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DCF III-1, Doc. 116

18 out. 1917Quinta de S. VenânciocartaMaria Benedita Oriol Pena

Maria Benedita Oriol Pena1 escreve a Luísa Anjos de Santa Martha2, sobre os acontecimentos do dia 13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria.

A - ASF - Original oferecido ao Santuário de Fátima, a 15 de Janeiro de 1987, por D. Maria Luísa e D. Maria Rita Santa Marta.

Possuímos também uma fotocópia entregue pela Condessa de Carnide, Maria Luíza de Arriaga e Cunha.

Descrição do documento: Três folhas de quatro páginas com 16 linhas cada.

[No sobrescrito:]

Exma. Sra. / D. Luiza Anjos de Santa Martha/ Largo do Collegio - nº 7 - / Cascaes

Respondido por mim em 17 Nov 1917

S. Venancio

18.9.9174

Minha muito querida Tia

Tem razão para se queixar do meu silencio, mas não o atribua a esquecimento ou menos amizade, se não quizer ser muito injusta. Um bocado de preguiça, a casa sempre com hospedes, sendo uma das pessoas a pequena da Marianna d'Almeida que me tirava muito tempo, e tambem o estar sempre á espera que uma das primas me escrevesse a dizer ao certo para onde tinham ido passar o seu verão, tudo isto fez com que os dias fossem passando sem eu pegar na penna. Mas vezes sem conto e com bastantes saudades pensei em V. Excias e nos diasinhos que tivemos o gosto de aqui os ter o anno passado. Uma das vezes que mais me lembraram foi na minha ida á Fatima. Que pena tive que não tivessem podido presenciar o que eu vi! Não sei o que a Tia terá ouvido a este respeito, mas sem duvida não ignora que trez pastorinhos da Serra, no ultimo mez de maio, afirmaram terem visto Nossa Senhora que lhes prometeu apparecer-lhes ainda seis vezes, sendo a ultima em outubro e que n'esse dia havia de ser visto um signal no ceu para que todos cressem. A apparição estava annunciada para o dia 13 e já no principio do mez não havia em Leiria e nas outras terras do districto um unico meio de transporte disponivel, tendo-se chegado a alugar automoveis por 200.000rs. Apezar de estar um dia pessimo de chuva e frio, apezar d'os jornaes não terem feito "réclame" nenhum, está avaliado entre 40 a 50 mil o numero de pessoas que se juntaram no local marcado. A ordem, o socego eram extraordinarios e n'aquella multidão de gente, de todas as classes, de todos os meios, vindo muitos dos homens de longe com os seus farneis e os seus pipos de vinho, não houve um unico que bebesse um copo a mais, não vi um gesto d'enfado nem ouvi uma palavra mal-soante. Já isto, só por si, tem o seu quê de milagroso.

Nós tinhamos cá a Tia Camilla Maldonado e fomos com ella no seu automovel.

A apparição de Nossa Senhora não era artigo de fé e confesso que estava pouco crente, mas asseguro que vi, como milhares de pessoas viram tambem, dar-se no ceu — á hora marcada pelas creanças — um phenomeno tão extraordinario como não espero tornar a ver outro egual em dias de minha vida. Descrevê-lo por miudos levar-me-hia muito longe e isso fica para a vista. O Seculo do dia 15 traz sobre o acontecimento um artigo bastante extenso, que V. Excias naturalmente já viram. Tirado uma ou outra phrase, a denunciar-lhe a origem, não está mal feito e tudo quanto la diz do que se observou no ceu é absolutamente verdade.

As cores extraordinarias que o sol apresentou muitas pessoas as viram (sendo uma d'ellas a minha Tia Camilla) mas eu essas não as posso descrever porque quando o vi n'aquella agitação espantosa, senti uma impressão tão grande que cahi de joelhos e não poude ver mais nada.

Da carvalheirinha junto do sitio onde as creanças dizem ter falado a Nossa Senhora, foi colhida essa folhinha, uma das poucas que ainda restavam5. Todo o povo as queria e a carvalheira, muito pequena, não resitiu ao assalto e ficou inteiramente destruida até ás raizes.

Parece que Nossa Senhora disse que queria que lhe levantassem uma capella n'aquelle sitio; que recommendou que rezassem o terço e que disse que a guerra acabaria n'um dia 13.

Tambem confiou ás creanças um segredo, mas esse não ha forças humanas capazes de as obrigarem a dizê-lo. Tem-se tentado tudo: ameaças, rogos, subornos e até uma pessoa autorisada, para as experimentar, tentou intimida-las com escrupulos religiosos. Tudo foi inutil e continuam sempre na mesma firmeza. Os meus Paes e a Zinha foram hontem tambem á Fatima para as verem de perto e falarem com ellas. Dizem que são muito sympathicas, mas não bonitas6; o pequeno é que é d'appetite. São muito pobres e a Mãe é uma santa mulher que tem aturado as passas do Algarve ao marido, um beberrão de marca. Nem ella nem o Prior teem querido tomar conta das esmolas, mas uma outra mulherzinha encarregou-se d'isso e já teem muito mais de 100.000.

Não sei se a maçaria com estes detalhes todos, mas quiz mandar-lhos, lembrando-me que a interessariam.

Ainda bem que as primas teem gostado da sua estada em Cascaes. O nosso verão foi o mais pacato possivel e não sahi da quinta. No sabbado é que parto com a Tia Camilla e vou estar um mez em Santiago.

A minha Mãe vae com a Zinha em meados de Novembro para Lisbôa e a Tia vae-me depois lá levar. Espero o Tio Eduardo tenha passado bem e V. Excia se sinta menos chôcha do que a ultima vez que nos escreveu.

Tomara ver todos!

De saude estamos regularmente e a Zinha um pouco melhor. Meus Paes sempre tristes e cahidos. Do Max poucas perguntas fazemos, mas consta-me que tem trabalhado immenso e foi promovido a capitão.

Adeus querida Tia, que já tenho vergonha do comprimento d'esta carta. A todos V. Excias as nossas mais affectuosas saudades, um grande abraço ao Tio e beijos ás pequenas. Com a maior ternura a abraça tambem a sua sobrinha

Mto. Aga. e Dda.

M. Benedicta

Notas dos editores

1 Sabemos que era sobrinha da destinatária, pois chama-lhe tia. Em Fevereiro de 1987, pedimos algumas informações sobre esta carta a D. Maria Benedita Cordes Cabedo, da Quinta de S. Venâncio, Leiria, que supomos ser familiar da autora da carta, mas não obtivemos resposta. Esta senhora faleceu a 28 de Abril de 2001.
2 Era avó das ofertantes desta carta e foi madrinha de casamento dos pais de Maria Benedita Cordes Cabedo.
4 A data está por certo errada. Não se trata de Setembro, mas sim de Outubro.
5 Não é provável que a folha aludida pertencesse à azinheira, uma vez que já em Setembro o Dr. Carlos Mendes tinha recorrido às "reservas" da Lúcia por já não se encontrar nenhuma na origem.
6 Esta indicação deixa entrever que a autora não terá visto pessoalmente as crianças por altura da sua ida a Fátima.
Aparato crítico e remissões (1)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

3 Texto posterior, a lápis.
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