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DCF III-1, Doc. 93
A - AForm, Doss. 9, fl. 20, doc. 1
Descrição do documento: Pequeno caderno de papel de carta, de duas folhas (11,5x18cm) escrito nos dois lados, sem numeração; uma folha de papel diferente e de outro tamanho (10x20,5cm) numerada com 2, escrita nos dois lados; outro caderno mais pequeno, de duas folhas, escritas nos dois lados e numerado com 3; por último, uma folha do mesmo papel e do tamanho do caderno anterior, escrita só na frente, numerada com 4.
No canto superior direito da fl.1, foi escrito, com caligrafia diferente: "outubro 1917 Sobre o fenómeno do sol".
Cascaes 16.
Minha querida Anna
Tenho desejo de communicar comtigo, por ter sido a ti que me dirigi quando quiz informações seguras. Mas nem sei o que te diga, nem tento explicar-te as minhas impressões! Louvado seja Deus por me ter deixado viver até aquelle dia! Creio firmemente que Aquilo é Verdade, n'essa Fé já para lá fui, tive lá momentos de afflicção e desconsolo, que não fizeram com que deixasse de acreditar, só me faziam uma grande pena! Foi quando no momento solemne eu não vi nada do que os outros viam! Não vi então nada no sol, não vi nada ali que justificasse tudo o mais que eu via á roda de mim, mas esse espectaculo e tudo o que eu vinha vendo desde as 10 horas da manhã eram o bastante para eu continuar a crêr. Mas era uma lucta, porque ao mesmo tempo estava triste, tristeza que sem eu querer me vinha á cára, que a algumas pessôas fez impressão. Puzemos-nos a caminho, e feitos já alguns kilometros d'automovel, a Marianna Ribeira5, que tudo tinha visto, que tinha ouvido o recado da criança (eu não estava bastante perto para ouvir as palavras mas tinha podido vêr que ella vinha fallando muito animada em contraste com o que tinha visto antes como depois te direi) a Marianna diz-me: reparem para o sol que ainda não está normal. Eu então olho e vi, affianço que vi e juraria se necessario fosse. O sol sem brilho, sem côr e poude fital-o. Ia passando uma ligeira nuvem branca. Eu disse: deixa vêr quando passar a nuvem. Passou e eu sempre a fital-o, vi-o passar por differentes côres que não posso precizar e fez-se verde, bem verde claro, como verde salsa com um aro doirado á roda, e girando. Uns raios muito compridos pareciam tocar na terra e o sol parecia estar separado do ceu. Depois o ceu tomava uns clarões côr de rosa 2/ mudou para amarellado de roda do sol, e mais longe manchas aqui e alem. Passados uns momentos compridos que não sei precizar, ficou normal e não tornei a poder fital-o.
Porque vi ali e não vi lá? Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas! Não sei, o que sei, o que affianço é que isto assim aconteceu! Como chegassemos cedo fomos até Aljustrel; fomos a pé e já chovia bem. Vi a pequena, fallamos-lhe, fizemos-lhe algumas perguntas a que ella se não mostrava disposta a responder, comquanto nos sorrise com um modo muito simples e bom. Muito instada disse, como quem repete uma coisa já muito dita a historia da primeira Apparição tal qual tu m'a mandaste contar. Nada mais disse e não insistimos.
Tinha immenso empenho que me dissesses quem é o homem que a levou ao cóllo, e tal qual o que ela vinha dizendo. Disseram-me que esse homem é um doutor de Torres Novas17, que era descrente, que tem ali ido das outras vezes e que depois de conversar com as crianças acreditou. É verdade tenho pena de não estar agora 3/ mais perto de gente que mais de perto esteja seguindo isto. O que sabes com certeza diz-me, mas dizendo-me quem disse e quem vio. Não é para mim que precizo d'estas affirmativas é para os outros que perguntam, para os de bôa-fé e para..... os outros. D'aqui só fomos nós e as nossas companheiras d'auto-movel que eram a Marianna Ribeira, Ma do Carmo Albergaria e a pequena Pereira de Mello Salema. N'outro automovel a familia Pinto Coelho, e sei que do Estoril foram Coruches. De tudo isto, só põe duvidas ou prudencias exageradas os Pintos Coelhos, sahindo até o Domingos a escrever na "Ordem" que no dia seguinte vio a mesma coisa no sol! E faz muitos discursos sobre prudencias, como se a gente não soubesse que a Igreja o é sempre e que nós temos que acatar as suas decisões.
Tive pena de te não vêr, teria gostado tanto de encontrar gente que me dissesse mais coisas.
Não estamos perdidos, Anna, se Nossa Senhora vem ter comnosco. Eu agora, quando rezo, não vejo diante de mim senão aquelle tosco arco de pinho, as duas candeias e uns ramos de flôres, e diante d'isso aquelle povo a rezar o terço e a cantar a ladainha, só porque acreditaram que ali tinha estado e ia estar Nossa Senhora! Vê se me escreves e nos dizes mais alguma coisa: responde á pergunta que te fiz, e a mais esta: Se é certo o que já me disseste de, no dia seguinte aquelle em que se não deu a apparição por as crianças irem prezas, a pequena ter dito que Nossa Senhora lhe fallara no dia seguinte26. Diz-me emfim o que souberes que seja interessante.
O que nós nos encharcámos. Eu tinha um grande casaco peludo que levára para o frio, mas nem chapeu de chuva; pois esse casacão repassou como uma esponja, e o fato de baixo e a pelle, da cabeça aos pés. No automovel tirei o casaco para o meu corpo e o vestido enxugarem ao ventinho que cortava, vinhamos descalças para ser mais..... agradavel e puzemos o calçado no motor. E nem um espirro, e nem uma dôr rheumatica, e digo-te que 4 algumas havia na caravana que não são fortes. Fico esperando uma carta tua quando tiveres paciencia!
Muitas saudades da tua mto ama
Leonor
A Branca e pequenas tambem estavam? Ainda ahi estão? Não chegámos a ir procurar a Maria Romana ao Estoril: ella que não repare, que não foi por mal. Dá-lhes saudades.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (21)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.