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DCF III-2, Doc. 480

24 abr. 1920Guardanotícia de imprensaVisconde de Montelo (Manuel Nunes Formigão)
Índice (5 secções)
  1. OS EPISODIOS DE FÁTIMA [VIII] (DOIS ANNOS DEPOIS)
  2. Virgem Santissima, perdoae-me!
  3. Morrerá a Jacintha?!...
  4. Terra abençoada!
  5. Sangue ruim!

Artigo de "A Guarda", intitulado Os Episodios de Fátima, que continua a relatar os acontecimentos relacionados com Fátima (data de redacção: 13 de Outubro de 1919)2.

Publ.: “A Guarda”, Guarda, (677), 24 Abr. 1920, p. 2, cols. 1-3 e Os Episódios maravilhosos de Fátima, Guarda, Empresa Véritas, 1921, p. 41-49.

OS EPISODIOS DE FÁTIMA [VIII] (DOIS ANNOS DEPOIS)

(continuação)

Lucia a vidente

É já uma hora. De boca em boca corre a noticia de que a pastorinha Lucia, a privilegiada da Virgem, a principal protagonista das aparições vem a caminho da Cova da Iria e está já perto. Ouve-se um sussurro estranho e a multidão agita-se cada vez mais. Innumeras pessoas precipitam-se ao encontro da vidente. Ella avança com dificuldade e dirige-se para a capella, onde reza o terço alternadamente com o povo.

De quando em quando, ao longe, na estrada, ouve-se a buzina dum automovel que chega. A multidão é enorme. Formam-se diversos grupos, que rezam o terço em voz alta. Junto da capella uma rapariga ora fervorosamente invocando cheia de confiança a rainha da paz.

Temos homem!

Nesta altura tomo conhecimento doutro caso extraordinario. Trata-se dum rapaz que veio á Fátima agradecer as suas melhoras a Nossa Senhora. Chama-se Laurentino Carreira Poças. É filho de

Adriano Carreira Poças e de Joanna Carreira Rebella e tem 14 anos de edade. Natural do Reguengo do Fetal, foi o ano passado para Leiria, onde tinha obtido collocação como caixeiro numa loja de fazendas. De compleição debil, começou a sentir-se doente e o seu mal estar agravou-se tanto que o patrão resolveu mandá-lo para casa, afim de se tratar convenientemente. Ao chegar ao fundo da escada da sua residencia desmaiou e cahiu desamparadamente no chão, tal era o seu estado de fraqueza. O dr. Pereira que o tinha tratado durante a sua estada em Leiria, enviou por elle uma carta para um tio de nome Francisco Carreira Poças, na qual dizia que o sobrinho estava tuberculoso. Sua mãe, logo que elle chegou, fez a promessa de ir á Fátima e dar a volta de joelhos á capela com uma oferta á cabeça, se elle melhorasse.

O pobre rapaz sentia uma forte pontada no peito, do lado direito, até á altura do pescoço. Estava prohibido de fazer qualquer esforço. A sua magresa era extrema. Não podia brincar. O seu unico desejo era estar sempre em descanço. Actualmente não sente mal algum. Veio em bicyclete desde o Reguengo do Fetal, que fica a duas leguas de distancia trazendo um rapazito deante de si no guiador do vehiculo. Na vespera tinha feito tres mezes que havia chegado doente a casa. Ha mez e meio o dr. Pereira tornou a ve-lo em Leiria, onde ele foi consulta-lo e disse que o achava muito melhor, empregando estas palavras textuaes que exprimiam ao mesmo tempo surpreza e satisfação: "Temos homem!".

Encontro de novo o pequeno grupo que pouco antes vira entrando para a capela.

