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DCF Seleção, Doc. 73 (= DCF IV-2, Doc. 256)

18 mar. 1923Guarda (local da impressão)livroVisconde de Montelo (Dr. Manuel Nunes Formigão)Originalmente DCF IV-2, Doc. 256
Índice (11 secções)
  1. OS ACONTECIMENTOS DE FÁTIMA
  2. I AS APARIÇÕES DE FÁTIMA
  3. II CURAS EXTRAORDINÁRIAS
  4. III O PROJETO DOS SANTUÁRIOS
  5. IV DATAS E FACTOS MEMORÁVEIS
  6. V O ATENTADO DE FÁTIMA
  7. VI O ESCÂNDALO DAS TABERNAS E VENDAS AMBULANTES
  8. VII COMISSÃO DE INQUÉRITO
  9. VIII PREPARAÇÃO PARA AS CURAS
  10. IX CARÁTER DAS PEREGRINAÇÕES
  11. X INFORMAÇÕES ÚTEIS

antes de 18 mar. 19231

Os acontecimentos de Fátima - opúsculo da autoria do Visconde de Montelo
(Dr. Manuel Nunes Formigão).

Publ.: DCF, IV-2 - Doc. 256

OS ACONTECIMENTOS DE FÁTIMA

PELO VISCONDE DE MONTELO2

COMP. E IMP. NA TIP. DA
EMPRESA VÉRITAS

GUARDA

Oficinas movidas a eletricidade

Pode imprimir-se
Leiria, 15 de janeiro de 1923
† José, Bispo de Leiria

[foto]

A CAPELINHA COMEMORATIVA DAS APARIÇÕES

I AS APARIÇÕES DE FÁTIMA

Na manhã do dia 13 de maio de 1917 um menino e duas meninas andavam apascentando, como era seu costume, um pequeno rebanho de ovelhas pertencentes a suas famílias, numa propriedade da serra de Aire situada na freguesia de Fátima, concelho de Vila Nova de Ourém, diocese de Leiria.

A mais velha das três crianças, de nome Lúcia de Jesus, contava 10 anos e era filha de António dos Santos, que faleceu no ano seguinte1, e de Maria Rosa dos Santos.

O menino e outra menina, que eram irmãos, chamavam-se Francisco e Jacinta, tendo aquele 9 anos e esta 7 anos de idade. Foram seus pais Manuel Pedro Marto e Olímpia de Jesus Marto. Eram primos da Lúcia. As habitações das duas famílias, que, não sendo ricas, possuíam contudo alguns bens de fortuna, ficavam próximas uma da outra, no lugar de Aljustrel, cerca de um quilómetro da igreja paroquial de Fátima. Nenhuma das crianças sabia ler nem escrever. A sua instrução era rudimentar. Só a Lúcia tinha feito a primeira comunhão.

Aproximava-se naquele dia memorável a hora do meio-dia astronómico. Segundo o seu costume, as três crianças, depois de se terem ocupado durante bastante tempo em divertimentos inocentes, puseram-se a rezar o terço do Rosário, devoção muito querida dos habitantes daquela freguesia. Mal tinham acabado de o recitar, quando viram de repente brilhar no espaço, a pequena distância delas, a claridade fulgurante de um relâmpago e aparecer quase simultaneamente, sobre a copa de uma pequena azinheira, um vulto radioso e encantador de mulher, de extraordinária beleza.

Assustadas com um sucesso tão insólito e tão inesperado, pensaram em fugir, mas logo as tranquilizou completamente a atitude benévola da Aparição, que numa voz dulcíssima prometeu que não lhes faria mal algum.

A Aparição parecia não ter mais de dezoito anos de idade. O vestido era de uma alvura puríssima de neve, assim como o manto, orlado de ouro, que lhe cobria a cabeça e a maior parte do corpo. O rosto, de uma nobreza de linhas irrepreensível e que tinha o que quer que fosse de sobrenatural e divino, apresentava-se sereno e grave e como que toldado de uma leve sombra de tristeza. Das mãos, juntas à altura do peito, pendia-lhe, rematado por uma cruz de ouro, um lindo rosário, cujas contas, brancas de arminho, pareciam pérolas. De todo o seu vulto, circundado de um esplendor mais brilhante que o do sol, irradiavam feixes de luz, especialmente do rosto, de uma formosura impossível de descrever e incomparavelmente superior a qualquer beleza humana.

Entre a Aparição e a Lúcia estabeleceu-se um diálogo, que durou cerca de dez minutos.

A Jacinta viu a Aparição e ouvia distintamente as palavras que ela pronunciava, dirigindo-se à Lúcia, mas nunca lhe falou nem tão pouco a Aparição lhe dirigiu a palavra. O Francisco só via a Aparição, não ouvindo nunca o que ela dizia à Lúcia, apesar de se encontrar à mesma distância e possuir excelente ouvido.

A Aparição convidou nesse dia os três pastorinhos a voltarem todos os meses no dia 13, durante seis meses consecutivos, àquele local, vulgarmente conhecido pelo nome de Cova da Iria e situado a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial de Fátima, ao lado da estrada distrital de Vila Nova de Ourém à Batalha. A princípio ninguém prestava crédito às afirmações das crianças, que eram apodadas de mentirosas por toda a gente, mesmo pelas pessoas de família.

A 13 de junho umas cinquenta pessoas acompanharam os videntes ao local das aparições, na esperança de presenciarem coisas extraordinárias. Nos meses seguintes o concurso de devotos e curiosos aumentou consideravelmente, reunindo-se talvez cinco mil pessoas em julho, dezoito mil em agosto e trinta mil em setembro junto da azinheira sagrada.

