Explorar / Documento

DCF III-1, Doc. 140

20 out. 1917Portonotícia de imprensaCorrespondente de Liberdade em Lisboa

Na rubrica Diário de Lisboa o jornal “Liberdade” publica um artigo sobre a viagem de dois curiosos a Fátima. Data de redacção: 19 de Outubro de 1917.

Publ.: “Liberdade”, Porto, 4 (1008), 20 Out. 1917, p. 3, col. 3-4

DIARIO DE LISBOA

NOTAS & IMPRESSÕES

Lisbôa, 19

Não lhes vou a estas horas descrever o milagre de Fatima. Os leitores conhecem-o. Tenho, porém, a contar-lhes o depoimento de pessoas insuspeitas que não se escondem de dizer o que sentiram e lhes aconteceu.

O primeiro é passado com certo magistrado, muito conhecido e alegre, que foi a Ourem por passear e com vaga tenção de se rir da ingenuidade popular. Pois veio de lá impressionadissimo e confirmando, em alta voz, a apparição.

Mas ha mais impressionante episodio.

Dois amigos, que designaremos pelas iniciaes E. L. e o sr. S.,= este muito conhecido pela sua visão financeira e educadissima intelligencia em assumptos bancarios = foram, de longada, até Fatima.

O sr. S é portuguez, mas de origem estrangeira. Homem muito serio, não é, ao que se diz hoje, muito affeito a crêr em milagres.

Foram os dois amigos no mesmo automovel, e foram pelo passeio, rindo antecipadamente da crendice popular. Pelo caminho fallavam no milagre, e commentavam-o, rindo.

A certa altura, a gazolina que levavam, incendiou-se. E incendiou-se, dizem os experimentados automobilistas, sem nada que explique o incendio: chovia a cantaros, não houve choque, nem fagulha, nada, que apparentemente explique o phenomeno. Era ao pé d'um casebre: obtiveram fielmente agua, e apagaram o fogo.

Recomeçou a marcha.

D'ahi a alguns kilometros, o parebrise, — sem um choque, sem uma pedra — fez-se em milhares de bocados, e a capota do carro foi arrancada como se mão herculea a tivesse arrancado.

Pararam o carro, percorreram o caminho onde succedera o desastre, á procura de algum arame ou galho d'arvore que explicasse o caso.

Arvore nenhuma! Arame nem sombra!

E hoje, o sr. S. declara que nem permitte que deante d'elle se falle na apparição de Fatima, porque considera que foi castigo, de irem a rir do milagre, o que lhes aconteceu

São pessoas de cathegoria e muito conhecidas em Lisboa.

Aparato crítico e remissões (3)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 4, de 25 de Julho de 1917, nota 1.
2 Sic, por facilmente.
3 Por evidente gralha tipográfica, no texto, farebrise.
Abrir