Pedem-me para relatar a fórma como me acho curada d'umas febres que me não largavam havia 4 mezes. Tive um grande empenho d'ir a Fátima no dia 13 d'Outubro por ser o ultimo em que devia apparecer Nossa Senhora ás 3 creanças e por ser esse tambem em que estava annunciado um milagre em que os descrentes ficariam crentes. Pensava muito como poderia ir, visto andar assim doente e como supportaria tantas leguas n'um carro sem me puder sequer encostar, eu que estava quasi sempre deitada.
Mas lá me metti no camion, aonde uma amiga me tinha offerecido uns lugares e não pensei mais em mim até ao momento em que principiou a chuva que se tornou torrencial, acompanhada d'um frio intenso. Não pude então deixar de pensar que uma mólha e tanto frio não eram das coizas mais indicadas para quem tem febres palustres, pois mesmo dentro do carro algumas pessôas se molharam bastante. O meu prazer d'ir a Fátima n'aquelle dia era enorme mas nem por um momento pensei em associar a minha saude a essa ida ali. O que lá se passou não [o] descrevo pois é já bastante conhecido (embora nunca demais tão grande maravilha) e algumas pessôas o teem relatado com grande exactidão. Apenas me referirei a uma coiza, por vêr que em nenhuma das discripções que tenho lido, é notada. Fallo d'uma especie de fumo que se via sair do sitio pouco mais ou menos aonde devia apparecer a Santissima Virgem; não posso bem precizar o sitio pois que do camion aonde estava não podia fazer ideia exacta d'onde elle sahia; fazia effeito de ser de entre a multidão mas da que estava mais perto do sitio aonde estava armado o arco tosco. Houve quem, notando esse fumo, dissesse que era qualquer coiza de sobrenatural mas essa ideia passou e não se deu mais attenção a isso embora essa especie de nuvem se repetisse por umas 3 vezes. Mais tarde é que pensei novamente na nuvemsinha que ninguem soube explicar e que eu julgo ter sido como que o signal da presença de Nossa Senhora ali. D'ahi a bocado dava-se o milagre, bem visivel para todos, crentes e descrentes e eu que n'esse momento Bendito não senti nenhuma impressão especial, e só a alegria de ver um milagre e que Deus nos concedia tão grande graça, principiei, com o decorrer d'esse dia, a sentir uma consolação immensa, um bem-estar e uma paz interiôr, que não sentia ha annos.
No dia seguinte é que notei que não tinha nenhum dos symptomas palustres que me apoquentaram sempre e que tinha voltado á minha antiga actividade. Depois nada mais tenho sentido d'essa doença e só, como já disse uma grande consolação. A minha cura podia dar-me bem estar más o que sinto é mais do que isso: é bôa disposição, uma consolação vinda do Céu e que me faz dizer muitas vezes mentalmente: Louvado seja Deus! — Foi aquelle um dia abençoado para aquelles lados e por varias fórmas se mostrou milagroso. Uma d'ellas foi o não ter havido entre as 40 ou 50 mil pessôas que ali estavam, a mais pequena questão ou dissidencia nem um desastre ou susto sequer entre tantos automoveis, carros e carroças de toda a especie, burros f f. Tambem, de tantas pessôas que ali estiveram encharcadas até aos ossos, de nenhuma se sabe a quem fizesse mal e d'algumas sei eu fracas ou doentes. Em tudo se vê bem a mão de Deus e bem nos consola vêr que não estamos por Elle abandonados como tanto merecíamos. Direi ainda que a fórma de vêr o que se deu no Céu (ou antes entre o Céu e a terra) foi verdadeiramente miraculosa pois que uns viram d'uma fórma, uns outros, d'outra e ainda outros d'uma maneira não igual a nenhum d'elles.
Notas dos editores (1)
1 Sabemos que foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, na companhia de outras pessoas. Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 4.