos nossos estimaveis leitores o relato que hontem prometemos, aguardando o juizo da Igreja sobre a autenticidade do milagre e da aparição.

Notas dos editores

1 Diário de Angra do Heroísmo (Açores). Director: Costa Ferreira. Editor e proprietário: J. Maria Fernandes
3 Sic, por trese.
Aparato crítico e remissões (6)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

2 Cf. Doc. 71, de 13 de Outubro de 1917, nota 2.
4 Doc. 97, de 16 de Outubro de 1917.
5 Doc. 127, de 19 de Outubro de 1917.
6 Sic
7 Doc. 87, de 15 de Outubro de 1917.
8 Doc. 124, de 18 de Outubro de 1917.
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