No momento em que se verificava a aparição, inúmeros sinais misteriosos, de que muitas pessoas fidedignas dão testemunho, se sucediam uns após outros na atmosfera e no firmamento.

A Aparição recomendou insistentemente que todos fizessem penitência e rezassem o terço do Rosário. Comunicou às crianças um segredo, que não podiam revelar a ninguém. Prometeu-lhes o Céu.

Pediu que naquele local se erigisse uma capela em sua honra e declarou que no dia 13 de outubro havia de fazer um milagre para que todo o povo acreditasse que ela realmente tinha ali aparecido.

Em 13 de agosto, momentos antes da hora da aparição, as crianças foram ardilosamente raptadas pelo administrador do concelho, que as reteve em sua casa durante dois dias, ameaçando-as de morte se não se desdissessem ou se pelo menos não revelassem o segredo que a Aparição lhes tinha confiado.

Nesse mês a aparição ocorreu no dia 19, no sítio chamado dos Valinhos, quando as crianças já não julgavam que ela se verificasse senão no mês seguinte.

No dia 13 de outubro, estando presentes cerca de setenta mil pessoas de todas as classes e condições sociais e de todos os pontos do país, terminado o dia e logo entre a Lúcia e a Aparição, que lhe declarou ser ela a Senhora do Rosário, a vidente recomendou aos circunstantes que olhassem para o sol. O firmamento estava completamente nublado. Chovia torrencialmente.

Como que por encanto rasgaram-se de repente as nuvens, e o sol no zénite apareceu em todo o seu esplendor e girou vertiginosamente sobre si mesmo como a mais bela roda de artifício que se possa imaginar, revestindo sucessivamente todas as cores do arco-íris e projetando feixes de luz de um efeito surpreendente.

Esse espetáculo sublime e incomparável, que se repetiu por três vezes distintas, durou cerca de dez minutos. A multidão imensa, rendida perante a evidência de tamanho prodígio, prostrou-se de joelhos; o Credo, a Avé Maria e o ato de contrição irromperam de todas as bocas e as lágrimas, – lágrimas de alegria, de gratidão ou de arrependimento, brotaram de todos os olhos.

Toda a imprensa, inclusivamente a de grande circulação, se referiu, em termos respeitosos e com bastante desenvolvimento, aos assombrosos acontecimentos de Fátima. As apreciações desses factos, mesmo no campo católico, não foram unânimes. As afirmações das crianças relativas ao fim próximo da grande guerra europeia contribuiram para essa divergência de opiniões.

Mas, apesar disso, de ano para ano, a devoção a Nossa Senhora do Rosário de Fátima aumenta e propaga-se por toda a parte. O concurso de peregrinos é cada vez maior e verifica-se especialmente no dia 13 de cada mês, nos domingos, nos dias consagrados à Santíssima Virgem, e, mais do que nunca, no dia 13 de maio e no dia 13 de outubro de cada ano.

As graças e curas prodigiosas atribuídas à intercessão de Nossa Senhora do Rosário de Fátima são inúmeras. Debalde os representantes da autoridade civil envidaram todos os esforços para pôr termo à corrente caudalosa e incessante das multidões atraídas pela voz humilde de três inocentes pastorinhos.

A intolerância e perseguição tiveram apenas, como sempre, o efeito de tornar ainda mais viva e mais intensa a fé e a piedade dos crentes. A concorrência de devotos, vindos de todos os pontos de Portugal, continua a ser cada vez mais numerosa, mais fervente, mais perseverante, e parece não haver forças humanas capazes de lhe pôr embargo. A autoridade eclesiástica, que iniciou o respetivo inquérito, ainda não ultimou os seus trabalhos, que são de sua natureza difíceis e demorados, nem proferiu o seu veredictum, que nos cumpre acatar, qualquer que ele venha a ser.

Enquanto aguardamos esse veredictum, procuremos viver como bons cristãos, cumprindo estritamente todos os nossos deveres, façamos penitência dos nossos pecados e rezemos com fervor o terço do Rosário, essa devoção tão querida de todos os portugueses, para que Nossa Senhora do Rosário, se Ela efetivamente apareceu em Fátima, se digne dissipar todas as dúvidas e tornar esse facto superior a toda a contestação de boa fé.

II CURAS EXTRAORDINÁRIAS

– Maria do Carmo, de 47 anos de idade, do lugar do Arnal, freguesia de Maceira, concelho de Leiria, tuberculosa, achou-se curada no dia 13 de outubro de 1917, no próprio local das aparições. A sua cura foi um motivo de assombro para todos os habitantes de Maceira, que julgavam a pobre senhora irremediavelmente perdida e com vida apenas para alguns dias.

– Aurélia do Patrocínio Lourenço, de 4 anos, filha de Joaquim Lourenço, canteiro da Batalha, adoeceu em fins de outubro de 1917, com uma febre infeciosa, que a teve às portas da morte. Algumas pessoas de família já não alimentavam esperanças de que a menina se salvasse.

Curou-se depois de várias promessas feitas pela mãe a Nossa Senhora de Fátima.

– Manuel Henriques Júnior, do Outeiro do Murtal, Ourém, estava cego de ambos os olhos, em virtude de uma pancada que aos 12 anos recebeu na cara. Foram-lhe feitas em Lisboa várias operações por distintos especialistas, mas sem resultado algum. Curou-se de um dos olhos depois de uma promessa da mãe, que desejava ardentemente que ele visse o bastante para poder trabalhar.