São marido, mulher e um filho. O marido chama-se José Antonio Mota e tem 31 anos de edade. A mulher chama-se Maria do Espirito Santo e tem a edade do marido. São naturaes do logar dos Vargos, freguezia do Paço, concelho de Torres Novas. A mulher esteve muito doente com um ataque de bronco-pneumonia durante cerca de um mez, em Outubro e Novembro do ano passado. O marido viu-a um dia tão mal que receou perdê-la e por esse motivo voltou-se para a Fátima, invocou Nossa Senhora do Rosario e fez a promessa de ir com a familia áquela povoação e dar uma esmola em harmonia com as suas posses, se a mulher se curasse.

A Virgem Santissima fez-lhe essa graça e elle veio em companhia da mulher, d'um filho e da sogra, cumprir a promessa. Tinha vindo á Fátima, faz hoje dois annos no dia do grande prodigio. A um metro de distancia, do lado da estrada, vê-se avançando de joelhos em direcção á capella, uma mulher do povo. É uma hora e meia: precisamente meio-dia astronomico. Devem estar presentes mais de duas mil pessoas. Ao pé de mim uma mulher, profundamente impressionada com tudo quanto tinha observado, dizia com intimativa que, ainda que se visse obrigada a sahir para fóra do paiz, havia de fazer toda a diligencia por voltar à Fátima.

Virgem Santissima, perdoae-me!

Nesta altura um homem bem trajado, que acabava de chegar, rompe por entre a multidão, que se apinhava em torno da capella, comtempla com ar de troça e compaixão os peregrinos que oram ajoelhados e pára em frente da porta do sanctuario. Momentos depois, tomado duma commoção intima, cae de joelhos e profere, num soluço, esta suplica, que os circunstantes ouviram distinctamente "Virgem Santissima perdoae-me!", ficando muito tempo em recolhimento profundo.

Um oficial a cavalo avança com precaução por entre o povo a alguma distancia da capella. Pergunto quem é e dizem-me que é o administrador do concelho. Observa com atenção tudo quanto sucede e passeia constantemente dum lado para o outro. Parece-me ter empenho em não faltar aos deveres que a correcção impõe a uma pessoa illustrada, apesar das ideias avançadas que me dizem possuir.

Morrerá a Jacintha?!...

Chega ao pé de mim Jacinta de Jesus Marto, uma das videntes de Aljustrel, acompanhada pela mãe. Ambas trajam rigoroso lucto por motivo do fallecimento de Francisco Marto, irmão de Jacinta, que tambem tinha sido favorecido com a visão da Virgem e que até ao ultimo suspiro sustentou sempre a verdade das suas narrativas. A pequena está esqueletica. Os braços são de uma magreza assombrosa. Desde que sahio do hospital de Vila Nova de Ourem, onde durante dois mezes se esteve tratando sem resultado, está sempre ardendo em febre. O seu aspecto inspira compaixão.

Pobre creança! Ainda o ano passado cheia de vida e saude, e já hoje como uma flor murcha, pendendo á beira do sepulchro! A tuberculose, depois de um ataque de bronco-pneumonia e duma pleurisia purulenta, mina-lhe desapiedadamente o debil organismo. Só um tratamento apropriado num bom sanatorio é que poderia talvez salvá-la. Mas seus paes comquanto não sejam pobres, não podem fazer face ás avultadas despezas que esse tratamento exige.

Bernadette, a humilde zagala de Lourdes ouviu da boca da Imaculada, que se dignou aparecer-lhe nas rochas de Massabielle, a promessa de que a faria feliz, não neste mundo, mas no outro.

Teria a Virgem feito identica promessa á pastorinha da serra d'Ayre, a quem comunicou um segredo, que a vidente a ninguem pode revelar?

Assim os sofrimentos de Jacinta de Jesus, suportados com resignação christã, serão para ela uma fonte de merecimentos que tornarão mais brilhante e preciosa a sua coroa de gloria no Ceu.

Juntamente com a peregrinação das Covas, que regressa da egreja parochial, vem uma rapariga que sofria de uma grave enfermidade e cuja cura, atribuida á intercessão de Nossa Senhora de Fátima, tem sido o assumpto das conversas de todos os romeiros nos ultimos meses.

