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DCF Seleção, Doc. 39 (= DCF I, Doc. 32)
Depoimento de Jacinto de Almeida Lopes, primeira testemunha do inquérito paroquial, sobre as aparições de Fátima, nos dias 13 de julho e 13 de outubro de 1917.
Publ.: DCF, I - Doc. 32 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).
Depoimento da 1ª testemunha
Jacinto de Almeida Lopes, casado, proprietário, natural e morador no lugar da Amoreira, desta freguesia de Fátima, sendo interrogado sobre o que presenciara, relativamente aos factos ocorridos no local chamado Cova da Iria, deste freguesia, disse que no dia treze de julho de mil novecentos e dezassete, tendo-se dirigido com antecedência para o local, ali permaneceu junto à carrasqueira onde estava quando chegaram as crianças. Chegaram, ornamentaram a carrasqueira, ajoelharam, rezaram o terço, levantaram-se e logo, com pouco tempo de demora, tornaram a ajoelhar, e, todos de joelhos, começa a Lúcia, como que estando a falar com alguém voltada para a carrasqueira onde tinha fixada a vista:
– Então o que é que me quereis?
A esta pergunta um bocadito em silêncio, tempo de uma breve resposta. E durante este silêncio ouviu ele, como que vindo da carrasqueira, uma voz muito sumida semelhante, diz, ao zumbir de uma abelha, mas sem distinguir palavra alguma.
– Em seguida diz a Lúcia: – Tenho aqui um pedido a fazer-Vos: Era se Vossemecê melhorava um aleijado de Aljustrel; se convertia uma mulher do Pedrógão; se convertia uma mulher de Fátima e seus filhos; se melhorava um homem da Atouguia ou o levava para o Céu o mais depressa melhor1.
Dito isto... há um curto silêncio, como quem espera resposta, e ouve a mesma voz, que não ouvia enquanto a Lúcia falava.
– Vossemecê, – continua a Lúcia – não poderá fazer com que esta gente se converta?
Silêncio... depois de tempo de uma breve resposta, diz, – como que confirmando o que ouvira:
– Sim, que se reze o terço!... que se reze o terço!... sim... tudo se fará.
E enquanto assim falava fazia acompanhar as palavras com acenos de cabeça.
– Então e Vossemecê não poderá fazer com que esta gente toda acredite?
Silêncio...
Em seguida diz: – Não me quereis mais nada?
Espera... e logo diz:
– Eu também não.
Dito isto, que se levanta instantaneamente e voltando-se para o nascente disse:
– Querem ver Nossa Senhora?!!
E aponta na mesma direção.
No dia treze de outubro, dirigiu-se como tanta gente ao local das Aparições, na ansiedade de observar algum facto extraordinário, pois tinha ouvido dizer que a Senhora dissera à Lúcia que no último dia fazia milagre. A chuva fustigava-o fortemente, mas pouco o incomodava porque o seu objetivo estava na observação do extraordinário. Enquanto a hora se aproxima e o povo se vai aglomerando, observa que umas avezinhas andam volitando sobre a carrasqueira, saltitando de um lado para o outro. Vê, por cima do povo que rodeia a carrasqueira, por vezes, umas seguidas às outras, elevar-se da terra pequenas nuvens de fumo – ou lhe parece fumo – semelhante ao fumo do turíbulo em ocasião de incensação, ou às fumaradas de cigarro. Julga a princípio, – que era alguém que ali estava a fumar ou a fazer fogueira para se aquecer, mas veio averiguar que ali não estava lume de espécie alguma. A hora aproxima-se, e eis que, como que por encanto, a chuva suspende, o sol rompe as densas e negras nuvens e mostra-se dardejante com seus luminosos raios, que bem depressa tomam as cores do amarelo, encarnado e verde, tornando os objetos que estavam sob sua influência de iguais cores; e logo perde o seu brilho e cores, – podendo ser fixado a olho nu sem ferir a vista – e toma um vertiginoso movimento de rotação, parecendo precipitar-se sobre a terra. E enquanto observa estas maravilhas, todo o povo se encontra em altas exclamações. Isto durou, o máximo, uns cinco minutos, depois voltou ao seu estado normal. Mais disse, que no dia de Nossa Senhora da Purificação, isto é, no dia dois de fevereiro de mil novecentos e dezoito, por cerca das três horas da tarde, estando no mesmo local, verificou no sol idênticos sinais aos do dia treze de outubro, o que não tem verificado em muitos outros dias em que lá foi. Mais disse, que está intimamente convencido que as crianças não faltam à verdade do que afirmam, e que, em virtude do que observou está realmente crente que Nossa Senhora é que esteve a falar com a Lúcia, e que os fenómenos que se deram nos dias mencionados são de ordem sobrenatural. E mais não disse dando assim por findo o seu depoimento que sendo-lhe lido o ratifica e sob juramento de que é verdadeiro o assina comigo.
Paroquial de Fátima, 20 de dezembro de 1918
A testemunha Jacinto de Almeida Lopes
O Pároco Manuel Marques Ferreira