Fui dos primeiros que ali chegou, e dos ultimos a retirar. Nunca senti uma tão grande alegria e nunca tão pura satisfação d'alma. Desde o principio e apesar da chuva contínua e incómoda, notei logo que todos nós, numa comunhão de sentimentos e ideas, nos achávamos satisfeitos e esperançados; nem um gesto de desespero ou desfalecimento nem uma palavra de desagrado ou incorrecção. Tenho a certeza meu Caro amigo que podia chover ou fazer o peor tempo possivel que ninguem arredava d'ali, e apezar da multidão que viste, parece que já nos conheciamos, que eramos amigos e que todos desejavamos o bem estar dos outros. Ao pé de mim e debaixo do nosso guarda-chuva varias pessoas passaram abrigando-se e conversando como se nos conhecessemos de há muito e amigos velhos fossemos.
Entre êstes apareceu um velhote (pai do Joaquim de Maceira) 70 anos bem contados, que já tinha andado cinco leguas e tinha que novamente as percorrer; quiz saber se estava massado pela jornada e pela chuva mas não consegui obter outra resposta do amigo e simpático senão que “Mandava quem podia” e parece-me que isto sintetisava no seu “Manda quem pode” a opinião de quasi nós todos que lá estavamos; d’aí o nosso estoicismo e perseverança.
Por isso e apezar de tudo, nós esperavamos alguma cousa, aínda que alguns, e eu um dêles, anciosos, e diga-se a verdade com algum receio de que nada houvesse.
Nem todos têm a fé profunda dos verdadeiros crentes. Digo-te mais meu amigo, o meu companheiro o Joaquim Sacristão de “Turquel” tinha na mão um relogio certo pelo sol e nós viamos passar o tempo bastante inquietos.
Agora meu amigo descreva quem possa, eu não sou capaz, seriam 12 horas e trinta e cinco a quarenta minutos, no respeitavel relógio do meu amigo, vi com toda a evidencia porque a luz solar nos permitia fixar à vontade o sol, êste e as nuvens que o rodeavam tremer numa hesitação, de quem obedece a uma vontade e força superior que nêsse momento lhe houvesse lançado a mão e o obrigasse a obedecer-lhe. Tive a impressão de quando se dá um safanão numa pessoa e se força a ouvirmos. Que houve naquela ocasião um fenómeno solar, com mais ou menos apresentação de diversas cores não te reste dúvidas destas; só vi um amarelo muito pronunciado e pareceu-me ver uma côr preta por debaixo do disco solar mas esta não garanto.
Mais não te sei explicar, ainda que o sentisse e aínda hoje sinto, e tanto que nunca mais passarei tão agradaveis momentos.
Não reparaste tu na nossa alegria e satisfação depois do facto; todos nós interrogavamos e só uma unica pessoa me disse não ter visto. Pelo que se passou antes; a correcção do porte de tanta gente, as rezas, os canticos, a confiança em todos, a fé que transparecia nos rostos, o fenómeno solar que se deu, a alegria, a amizade que a todos nos uniu naqueles instantes e até a nossa estada alí, o respeito da multidão ajoelhada e fervorosa, as lágrimas de contentamento íntimo, o não ter havido a mais pequena zanga, roubo ou desastre tudo meu amigo e sobretudo pelo fenómeno solar que vi acredito que houve na Fátima no dia 13 de Setembro6 de 1917 um caso tão extraordinario que emquanto a sciencia mo não explicar é única e exclusivamente obra de Deus.
[…]
As crianças vi-as chegar e retirar, indo até ao pé da casa delas onde entrou minha familia.
Não entrei nem concordo com tanta pregunta tola e insediosa que fizeram às pobres creanças muitas pessoas que continuamente as procuravam e procuram.
De resto umas pobres camponezas mal ajeitadas nos seus fatos novos e coroas de flores.
Notas dos editores (1)
6 Sic, por Outubro.