Muitas pessoas a acompanham, ouvindo da sua boca a narração dos episodios da sua doença e da sua cura.

Está já perto da capela. Aproximo-me, rompo a custo por entre a multidão que a envolve num circulo apertado.

Terra abençoada!

Passo a interroga-la. Chama-se Maria da Conceição, tem 21 anos é filha de Francisco Correia e Maria dos Anjos e é natural e moradora no lugar da Carreirancha, freguezia do Alqueidão da Serra, districto de Leiria. Tem dois irmãos e quatro irmãs, que vivem com ella na casa paterna.

Móra num dos extremos do lugar, na parte mais alta. Ha sete annos sofreu dum forte ataque de gripe e, não se tendo tratado como devia, o estado geral da sua saude resentiu-se imenso. Alguns mezes depois de ter tido a gripe sobreveiu-lhe uma meningite, sendo tratada durante esta grave doença pelo dr. Padrão, da Batalha. Os remedios que tomava não lhe produziam allivio algum. Sentia dores violentas na cabeça, peito e pernas. Uma tosse funda e seca atormentava-lhe constantemente o peito. Ha cerca de tres annos e meio deitou sangue com abundancia pela boca durante quinze dias consecutivos. O sangue deixou de correr depois de instantes suplicas a Nossa Senhora. Muita gente, vendo o seu estado de fraqueza e abatimento, dizia que ela estava condemnada a morrer em breve, victima da tuberculose. Durante os ultimos sete mezes esteve de cama, paralitica mal se podendo mover. As dores que experimentava eram horriveis. Não descansava nem de dia nem de noite, porque a violencia das dores não lhe permitia conciliar o somno. Porem, no meio dos seus atrozes soffrimentos, nunca perdera a confiança na protecção da Santissima Virgem, de quem esperava inabalavelmente a sua cura.

No dia 23 de Março do corrente anno, á tarde, disse á familia que nossa Senhora lhe tinha aparecido e assegurado que dois dias depois, ás 9 horas da manhã, se poderia levantar do seu leito de dor, recomendando-lhe que fosse á Fátima e prometendo-lhe que se havia de curar com o uso da terra do local das aparições. Contra a expectativa da familia, que se recusava a prestar credito ao que ella dizia supondo-a victima de uma alucinação, no dia 25, á hora marcada, a doente levanta-se, com grande estupefacção de todos, e, montando a cavalo, parte para a Fátima. Tendo regressado a casa, depois de satisfeitas as suas devoções e de dadas as devidas acções de graças, faz uma novena rezando o terço e uma estação cada dia e, aplicando a terra do local das aparições dissolvida em agua como remedio para uso externo e interno, sente-se curada no fim da novena. Actualmente caminha sem dificuldade, não se cansa com o trabalho nem sente dores. Todos os mezes desde então tem ido á Fátima, no dia 13, excepto no mez de Setembro, agradecer a Nossa Senhora a sua cura. Manuel Pastilhas e Maria de Jesus, de Boiceiros, e outras pessoas, que a acompanham, afirmam te-la visto em estado lamentavel, paralitica extremamente magra.

Em torno de mim comprime-se uma multidão enorme. Todos querem ouvir a narração da cura de Maria da Conceição, mas é impossivel. A custo consigo romper o circulo de ferro que me aperta. Um homem do povo dirige-se a mim e conta-me a traços largos a interessante história da sua cura. Chama-se Antonio d'Oliveira Dias, tem 58 annos de edade e reside no logar dos Carrascos, freguesia do Paço, concelho de Torres Novas. Sofria, havia doze annos, duma pharingite chronica, rebelde a todo o tratamento. Os medicos eram de opinião que nunca se curaria radicalmente. Em 13 de Outubro de 1917 tinha vindo á Fátima e presenciado o estupendo phenomeno solar. Em Novembro desse mesmo ano fez a promessa de ir á Fátima agradecer a Nossa Senhora a sua cura, se ela se dignasse alcançar-lhe essa graça, por que tanto suspirava. A partir dessa data, apesar de não fazer nenhum tratamento, foi melhorando pouco a pouco e, passado um ano, em Novembro de 1918, achou-se completamente curado.