– Joaquim Vieira, de 47 anos, de Assentiz, Torres Novas, sofria de antigas e graves enfermidades, estando desenganado dos médicos. Curou-se no dia 13 de outubro de 1917.

– Amélia de Jesus, de 61 anos, do Perulhal, Reguengo do Fetal, Batalha, estava de cama, gravemente enferma, havia bastante tempo, com violentíssimos ataques de reumatismo. Os remédios receitados pelo médico, que duas vezes a foi visitar, não lhe fizeram bem algum. Curou-se, tendo já recebido os últimos sacramentos, depois que uma filha recorreu a Nossa Senhora de Fátima. No Reguengo do Fetal, sede da freguesia, chegou a correr o boato de que ela tinha falecido.

– José de Oliveira Rito, de 5 meses de idade, filho de Faustino de Oliveira Rito e Maria José Rito, da Chainça, Santa Catarina da Serra, Leiria, estava paralítico da perna esquerda havia algumas semanas, tendo sido inúteis todos os esforços para restituir a esse membro o movimento perdido. Curou-se depois de várias promessas feitas pela mãe a Nossa Senhora de Fátima.

– Maria Francesca Aloisi Fitipaldi, de 57 anos, natural de Nápoles, Itália, e residente há mais de dezanove anos em Leiria, sofria horrivelmente de diversas doenças que lhe tornavam quase insuportável a vida (dispneia, lesão do coração, úlcera no estômago, albumina, etc.). Não podia falar, nem deitar-se, nem sair de casa. No dia 12 de outubro de 1917, à noite, viu de uma das janelas de sua casa as multidões que se dirigiam para a Fátima e ficou com imensa pena de não poder ir também. Cheia de fé, pediu a Nossa Senhora de Fátima que ao menos a melhorasse de maneira que pudesse descansar um pouco. Sentindo sono, foi-se deitar e dormiu toda a noite. No dia seguinte de manhã, quando acordou, achou-se perfeitamente bem.

– Quitéria de Jesus, de 57 anos, da Chainça, Santa Catarina da Serra, tendo uma lesão grave num dos olhos produzida por uma violenta pancada, curou-se quase instantaneamente aplicando sobre o olho uma porção de terra extraída do local das aparições.

– José das Neves, de 10 meses de idade, filho de António das Neves e Maria José das Neves, da Loureira, Santa Catarina da Serra, foi sempre muito doente. Emagrecia cada vez mais. Todos diziam que era impossível criar-se. Vomitava todo o alimento que ingeria.

Um dia a mãe fez a promessa de ir com ele a Fátima e rezar lá o Rosário se Nossa Senhora se dignasse curá-lo.

No dia seguinte a criança começou a comer de tudo o que era próprio da sua idade, não tornando a ter vômitos.

– Manuel Vicente Marques, de Alcaidaria, Reguengo do Fetal, correndo o perigo de ter de cortar um braço ou de ficar defeituoso, invocou cheio de confiança Nossa Senhora de Fátima, a quem fez uma promessa, e curou-se completamente, ficando sem nenhum defeito.

– Noémia da Conceição Grego, de 18 anos, filha de Amílcar Augusto Grego e D. Maria Teresa Mautempo Grego, de Torres Novas, sofria de uma grave afeção pulmonar, resultante de uma pleurisia de que tinham ficado vestígios. Em virtude de sérios desgostos, por que passou e que muito lhe amarguraram a alma, perdeu o uso da razão. Vários médicos a trataram sem obter nenhum resultado satisfatório. Alguns deles afirmavam que era um caso de meningite cérebro-espinhal. Outros diziam francamente que não sabiam diagnosticar aquela estranha doença que se mostrava rebelde a todo o tratamento. A enferma era alimentada à força, pois recusava toda a espécie de comida. Tinha contínuos acessos de fúria. Julgando que a queriam levar a Fátima, deixou-se conduzir, enganada, até Lisboa, para onde de modo nenhum consentia em partir. Aí foi confiada aos cuidados do Dr. Egas Moniz, no Hospital de Santa Marta. Debalde aquele distinto especialista a submeteu a diversos tratamentos. Os resultados foram nulos.

Por último os drs. Júlio de Matos, Sobral Cid e Júlio Dinis fizeram-lhe uma conferência médica. A opinião concorde dos três clinicos, em extremo dolorosa para a família, foi que a enferma nunca se curaria ou, se a cura fosse possível, apenas se curaria passados muitos anos. Entretanto a mãe foi várias vezes a pé a Fátima com algumas meninas amigas da filha a fim de implorar a sua cura. Fazia toda a jornada sempre descalça, o que representava para ela um grande sacrifício, porque não estava habituada a andar descalça.

Com extraordinária surpresa dos médicos assistentes, a enferma recuperou o uso da razão, quando menos se esperava, e pôde, desde logo, saír do hospital e regressar a sua casa em Torres Novas, perfeitamente boa de saúde, não tendo desde então até hoje sentido nenhum incômodo.

– Francisco José Ferreira, de 50 anos, casado com Maria da Luz Ferreira, do Alqueidão, Torres Novas, tinha as pernas chagadas num estado tão lastimoso que inspirava a quem as via um sentimento misto de dó e de horror.

Atribuía-se o seu padecimento, que era já muito antigo, a caneladas que tinha dado quando ainda era criança. Curou-se completamente, depois de duas novenas feitas pela mulher na igreja da povoação e acompanhadas por ele em espírito, com loções de água misturada com terra do local das aparições.

