Explorar / Relato

Leonor das Dores Salema Manoel · 13 de outubro de 1917

Aristocrataaristocrata (filha do Marquês de Tancos), de 59 anos
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarA multidãoPalavras dos videntes

Creio firmemente que Aquilo é Verdade, n'essa Fé já para lá fui, tive lá momentos de afflicção e desconsolo, que não fizeram com que deixasse de acreditar, só me faziam uma grande pena! Foi quando no momento solemne eu não vi nada do que os outros viam! Não vi então nada no sol, não vi nada ali que justificasse tudo o mais que eu via á roda de mim, mas esse espectaculo e tudo o que eu vinha vendo desde as 10 horas da manhã eram o bastante para eu continuar a crêr. Mas era uma lucta, porque ao mesmo tempo estava triste, tristeza que sem eu querer me vinha á cára, que a algumas pessôas fez impressão. Puzemos-nos a caminho, e feitos já alguns kilometros d'automovel, a Marianna Ribeira5, que tudo tinha visto, que tinha ouvido o recado da criança (eu não estava bastante perto para ouvir as palavras mas tinha podido vêr que ella vinha fallando muito animada em contraste com o que tinha visto antes como depois te direi) a Marianna diz-me: reparem para o sol que ainda não está normal. Eu então olho e vi, affianço que vi e juraria se necessario fosse. O sol sem brilho, sem côr e poude fital-o. Ia passando uma ligeira nuvem branca. Eu disse: deixa vêr quando passar a nuvem. Passou e eu sempre a fital-o, vi-o passar por differentes côres que não posso precizar e fez-se verde, bem verde claro, como verde salsa com um aro doirado á roda, e girando. Uns raios muito compridos pareciam tocar na terra e o sol parecia estar separado do ceu. Depois o ceu tomava uns clarões côr de rosa 2/ mudou para amarellado de roda do sol, e mais longe manchas aqui e alem. Passados uns momentos compridos que não sei precizar, ficou normal e não tornei a poder fital-o.

Porque vi ali e não vi lá? Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas! Não sei, o que sei, o que affianço é que isto assim aconteceu! Como chegassemos cedo fomos até Aljustrel; fomos a pé e já chovia bem. Vi a pequena, fallamos-lhe, fizemos-lhe algumas perguntas a que ella se não mostrava disposta a responder, comquanto nos sorrise com um modo muito simples e bom. Muito instada disse, como quem repete uma coisa já muito dita a historia da primeira Apparição tal qual tu m'a mandaste contar. Nada mais disse e não insistimos.

[…]

Eu agora, quando rezo, não vejo diante de mim senão aquelle tosco arco de pinho, as duas candeias e uns ramos de flôres, e diante d'isso aquelle povo a rezar o terço e a cantar a ladainha, só porque acreditaram que ali tinha estado e ia estar Nossa Senhora!

Notas dos editores (5)

1 Nasceu a 4 de Abril de 1858, era filha dos quintos Marqueses de Tancos e décimo primeiro de Atalaya. Faleceu a 6 de Setembro de 1930. Em 1917 tinha 59 anos.

2 Nasceu a 21 de Janeiro de 1881. Filha de João Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara (Ribeira Grande) e de Eugénia de Melo Breyner (Mafra). Foi educanda no Colégio das Religiosas da Visitação de Santa Maria (Salesias), em Belém, Lisboa. Faleceu a 4 de Julho de 1928.

5 Marianna Caetana Rita da Câmara, nasceu a 22 de Maio de 1858, casou a 16 de Agosto de 1877 com Manuel Maria de Castro Lemos de Magalhães Menezes, Senhor da Casa do Covo. Faleceu a 22 de de Novembro de de 1935.

14 Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo, nasceu a 17 de Junho de 1901. Filha de Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein e António Mimoso Brandão de Melo.

17 Dr. Carlos de Azevedo Mendes.

DCF III-1, Doc. 93 · carta · 16 out. 1917 (3 dias depois)Digitalizações (4)
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