Sangue ruim!

Um grupo interessante de quatro pessoas uma senhora e tres meninas, — chama a atenção dos circunstantes. Veem agradecer a Nossa Senhora a cura, de que uma dellas foi objecto. São mãe, duas filhas e uma afilhada.

Residem em Lisboa na R. de D. Estephania, n° 115, 3°. A mãe chama-se D. Amelia Julia dos Santos, viuva de Carlos Alberto dos Santos. Uma das filhas a mais velha, é a protogonista deste comovente episodio. O seu nome é Maria Manuel dos Santos e tem 25 anos de edade. Esteve quatro anos como aluna no Colegio de S. Pedro d'Alcantara, tendo entrado em 1910 e sahido em 1916. Pertence a uma familia rudemente provada pelo sofrimento.

Muitos parentes proximos teem morrido tuberculosos, entre eles um irmão com seis anos de edade. O pae morreu louco e um irmão enlouqueceu ha um mez, encontrando-se actualmente no hospital dos irmãos de S. João de Deus, no Telhal.

Concluidos os estudos sahiu do Collegio e foi para o Alentejo, estabelecendo-se como professora particular em Arraiolos, onde chegou a 14 de Outubro de 1914, pouco depois foi acometida dum ataque de apendicite, tendo retirado para Lisboa por conselho do medico a 24 do mesmo mez. Em Novembro do ano seguinte sofreu um segundo ataque, e um terceiro em março. A 28 de Maio entrou para o hospital de D. Estephania, afim de ser operada. A operação teve logar a 11 de junho e foi feita pelos drs. Monjardim, Pinto Coelho e Medeiros. No fim do mez, a 28, sahiu do hospital, sendo conduzida num trem a sua casa. Esteve pouco mais dum mez em casa, voltando de novo para o hospital, a 15 de agosto porque o seu estado de saude se agravara. Alli esteve até 14 de Novembro, dia em que foi operada pela segunda vez. Entretanto começou de sentir uma dor fortissima, que tinha a sua localisação na perna direita, estendendo-se desde o quadril até ao joelho. Por vezes a violencia da dor atingia o paroxismo, tornando-se insuportavel. Só conseguia socegar á força de injecções.

Havia epochas em que não dormia durante noites consecutivas. A perna estava sempre encolhida e dobrada.

Eram-lhe aplicadas extensões de ligaduras e gessadas. A febre era constante, mas não muito alta.

Definhava e emagrecia de dia para dia. O apetite desapareceu. Foram-lhe receitados varios tonicos, Glicero-phosphato de cal, xarope iodotanico e strychnina, e injecções de diversas especies: arrenhal, cocodylato e dynamol.

A sua doença foi diagnosticada de coxalgia, proveniente de uma queda que a enferma dera, quando ainda creança, de um quarto para um terceiro andar pela escada. Quando sucedeu esse desastre contava onze anos. Ficara apenas com a perna maguada e cheia de nodoas negras, que depressa se desvaneceram sem deixarem vestigios de lesão intensa.

Os medicos eram de parecer que a acção do cloroformio e do ether, com que foi anestesiada por ocasião das operações tinha posto a descoberto a doença latente.

Visconde de Montello.

Notas dos editores

2 Continuação do Doc. 474, de 17 de Abril de 1920.
Aparato crítico e remissões (4)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 138, de 20 de Outubro de 1917, nota 1.
3 Cf. Doc. 474, de 17 de Abril de 1920, nota 3.
4 Cf. Doc. 474, de 17 de Abril de 1920, nota 3.
5 No texto, curada.
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