– Delfina de Jesus Presume, de 30 anos, solteira, filha de Manuel Lopes Presume e Joaquina de Jesus Presume, do Alqueidão, de Torres Novas, sofria de uma doença desconhecida, gravíssima, horrorosa. Foi tratada sem resultado satisfatório pelo Dr. Augusto Mendes, de Torres Novas e pelo Dr. Augusto Correia, de Tomar. Fez uma novena de comunhões, aplicando todos os dias água com terra de Fátima. No fim da novena achou-se curada.

– Manuel Frazão, de 56 anos, de Alcaria, Porto de Mós, fogueteiro, sofria de uma grave doença gastrointestinal, que o levou às portas da morte. Curou-se depois de ter feito uma promessa a Nossa Senhora de Fátima, a quem pediu fervorosamente que o salvasse para não deixar na miséria a mulher e os filhos.

– Laurentino Carreira Poças, de 16 anos, filho de Adriano Carreira Poças e Joana Carreira Rebelo Poças, natural do Reguengo do Fetal, tuberculoso, curou-se depois que a mãe prometeu ir à Fátima e dar a volta de joelhos à capela com uma oferta à cabeça.

– Maria do Espírito Santo Mota, de 31 anos, do lugar dos Vargos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, casada com José António Mota, estando muito doente com um ataque de bronco pneumonia, achou-se curada depois que o marido invocou Nossa Senhora do Rosário e fez a promessa de ir com a família à Fátima e dar uma esmola em harmonia com as suas posses se a mulher se curasse.

– Maria da Conceição, de 21 anos, natural do lugar da Carreirancha, freguesia do Alqueidão da Serra, distrito de Leiria, filha de Francisco Correia e Maria dos Anjos, teve um forte ataque de gripe, depois uma meningite cerebro-espinal, tuberculose e paralisia geral. Curou-se rezando o terço e uma estação ao Santíssimo Sacramento, durante nove dias consecutivos e utilizando todos os dias a terra do local das aparições dissolvida em água para uso interno e externo.

– António de Oliveira Dias, de 58 anos, do lugar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas, sofria, havia doze anos, de uma faringite crónica, rebelde a todo o tratamento e considerada pelos médicos como incurável. Ficou curado depois de ter feito a promessa de ir à Fátima agradecer a sua cura a Nossa Senhora, se ela se dignasse alcançar-lhe essa graça.

– D. Maria Manuel dos Santos, de 25 anos de idade, filha de Carlos Alberto dos Santos, já falecido, e de D. Amélia Júlia dos Santos, moradora na rua de D. Estefânia, nº 115, 3º, Lisboa, sofrendo de uma coxalgia tuberculosa dupla, curou-se depois da peregrinação que uma sua irmã fez à Fátima a fim de pedir a cura a Nossa Senhora.

– António José, da Barreira, freguesia da Serra, Tomar, estava tuberculoso, tendo-lhe proibido o médico assistente que trabalhasse pelo seu ofício que é fazer tachas, de onde veio o ser cognominado pelo povo “o tacheira”. Tendo recorrido à intercessão de Nossa Senhora de Fátima, achou-se curado de um dia para o outro, como o constatou o próprio médico. O pároco, revº José Dias Rodrigues, em carta datada de 22 de novembro de 1921, diz textualmente: “sei que ele tem trabalhado pelo ofício e ainda há poucos dias o vi aparentando ter saúde.”

– Maria da Conceição Maia, de 47 anos de idade, casada com Joaquim Pedro Crispim, proprietário, moradora no Casal da Agreireira, concelho de Torres Novas, sofria diariamente, havia alguns anos, de adormecimento ou quase paralisia dos braços a ponto de o marido ter por vezes de lhos amparar para que pudesse alimentar um filho que tinha, precisando outras vezes de os aquecer com panos e de os esfregar muito para ganharem um pouco de ação. Cheia de confiança em Nossa Senhora de Fátima, lavou os braços por três vezes com água e terra do local das aparições achando-se logo completamente boa.

– Manuel Gaspar, de 35 anos, natural de Ribeiros, Vila de Rei, casado com Maria Umbelina, adoeceu gravemente em 15 de abril de 1922, passando os dias e as noites em altos gritos. O seu corpo era todo ele uma verdadeira chaga. Toda a gente o julgava perdido. Os médicos, ainda os mais afamados, não conseguiram curá-lo nem sequer descobrir a causa de tão horrível enfermidade. A 13 de maio muitas pessoas da sua freguesia foram em peregrinação a Fátima e de lá trouxeram água e terra do lugar das aparições, dizendo que possuíam uma eficácia prodigiosa e que já tinham feito muitas curas. O pobre enfermo ficou cheio de alegria e confiança, e, pondo de parte todos os medicamentos, mandou lavar as feridas com a água e empoá-las com a terra. Depois de alguns curativos desta natureza, experimentou notáveis melhoras e ao cabo de alguns dias todas as feridas tinham cicatrizado, encontrando-se agora de perfeita saúde.

– Maria José, de 10 meses de idade, de Viseu, foi atacada de constipação, seguida de rouquidão e bastante febre. A avó, D. Maria José de Lemos Queirós, recorreu a Nossa Senhora de Fátima, prometendo uma esmola para as obras do Santuário, se a criança melhorasse. A rapidez extraordinária com que ela se curou, logo depois da promessa, sem que a doença deixasse vestígios, foi considerada por toda a família como um sinal da intervenção benéfica da Santíssima Virgem.

