Testemunhas /

José António Marques da Cruz Curado

Clero

Sacerdote nascido a 14 de outubro de 1873 no Carvoeiro (Mação), ordenado em Portalegre em 1906 e pároco de Penacova (diocese de Coimbra) desde 1907; com 43 anos, chegou poucos minutos antes da visão esperada a 13 de outubro de 1917, e o seu relato saiu no diário católico portuense Liberdade.

Residência: PenacovaVeio de longeAtitude prévia: neutra1 relato · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoSol a mudar de corDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairMovimento em ziguezague

Como a “Liberdade” nada disse ainda sobre tal assumpto, vamos nós referil-o como testemunha presencial. Chegamos ao local quatro ou cinco minutos antes da suposta visão. Havia ahi perto de quarenta mil pessoas vindas de todos os pontos do paiz. Alguem nos indicou um ponto marcado por uma bandeira hasteada n’um pau, dizendo ser alli que estacionavam as tres pastorinhas, aguardando a apparição. Pouco depois a enorme multidão descobre se. Todos fitam o céo ainda carregado de nuvens, em busca do sobrenatural, do signal prodigíoso. Parece que as pastorinhas haviam ajoelhado, confirmando mais uma vez que a Virgem lhes apparecera.

Teriam decorrido talvez quatro minutos, quando o sol, semilhante a peça de fogo prezo que, depois de accesa, faz um circulo luminoso no meio da escuridão da noite, fez affastar quasi rapidamente as nuvens que o toldavam, fazendo tambem um circulo, e dando ocasião a que pudessemos observar um phenomeno, que a todos pareceu extraordinario. O sol, já sem nuvens, não projectava os raios sobre a terra, mas parecia envolvido em chammas de côr desmaiada. De subito, perde toda essa luz ou chamas e apparece-nos uma placa de prata fôsca, como accertadamente disse o "Seculo", tendo um rapido e bem visivel movimento de rotação, parecendo até que se approximava da terra. Podia fixar-se indefinidamente sem incommodar a vista.

Incendiou-se pouco depois, deixem-me dizer assim, vendo-se então de novo envolvido em chamas côr de rosa, e tambem sem projecção de raios sobre a terra.

Passado talvez um minuto, perdeu de novo a luz e chamas, vendo-se outra vez a placa, agora muito branca, com o mesmo movimento de rotação muito rapido.

Ainda uma terceira vez o sol, que parecia ter movimentos bruscos, sacudidos, se envolveu em chamas azuladas, a que se seguiu a pêrda da luz e o movimento rotativo da placa. Terminára o phenomeno.

Quando o sol voltou depois a ter luz já a nossa vista não podia fitar os seus raios luminosos. A multidão, ajoelhada sobre a lama, afogada em prantos, gritava afflicta, de olhos fitos no céo e de mãos erguidas. Uns clamavam por Nossa Senhora, que lhes valesse; outros, confessando-se grandes peccadores, pediam misericordia. O quadro era deveras impressionante.

Tambem nos impressionou a coincidência do phenomeno com a hora da visão ou supposta aparição. E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.

Isto condiz com a resposta que ella me deu, quando lhe perguntei se a apparição tivera logar durante o phenomeno. "Não, respondeu ella; a Senhora já tinha desapparecido".

A multidão começa a debandar. Mas uma boa parte segue as pastorinhas, como a borboleta segue a luz. Todos desejam vê-las e fazer perguntas, a que ellas respondem de prompto. Venderam-se postaes com os seus retratos. E até houve quem se lembrasse de mandar fazer estampas, nas quaes já figura a pastorinha de joelhos, e no alto a imagem de Nossa Senhora.

Resta apenas o tronco da carrasqueira, que as pastorinhas dizem ter servido de pedestal á Mãe de Deus, durante as aparições.

Notas dos editores (3)

2 Nasceu na paróquia de Carvoeiro (Mação) a 14 de Outubro de 1873. Foi ordenado sacerdote em Portalegre a 16 de Agosto de 1906. A 8 de Janeiro de 1907 foi-lhe passada demissória ilimitada para a Diocese de Coimbra, para ir paroquiar a Igreja de Na Sa da Assunção, de Penacova. Cf. DCF, vol. 2, Doc. 4 de 28 de Setembro de 1917, nota 909.

3 Lugar da freguesia e concelho do distrito de Coimbra.

4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.

DCF III-1, Doc. 159 · notícia de imprensa · 23 out. 1917 (10 dias depois)Digitalizações (3)Ligação
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