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DCF Seleção, Doc. 39 (= DCF I, Doc. 32)

20 dez. 1918FátimadepoimentoPe. Manuel Marques FerreiraOriginalmente DCF I, Doc. 32

Depoimento de Jacinto de Almeida Lopes, primeira testemunha do inquérito paroquial, sobre as aparições de Fátima, nos dias 13 de julho e 13 de outubro de 1917.

Publ.: DCF, I - Doc. 32 (Este documento faz parte do Processo Paroquial de Fátima).

Depoimento da 1ª testemunha

Jacinto de Almeida Lopes, casado, proprietário, natural e morador no lugar da Amoreira, desta freguesia de Fátima, sendo interrogado sobre o que presenciara, relativamente aos factos ocorridos no local chamado Cova da Iria, deste freguesia, disse que no dia treze de julho de mil novecentos e dezassete, tendo-se dirigido com antecedência para o local, ali permaneceu junto à carrasqueira onde estava quando chegaram as crianças. Chegaram, ornamentaram a carrasqueira, ajoelharam, rezaram o terço, levantaram-se e logo, com pouco tempo de demora, tornaram a ajoelhar, e, todos de joelhos, começa a Lúcia, como que estando a falar com alguém voltada para a carrasqueira onde tinha fixada a vista:

– Então o que é que me quereis?

A esta pergunta um bocadito em silêncio, tempo de uma breve resposta. E durante este silêncio ouviu ele, como que vindo da carrasqueira, uma voz muito sumida semelhante, diz, ao zumbir de uma abelha, mas sem distinguir palavra alguma.

– Em seguida diz a Lúcia: – Tenho aqui um pedido a fazer-Vos: Era se Vossemecê melhorava um aleijado de Aljustrel; se convertia uma mulher do Pedrógão; se convertia uma mulher de Fátima e seus filhos; se melhorava um homem da Atouguia ou o levava para o Céu o mais depressa melhor1.

Dito isto... há um curto silêncio, como quem espera resposta, e ouve a mesma voz, que não ouvia enquanto a Lúcia falava.

– Vossemecê, – continua a Lúcia – não poderá fazer com que esta gente se converta?

Silêncio... depois de tempo de uma breve resposta, diz, – como que confirmando o que ouvira:

– Sim, que se reze o terço!... que se reze o terço!... sim... tudo se fará.

E enquanto assim falava fazia acompanhar as palavras com acenos de cabeça.

– Então e Vossemecê não poderá fazer com que esta gente toda acredite?

Silêncio...

Em seguida diz: – Não me quereis mais nada?

Espera... e logo diz:

– Eu também não.

Dito isto, que se levanta instantaneamente e voltando-se para o nascente disse:

– Querem ver Nossa Senhora?!!

E aponta na mesma direção.

No dia treze de outubro, dirigiu-se como tanta gente ao local das Aparições, na ansiedade de observar algum facto extraordinário, pois tinha ouvido dizer que a Senhora dissera à Lúcia que no último dia fazia milagre. A chuva fustigava-o fortemente, mas pouco o incomodava porque o seu objetivo estava na observação do extraordinário. Enquanto a hora se aproxima e o povo se vai aglomerando, observa que umas avezinhas andam volitando sobre a carrasqueira, saltitando de um lado para o outro. Vê, por cima do povo que rodeia a carrasqueira, por vezes, umas seguidas às outras, elevar-se da terra pequenas nuvens de fumo – ou lhe parece fumo – semelhante ao fumo do turíbulo em ocasião de incensação, ou às fumaradas de cigarro. Julga a princípio, – que era alguém que ali estava a fumar ou a fazer fogueira para se aquecer, mas veio averiguar que ali não estava lume de espécie alguma. A hora aproxima-se, e eis que, como que por encanto, a chuva suspende, o sol rompe as densas e negras nuvens e mostra-se dardejante com seus luminosos raios, que bem depressa tomam as cores do amarelo, encarnado e verde, tornando os objetos que estavam sob sua influência de iguais cores; e logo perde o seu brilho e cores, – podendo ser fixado a olho nu sem ferir a vista – e toma um vertiginoso movimento de rotação, parecendo precipitar-se sobre a terra. E enquanto observa estas maravilhas, todo o povo se encontra em altas exclamações. Isto durou, o máximo, uns cinco minutos, depois voltou ao seu estado normal. Mais disse, que no dia de Nossa Senhora da Purificação, isto é, no dia dois de fevereiro de mil novecentos e dezoito, por cerca das três horas da tarde, estando no mesmo local, verificou no sol idênticos sinais aos do dia treze de outubro, o que não tem verificado em muitos outros dias em que lá foi. Mais disse, que está intimamente convencido que as crianças não faltam à verdade do que afirmam, e que, em virtude do que observou está realmente crente que Nossa Senhora é que esteve a falar com a Lúcia, e que os fenómenos que se deram nos dias mencionados são de ordem sobrenatural. E mais não disse dando assim por findo o seu depoimento que sendo-lhe lido o ratifica e sob juramento de que é verdadeiro o assina comigo.

Paroquial de Fátima, 20 de dezembro de 1918

A testemunha Jacinto de Almeida Lopes

O Pároco Manuel Marques Ferreira

Notas dos editores

1 “O homem da Atouguia” tem sido identificado como sendo Manuel da Silva Reis, solteiro, proprietário, da Atouguia, concelho de Vila Nova de Ourém, pessoa estimada, muito crente, que veio a falecer com 85 anos de idade, no dia 18 de fevereiro de 1924.
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