– “Em princípios de maio de 1919 tinha um sobrinho gravemente doente. Era de compleição bastante fraca e, tendo já treze meses, ainda não tinha dente nenhum. Grandes eram as minhas apreensões e o médico não alimentava dúvidas acerca da gravidade do seu estado. Que fazer nesta aflição? Invocar Maria Santíssima do íntimo da alma para que intercedesse por mim junto de seu Divino Filho e dispensasse a sua maternal proteção ao inocentinho.

Tinha conhecimento da proteção da Santíssima Virgem sob a invocação de Nossa Senhora de Fátima pelo relato publicado no jornal “A Guarda”. Com este novo título a invoquei e, tendo colocado sob o travesseiro da criança uma porção de terra do lugar das aparições, verifiquei que, logo depois, sem incómodo, lhe apareceu o primeiro dente, e após esse o segundo no dia 13 de maio, aniversário da primeira aparição. O seu estado geral melhorou e a dentição continuou a seguir o seu curso. Assim fui levada a reconhecer que mais uma vez Maria Santíssima por este facto, que considero miraculoso, manifestou a sua proteção a quem assim a invoca, para que desapareçam as dúvidas que se levantam sobre a realidade da sua aparição em Fátima.

Fiz promessa de, sendo ouvida a minha prece, tornar pública a narração que acabo de fazer, pois creio, enquanto a Igreja não disser o contrário, que mais uma vez em Fátima a Santíssima Virgem veio à terra escolher sítio onde um novo santuário Lhe seja dedicado, para que seus filhos saibam ser fervorosos no cumprimento dos seus deveres e caminhem pela estrada da virtude que é a que conduz à única felicidade possível neste vale de lágrimas e à verdadeira e eterna felicidade do Céu. – D. Maria do Carmo da Câmara (Belmonte)”.

III O PROJETO DOS SANTUÁRIOS

A piedade dos fiéis deseja ardentemente levantar no local das aparições um monumento grandioso em honra da augusta Mãe de Deus.

O projeto acolhido com mais entusiasmo é o da construção de um templo no cimo do outeiro que domina a Cova da Iria, no sítio onde os videntes dizem ter-se dado a primeira aparição, e de catorze capelas ladeando uma avenida que conduza da estrada distrital até ao templo-monumento.

Este será dedicado à coroação de Nossa Senhora e as capelas aos outros mistérios do Rosário.

Para estas obras era absolutamente indispensável encontrar água. Mas num raio de muitos quilómetros não aparece água na Fátima senão em pequena quantidade e proveniente da chuva recolhida em lagoas e cisternas. Por isso uma comissão de habitantes daquela povoação tomou a iniciativa de mandar proceder a sondagens nos terrenos adjacentes à capela comemorativa das aparições.

A primeira sondagem foi feita em 9 de novembro de 1921, depois da primeira missa campal, à distância de quarenta metros da capela. Tendo começado os trabalhos de manhã, ao meio-dia já todos os operários saciavam a sede com a água que jorrou abundante da rocha viva.

Nos últimos meses do verão a água quase desapareceu, depois que recomeçaram os trabalhos destinados a tornar maior a capacidade do poço, vendo-se apenas lacrimejar uma das paredes. Em princípios de novembro de 1922, concluídas as obras do poço, que tem agora muitos metros de profundidade, a água límpida da nascente, rebentando com força, em seguida às primeiras chuvas do Outono, encheu totalmente o vasto reservatório, como tiveram ocasião de ver os numerosos fiéis que em 13 desse mês visitaram o lugar das aparições.

IV DATAS E FACTOS MEMORÁVEIS

Francisco Marto adoeceu no dia 23 de dezembro de 1918 com um ataque de broncopneumonia e morreu no dia 5 de abril de 19192, depois de se ter confessado e de ter recebido o Sagrado Viático com os mais edificantes sentimentos de piedade.

– Jacinta de Jesus Marto, irmã do Francisco, caiu de cama a 23 de dezembro de 1918, atacada igualmente pela mortífera epidemia que então grassava por todo o mundo. Essa doença tão longa e tão cruel foi um verdadeiro martírio para a pobre criança que expiava no seu corpo inocente os pecados alheios. Morreu em Lisboa, no Hospital de D. Estefânia, no dia 20 de fevereiro de 1920, tendo-se confessado e comungado várias vezes durante a doença. Afirmou pouco antes de morrer que Nossa Senhora lhe tinha aparecido por duas vezes, dias antes, fazendo-lhe várias revelações, condenando os exageros do luxo e as modas indecentes e declarando que o pecado que levava mais gente à perdição eterna era o pecado da carne.

– Na época das aparições algumas pessoas de maus sentimentos que a propósito dos sucessos de Fátima ousaram blasfemar da Virgem Santíssima foram vítimas de desastres gravíssimos em que quase todas encontraram a morte. Meras coincidências? Casos não acasos? Só Deus o sabe.

– Durante a noite de 23 para 24 de outubro de 1917 alguns carbonários de Santarém arrebataram furtivamente os objetos que a piedade popular tinha colocado no lugar das aparições e no dia seguinte organizaram um cortejo sacrílego em que exibiram esses objetos e que percorreu as ruas principais daquela cidade com a complacência da autoridade administrativa e perante uma população inteira profundamente indignada e horrorizada. Consta que o governador civil e o administrador do concelho não só permitiram mas até auxiliaram este ignóbil e hediondo arremedo de procissão religiosa.

– As manifestações religiosas mais importantes que até hoje se realizaram em Fátima depois das aparições foram a de 13 de maio de

1920 e as de 13 de maio e 13 de outubro de 1922. Em 13 de maio de 1922, organizou-se uma grandiosa procissão que fez o percurso de mais de dois quilómetros, desde a igreja paroquial até ao sítio das aparições. Segundo os cálculos mais aproximados, feitos por oficiais do estado maior, que estavam presentes, concorreram a Fátima nesse dia cerca de setenta mil pessoas. Todas as manifestações tiveram sempre um caráter puramente religioso e efetuaram-se sempre com a maior ordem e respeito.

