Na manhã do dia treze de Maio de 1917 um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas, pertencente a suas familias, numa propriedade da serra de Minde, situada na freguezia de Fátima, concelho de Villa Nova d’Ourem, districto de Leiria.
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Approximava-se naquelle dia a hora do meio-dia astronomico. Segundo o seu costume, as tres creanças, depois de se terem occupado durante bastante tempo nos seus innocentes divertimentos, puzeram-se a rezar o terço do Rosario, devoção muito querida dos habitantes daquella freguezia. Apenas tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distancia dellas, a claridade fulgurante de um relampago e apparecer quasi simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher de extraordinaria belleza. Assustadas comum successo tão insolito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilisou completamente a ttitude benevola da Apparição, que numa voz dulcissima prometteu que não lhes faria mal algum.
A Apparição parecia não ter mais de dezoito annos de edade. O vestido era de uma alvura purissima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irreprehensivel e que tinha um não sei quê de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas á altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosario, cujas contas, brancas de arminho, pareciam perolas. De todo o seu vulto, circumdado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formusura impossivel de descrever e incomparavelmente superior a qualquer belleza humana.
Entre a Apparição e a Lucia estabeleceu-se um dialogo, que durou cerca de dez minutos.
A Jacinta via a Apparição e ouvia distinctamente as palavras que ella pronunciava dirigindo-se á Lucia, mas nunca lhe fallou nem a Apparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Apparição, não ouvindo nunca o que ella dizia á Lucia, apesar de se encontrar á mesma distancia e de possuir um excellente ouvido.
[…]
A Apparição recommendou insistentemente que todos fizessem penitencia e rezassem o terço do Rosario. Communicou ás creanças um segredo, que não podiam revellar a ninguem. Prometeu-lhe o Ceu.
Pediu que naquelle local se erigisse uma capella em sua honra e declarou que no dia treze de Outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que elle realmente tinha alli apparecido. Em treze de Agosto, momentos antes da hora da apparição, as creanças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou pelo menos não revelassem o segredo que a Apparição lhe tinha confiado.
Nesse mês a apparição teve logar no dia dezanove, no sitio chamado dos Vallinhos, quando as creanças já não pensavam que ella se verificasse senão no mês seguinte.
Notas dos editores (1)
1 Este capítulo, com ligeiras alterações, viria a ser publicado em Visconde de Montelo - Os acontecimentos de Fatima, Guarda, Empresa Veritas, 1923, p. 7-10; cf. também DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, p. 161-162 (texto reformulado). A partir da p. 162 até à p. 164, o texto é inteiramente novo, escrito para o Relatório da Comissão Canónica