Testemunhas /

Maria Benedita Oriol Pena

Aristocrata

Senhora da Quinta de S. Venâncio (Leiria), sobrinha da destinatária da sua carta, Luísa Anjos de Santa Martha, de Cascais. Foi a Fátima no automóvel da tia, Camilla Maldonado, e confessou que estava «pouco crente».

Residência: Quinta de S. Venâncio, LeiriaA região em redorAtitude prévia: cética1 relato · 13 de outubro de 1917
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA multidãoMovimento em ziguezague

Uma das vezes que mais me lembraram foi na minha ida á Fatima. Que pena tive que não tivessem podido presenciar o que eu vi! Não sei o que a Tia terá ouvido a este respeito, mas sem duvida não ignora que trez pastorinhos da Serra, no ultimo mez de maio, afirmaram terem visto Nossa Senhora que lhes prometeu apparecer-lhes ainda seis vezes, sendo a ultima em outubro e que n'esse dia havia de ser visto um signal no ceu para que todos cressem. A apparição estava annunciada para o dia 13 e já no principio do mez não havia em Leiria e nas outras terras do districto um unico meio de transporte disponivel, tendo-se chegado a alugar automoveis por 200.000rs. Apezar de estar um dia pessimo de chuva e frio, apezar d'os jornaes não terem feito "réclame" nenhum, está avaliado entre 40 a 50 mil o numero de pessoas que se juntaram no local marcado. A ordem, o socego eram extraordinarios e n'aquella multidão de gente, de todas as classes, de todos os meios, vindo muitos dos homens de longe com os seus farneis e os seus pipos de vinho, não houve um unico que bebesse um copo a mais, não vi um gesto d'enfado nem ouvi uma palavra mal-soante. Já isto, só por si, tem o seu quê de milagroso.

Nós tinhamos cá a Tia Camilla Maldonado e fomos com ella no seu automovel.

A apparição de Nossa Senhora não era artigo de fé e confesso que estava pouco crente, mas asseguro que vi, como milhares de pessoas viram tambem, dar-se no ceu — á hora marcada pelas creanças — um phenomeno tão extraordinario como não espero tornar a ver outro egual em dias de minha vida. Descrevê-lo por miudos levar-me-hia muito longe e isso fica para a vista. O Seculo do dia 15 traz sobre o acontecimento um artigo bastante extenso, que V. Excias naturalmente já viram. Tirado uma ou outra phrase, a denunciar-lhe a origem, não está mal feito e tudo quanto la diz do que se observou no ceu é absolutamente verdade.

As cores extraordinarias que o sol apresentou muitas pessoas as viram (sendo uma d'ellas a minha Tia Camilla) mas eu essas não as posso descrever porque quando o vi n'aquella agitação espantosa, senti uma impressão tão grande que cahi de joelhos e não poude ver mais nada.

Da carvalheirinha junto do sitio onde as creanças dizem ter falado a Nossa Senhora, foi colhida essa folhinha, uma das poucas que ainda restavam5. Todo o povo as queria e a carvalheira, muito pequena, não resitiu ao assalto e ficou inteiramente destruida até ás raizes.

Notas dos editores (1)

5 Não é provável que a folha aludida pertencesse à azinheira, uma vez que já em Setembro o Dr. Carlos Mendes tinha recorrido às "reservas" da Lúcia por já não se encontrar nenhuma na origem.

DCF III-1, Doc. 116 · carta · 18 out. 1917 (5 dias depois)Digitalizações (2)Ligação
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