V O ATENTADO DE FÁTIMA

O selo das obras de Deus é a perseguição. Esse selo não falta à obra de Fátima.

Tão formidável, tão sistemática e tão persistente tem sido a oposição promovida pelos emissários de Satanás, que muitas pessoas, insensíveis aos fenómenos e às curas extraordinárias, se renderam, finalmente convencidas, perante a força irrecusável desse argumento negativo.

Desde a prisão dos videntes, a 13 de agosto de 1917, até ao nefando atentado bombista contra a capela comemorativa das aparições, são inúmeras as manifestações, aliás ineficazes e até contraproducentes, da sanha infernal contra a obra de Fátima. Seria longa e não caberia nos estreitos limites deste opúsculo a narração pormenorizada de todas essas manifestações.

Limitar-nos-emos, pois, a dizer apenas duas palavras acerca do último atentado. Foi cometido no dia 6 de março de 1922, alta madrugada.

O receio das explosões da cólera popular levou os criminosos a executar o seu horrível desígnio com o favor das sombras da noite. Recaem fundadas suspeitas sobre alguns indivíduos de Lisboa, Santarém e Vila Nova de Ourém, indigitados como promotores, executores e cúmplices do nefando atentado e cujos nomes se citam. Os desgraçados arrombaram a porta da capela e a golpes de alvião abriram quatro buracos nas paredes, a distâncias iguais, dois palmos acima do pavimento, introduzindo em cada um deles uma bomba de grande potência. Essas quatro bombas rebentaram, comunicando o fogo ao madeiramento do teto e fazendo-o abater. Uma quinta bomba foi colocada na cova, em que se encontra a raíz da azinheira sobre a qual, no dizer dos videntes, pousavam os pés da Aparição, mas não explodiu. As paredes da capela, embora bastante danificadas, ficaram de pé.

VI O ESCÂNDALO DAS TABERNAS E VENDAS AMBULANTES

O célebre escritor francês convertido Huysmans3, no admirável livro “Lourdes”, demonstra que a serpente maldita, não podendo vingar-se por outra forma daquela que lhe esmagou a cabeça com o seu pé virginal, empenha-se com todo o ardor em estampar a nota do feio e do reles em todas as obras de arte e em todas as manifestações destinadas a honrá-la.

Em Fátima, logo de princípio se manifestou claramente essa guerra indireta do demónio, a pior de todas, à obra da Virgem.

E os instrumentos dessa guerra – triste é dizê-lo – não são ímpios ou descrentes, o que não seria para estranhar, mas pessoas de sentimentos cristãos que aproveitam o ensejo para explorarem comercialmente as aparições. Assim, pouco a pouco, têm-se construído próximo do local algumas tabernas, que põem uma nota triste e sobremodo desagradável em todo aquele formoso cenário. Nada pode ser mais contrário à vontade de Nossa Senhora do que essa profusão de lugares que são para tantas criaturas humanas a ocasião de se entregarem à prática de um dos vícios mais hediondos e repugnantes. Quantas transgressões da lei de Deus se cometem cada dia nesses antros malditos, que são a causa da desgraça e da miséria de tantas famílias! Homens e mulheres, em grande número, colocados em filas ao longo dos atalhos que vão da estrada até junto da capela, ou dispersos por vários sítios próximos, vendem toda a espécie de comestíveis e bebidas, convertendo aquela estância santificada pela presença da Rainha do Céu num autêntico arraial, ou pior do que isso, numa verdadeira feira.

Loreto e Lourdes, para não falar de outras terras igualmente visitadas pela augusta Mãe de Deus, são hoje centros de exploração mundial, em que assentaram arraiais, numerosos judeus e incrédulos que contribuem em larga escala para descristianizar a população daquelas cidades outrora tão florescentes sob o ponto de vista religioso.

A autoridade eclesiástica tem diligenciado pôr cobro a semelhante profanação, mas com pouco resultado. O único meio eficaz de o conseguir seria resolverem todos os peregrinos abster-se de comprar o que quer que fosse aos vendedores ambulantes e nas tabernas construídas depois das aparições. Essa resolução, que para muitos representa um grande sacrifício, seria sem dúvida um dos atos mais meritórios e mais gratos a Nossa Senhora que os fiéis poderiam praticar em sua honra.

Praza a Deus que os peregrinos se compenetrem bem da importância dessa obrigação para que dentro em breve semelhantes vendas desapareçam por completo ou vão estabelecer-se a alguns quilómetros do local das aparições.

Só assim esse lugar conservará intacto o seu caráter sagrado, que tão intensamente concorre para aumentar a piedade e a devoção nas almas dos crentes.

Num ofício ao reverendo pároco de Fátima o Senhor Bispo de Leiria proíbe rigorosamente a venda de vinho e o lançamento de foguetes próximo do local das aparições, conferindo ao Pároco a faculdade de comutar em outras obras as promessas de deitar foguetes.

VII COMISSÃO DE INQUÉRITO

Quase cinco anos depois da primeira aparição, a 3 de maio de 1922, Sua Excelência Reverendíssima o Senhor D. José Alves Correia da Silva, ilustre e venerando Bispo de Leiria, publicou uma notável provisão, em que nomeia uma comissão de eclesiásticos incumbida de proceder, segundo as leis canónicas, a um rigoroso inquérito aos acontecimentos maravilhosos de Fátima.

