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DCF III-2, Doc. 413
O jornal “A Época”1 publica o testemunho do Dr. Gonçalo de Almeida Garret sobre o fenómeno da nuvem de fumo (data de redacção: 27 de Setembro de 1919).
Publ.: “A Época”, Lisboa, 1 (177), 4 Out. 1919.
“Voz da Fátima”, Leiria, 4 (47), 18 Ago. 1926, p. 3, col. 3 e p. 4, cols. 1-2.
FÁTIMA Assumptos Novos
Pelo nosso amigo sr. Dr. Gonçalo de Almeida Garrett foi-nos pedida a publicação do presente artigo. Acerca dos factos n'ele referidos reservamos o nosso juizo aguardando que sobre eles se pronuncie a Auctoridade eclesiastica:
A veracidade das aparições sobrenaturaes em Fatima, deve ser tratada e discutida em bases novas, sem dependencia da acção nervosa do organismo humano. Convem assim nos tempos presentes.
Concorram todos a Fatima, para de seu proprio criterio, ver e observar os factos surprehendentes que ali se estão manifestando actualmente.
Nem decorridos são dois anos, desde 13 de Outubro de 1917, dia tão memoravel para o paiz inteiro. Como por encanto, já foi elevada, junto á asinheira de benção, uma devota capelinha, com a invocação de Virgem do Rosario.
Ali é extraordinaria a concorrencia de pessoas, com fervorosas preces, em cumprimento d'um voto, ou por graças alcançadas.
Em Fatima tem havido fenomenos singularissimos, de ordem superior, independentes da nossa vontade, imaginação ou reacção do nervosismo humano, os quaes são inexplicaveis á face da sciencia. Foram observados por muitas centenas de pessoas de todas as cathegorias. Não devem por isso ficar no olvido, pela sua grande importancia na determinação do verdadeiro caracter da natureza de taes manifestações.
No dia 13 de maio de 1917, pouco depois do meio dia, em Fatima, estavam assentadas tres inocentes creanças do campo e sem instrucção, junto d'uma viridente asinheira.
De repente viram, entre os seus ramos, uma Imagem de Senhora, que lhes disse ser a Senhora do Rosario.
Anunciou e prometeu voltar de novo, ao mesmo local e á mesma hora, nos dias 13 dos mezes de maio (Conceição), a Outubro (Rosario). Mais prometeu dar signaes extraordinarios e miraculosos da sua presença, n'esses dias, a todos os presentes.
Eram ao todo 6 aparições incluindo a primeira. Ordenou ás creanças, que tambem voltassem e fizessem que ali fossem outras pessoas resar.
Em confirmação da veracidade d'esta primeira aparição, dá-se a circumstancia extraordinaria e pasmosa de duas prophecias.
1.º Disse que havia de voltar a manifestar-se ás creanças nos dias anunciados; 2.º Que daria signaes extraordinarios, superiores, evidentes de sua presença entre os ramos da asinheira abençoada.
Nos dias e hora previamente designados pela aparição, chegavam pontualmente ao local as tres creanças. Logo que a Jacintha, a mais velha3, proferia as palavras: – Ela ahi vem – elevava-se da terra ao Ceu, junto da pequena asinheira, uma suave nuvem de fumo, similhante á do incenso.
Este phenomeno foi visto e observado distinctamente, pelas pessoas atentas e circumspectas, todos os cinco dias, no momento de se realisarem as aparições, nas horas previamente marcadas.
No dia 13 de agosto era já numerosissima a concorrencia de pessoas de muitos pontos do paiz.
A autoridade, julgando reduzir o grande concurso e causar desilusões nas pessoas crentes, levou para longe as tres creanças, declarando falsamente aos paes, que ela propria as conduziria á carrasqueira. Algum tempo antes do momento prefixo e conhecido, chegou ao local a noticia de que as creanças estavam detidas pela autoridade, valendo-lhe a distancia, para se não fazer logo a justiça devida.
Para confusão dos incredulos, as manifestações extraordinarias foram mais evidentes, no mez de agosto, em confirmação de presença do sobrenatural em Fatima, junto á viridente asinheira. No momento preciso, levantou-se uma nuvem de fumo, mais intensa, em forma de corôa rosada formosissima, subindo mais alto ao Ceu por trez vezes.
Ficou assim plenamente confirmada a aparição d'este mez, a pesar da ausencia das creanças.
Completaram-se todas as manifestações da nuvem de fumo em Fatima, as quaes haviam sido, com antecedencia, anunciadas pelas creanças, segundo a prophecia da Virgem do Rosário.
A todas as aparições, correspondeu sempre, junto da azinheira, a manifestação extrema d'uma nuvem de fumo.
É porém de necessidade absoluta verificar que não ha memoria, de se ter dado em Fatima phenomeno algum conhecido, metheorologico ou geologico, analogo á manifestação da nuvem de fumo, subindo da terra ao Ceu, junto á carrasqueira de benção.
Desde os tempos mais remotos até 13 de Maio de 1917, em que se deu a primeira manifestação ás creanças, não há memoria de se ter dado, em Fátima, phenomeno semelhante da nuvem de fumo, nem mesmo depois da ultima manifestação memoravel do dia 13 de outubro. Semelhantemente, no periodo de 13 de maio a 13 de outubro, nada houve, com excepção dos dias com antecedencia designados pelas creanças.
Nos repetidos e rigorosos inqueritos a que teem sido sujeitas as inocentes creanças, sem instrucção alguma, declaram firmemente e sem hesitar que era a Virgem do Rosario, ordenando que eles fossem, muitas vezes, resar o Rosario, e que toda a gente concorresse a esta devoção tão abençoada.
Ás aparições anunciadas tem correspondido sempre o cumprimento prophetico da manifestação externa d'uma nuvem de fumo.
Esta uniforme coincidencia, junto á ramagem da viridente asinheira, mas sómente durante os dias previamente anunciados e horas certissimas, parecendo de pouca importância, é um phenomeno assombroso, de ordem superior, do qual não se deduz explicação alguma plausivel de ordem natural.
Com os meus limitados estudos e conhecimentos não sei desvendar o mysterio, á face da sciencia, mas tão sómente da razão divina. Seja embora a manifestação do fumo, produzida por uma combustão incompleta, uma evaporação ou reacção chimica, em que não tem imperio o systema nervoso ou nervosismo humano.
Breves linhas para elucidar duvidas d'algum espirito meticuloso.
No dia sempre memoravel e extraordinario de 13 de outubro de 1917, concorreram a Fátima mais de cem mil pessoas de todas as categorias sociaes e de muitos logares do paiz.
– A guerra acabou hoje.
A palavra hoje não designa, em portuguez classico, sómente “vinte e quatro horas”. Basta recordar a phrase vernacula dos melhores auctores: – hoje ha uns costumes, ámanhã outros.
Com venia da exma sra D. Magdalena Patricio, menciono a sua tão mimosa correspondencia relativamente a Fátima, na qual comprova, com verdade, haver a guerra terminado um ano certo depois de 13 de outubro de 1917, entendendo-se como fim da guerra a assignatura do armisticio.
É tudo maravilhoso e muito sem explicação natural o que se passou nos diversos phenomenos manifestados junto d'uma singela vergontea de asinheira.
Castelo Branco, 27 de setembro de 1919
Dr. Gonçalo Xavier de Almeida Garrett.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (2)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.