Essa comissão é composta dos seguintes membros:

Rev.º João Quaresma, Vigário Geral da Diocese

Rev.º Faustino José Jacinto Ferreira, Prior do Olival e Vigário da Vara de Ourém

Rev.º Dr. Manuel Marques dos Santos, Professor do Seminário

Rev.º Dr. Joaquim Coelho Pereira, Prior da Batalha

Rev.º Dr. Manuel Nunes Formigão Júnior, Professor do Seminário Patriarcal, com autorização de Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa.

Rev.º Joaquim Ferreira Gonçalves das Neves, Prior de Santa Catarina da Serra

Rev.º Agostinho Marques Ferreira, Pároco de Fátima.

A comissão agregará a si ou proporá a nomeação de peritos. Sua Excelência Reverendíssima ordena a todos os fiéis da sua diocese e pede aos de dioceses estranhas que deem conta de tudo quanto souberem quer a favor quer contra as aparições ou factos extraordinários que lhes digam respeito, e testifiquem especialmente se neles houve ou há qualquer exploração, superstição, doutrinas ou coisas deprimentes para a nossa Santa Religião.

Qualquer dos membros da comissão fica autorizado a receber os nomes dos que devem ou querem depôr e as informações e esclarecimentos úteis de todas as pessoas que estejam em condições de os poderem fornecer.

VIII PREPARAÇÃO PARA AS CURAS

“Na presença deste brilhante conjunto de milagres, acumulados, por assim dizer, uns sobre os outros, e cuja evidência se impõe à boa fé mais vulgar, alegremo-nos por sermos filhos da Santa Igreja Católica, que Deus não cessa de visitar, e à qual continua a dar o testemunho divino por excelência, o testemunho do milagre.

Nos primeiros tempos, o milagre, era a grande prova da verdade da fé, e, posto que atualmente não seja tão necessário, não é menos útil à nossa inteligência; e a experiência demonstra o poder com que ele reanima e consola a nossa fé.

Observemos no entanto que, por mais numerosos e incessantes que sejam os milagres de Lourdes, não se deve esquecer que aí, como em todos os santuários de Nossa Senhora, o milagre não é e não pode ser senão a exceção.

Quem diz milagre, diz intervenção extraordinária da Omnipotência divina nas coisas humanas. Seria pois ridículo imaginar que basta beber uns golos de água da gruta de Lourdes, ou fazer uma novena, ou mesmo ir em romaria à gruta milagrosa, para ser infalivelmente livre duma enfermidade.

A confiança na Imaculada Conceição nunca poderá ser assaz grande, assaz completa; mas é preciso que essa confiança seja sempre dominada por um profundo amor da vontade de Deus e pela submissão mais absoluta às vias ocultas pelas quais nos dirige a Divina Providência. Sempre, – atentai bem nisto! – sempre a Mãe de Misericórdia ouve e defere as nossas súplicas, mas Ela defere a seu modo, não ao nosso; atende-as divinamente, concedendo-nos o que é melhor, mais útil à nossa santificação. O sofrimento é muitas vezes a graça das graças e o mais real de todos os bens. Se a Virgem Santíssima nem sempre julga conveniente curar os males do nosso corpo, – não duvideis! – Ela nos obtém e nos confere as graças da resignação, da fé viva, mais úteis mil vezes do que todas as curas.

Vamos, pois, à Virgem Imaculada de Lourdes com estes sentimentos elevados, únicos dignos de corações cristãos, e porque não fomos favorecidos, como outros, pela graça dum milagre, não sejamos demasiadamente simples supondo inútil essa novena, essa aplicação da água da gruta, essa confiança no poder da Virgem, essa longa e penosa romaria, que não foi coroada duma cura ardentemente pedida e impacientemente esperada.

O que é fora de dúvida é que nunca se implora em vão a Santíssima Mãe de Deus e que jamais poderá haver excesso em recorrer ao seu coração maternal”.

Até aqui Mons. de Ségur4.

Como o milagre é uma intervenção extraordinária da Providência, e Deus, fazendo-o e abrindo assim uma exceção às leis da natureza, tem em vista um fim de ordem moral, convém que o enfermo, que pretenda obter algum em seu favor, se prepare para ele, a fim de ter maiores probabilidades de ser atendido. Por isso importa recomendar que os doentes que vão à Fátima ou que em suas casas imploram o auxílio de Nossa Senhora de Fátima, além de receberem os santos sacramentos da confissão e da comunhão com as devidas disposições e de orarem e fazerem orar pela sua intenção as pessoas piedosas das suas relações, obtenham dos médicos que os tratam atestados tão completos e tão minuciosos quanto possível, datados e reconhecidos por um notário, para os entregarem oportunamente à comissão de inquérito.

Depois de curados deverão fazer-se observar pelos mesmos médicos e por outros que testifiquem a sua cura.

Doutra forma, essas curas, por mais extraordinárias que pareçam, não podem ser reconhecidas oficialmente como miraculosas, com prejuízo da glória de Nossa Senhora e do bem das almas.

IX CARÁTER DAS PEREGRINAÇÕES

As peregrinações do dia 13 de cada mês à Fátima têm um caráter inteiramente particular, não se assemelhando de modo algum às romarias que hoje se fazem a muitos santuários do nosso país e que em geral redundam em desprestígio da Igreja e em prejuízo das almas. A lembrança sempre viva das aparições e dos sucessos maravilhosos de que Fátima é teatro, a atmosfera saturada de sobrenatural que ali se respira, o temor religioso que insensivelmente se apodera de todos os que se aproximam do centro das maiores manifestações periódicas de índole religiosa, que registam os anais de Portugal, impedem a explosão das paixões humanas e conservam à distância aqueles que por ventura sejam tentados a visitar o local das aparições sem sentimentos de piedade ou pelo menos de respeito.

Por isso os peregrinos durante a viagem entregam-se à oração, entoam cânticos em honra da Virgem ou guardam um relativo silêncio que não exclui a vivacidade natural e inocente da gente moça e a alegria sã das consciências sem mancha.

Às 10 horas da manhã há na igreja paroquial de Fátima missa, comunhão geral e bênção do Santíssimo, a que é de toda a conveniência que assistam os peregrinos. Os que desejarem comungar devem confessar-se de véspera nas suas terras. O local das aparições fica a pouco mais de dois quilómetros da igreja paroquial.

Quando a concorrência é mais numerosa e a autoridade civil não se lembra de pôr embargos, organiza-se uma vistosa e tocante procissão que sai daquele templo em direção à Cova da Iria. Ali celebra-se, ao meio-dia, sempre que o tempo o permite, uma missa rezada, em que se ministra a sagrada comunhão, e que é seguida de sermão pregado geralmente por um notável orador.

Como a igreja paroquial fica situada à beira da estrada que conduz ao local das aparições, os peregrinos, mesmo os retardatários, costumam louvavelmente suspender ali por instantes a sua jornada para fazer uma breve visita a Jesus Sacramentado.

X INFORMAÇÕES ÚTEIS

As pessoas que quiserem ir a Fátima utilizando a locomoção ferroviária podem tomar bilhete para as estações de Leiria, Torres Novas ou Chão de Maçãs, devendo partir na véspera do dia em que desejam fazer a visita ao local das aparições. Em todas as três estações de caminho de ferro há carros de carreira, respetivamente para Leiria, Torres Novas e Vila Nova de Ourém, mas apenas na de Leiria se encontram sempre lugares disponíveis em grande número. Também só naquela cidade existem hotéis com todo o conforto moderno, como o Hotel Lis, o Hotel Central e o Hotel Marques, havendo ainda muitas casas particulares que recebem hóspedes. Uma comissão permanente, presidida pelo ex.mo

Comendador João Cortês da Silva Curado, encarrega-se obsequiosamente de fornecer esclarecimentos e prestar auxílio aos peregrinos a fim de conseguirem alojamentos e transportes sem correrem o risco de serem vítimas de odiosas especulações. Os rev.os Dr. Manuel Marques dos Santos, no Seminário, e Dr. Sebastião Brites, na Sé, darão aos peregrinos as indicações que por estes lhes forem solicitadas. Em Torres Novas e em Vila Nova de Ourém também se podem obter, com relativa facilidade, meios de transporte para Fátima. Lembram-nos, entre outras, as alquilarias de Espada, em Vila Nova de Ourém, e dos irmãos Isidros, em Torres Novas.

Em 13 de maio e em 13 de outubro costuma haver carreiras de camions de Torres Novas e de Leiria.

De Torres Novas o preço de cada lugar tem sido, até hoje de dez escudos, ida e volta, sendo necessário reservar lugares com algumas semanas de antecedência. Os outros meios de transporte para esses dias têm igualmente de ser alugados muito tempo antes.

De Torres Novas para a Fátima um trem para quatro ou cinco pessoas não custa menos de sessenta escudos. Em ocasiões de pouca concorrência obtêm-se alojamentos em Torres Novas no Hotel Madeira e em Vila Nova de Ourém no Hotel Espada e na Hospedaria Central de Maria Joana e irmã.

Alguns peregrinos do norte do país têm alugado carros em Tomar, onde as alquilarias são numerosas e estão bem providas de material e de gado, para os irem esperar à estação de Chão de Maçãs à chegada do comboio da madrugada do dia 13 e os reconduzirem à mesma estação a fim de tomarem o comboio da noite.

Em Fátima só com dificuldade e por favor se consegue hospedagem em casas particulares, de bons camponeses, que não podem proporcionar comodidades de espécie alguma aos seus hóspedes.

Distâncias em quilómetros: da estação à vila de Torres Novas sete quilómetros, da vila à Fátima vinte e cinco através da serra e quarenta por Vila Nova de Ourém, da estação de Chão de Maçãs a Vila Nova de Ourém doze, de Vila Nova de Ourém à Fátima catorze e de Leiria à Fátima vinte5.

Notas dos editores

1 Embora este opúsculo tenha o seu imprimatur datado de 15 de janeiro de 1923, apenas foi distribuído no dia 13 de maio de 1923 (Cf. “Voz da Fátima”, Leiria, 1 (7), 13 abril de 1923, p. 3, col. 3, e “Voz da Fátima”, Leiria, 1 (9), 13 jun. 1923, p. 4, col. 3). No entanto, por um documento de 18 de março de 1923 (DCF, IV-2, Doc. 258), sabemos que nesta data, o opúsculo estava já concluído
2 Pseudónimo usado pelo Dr. Manuel Nunes Formigão.
1 O pai de Lúcia faleceu a 31 de julho de 1919.
2 Francisco faleceu no dia 4 de abril de 1919.
3 Joris-Karl Huysmans, escritor francês (1848-1907).
4 Mons. Louis Gaston de Ségur (1820-1881).
5 Não se reeditam, nesta seleção, os capítulos XI (Promessas aos devotos do Rosário) e XII (Meditações do Rosário segundo o Beato Grignion de Montfort).
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