Explorar / Documento

DCF III-1, Doc. 10

19 ago. 1917Lisboanotícia de imprensaJosé do Vale (O Mundo)

O jornal “O Mundo” faz um comentário crítico às aparições.

Publ: “O Mundo”, Lisboa, 17 (6146), 19 Ago. 1917, p. 1, cols. 2-3.

A BURLA DOS MILAGRES COMO SE PRETENDE DESVAIRAR O POVO O QUE SE TEM PASSADO EM FATIMA

O Mundo referiu-se ontem ao que se tem passado na povoação de Fatima, concelho de Vila Nova de Ourem, com o aparecimento de uma santa que, nos dias 13 de cada mês, se digna falar a três pobres creanças que vão humildemente guardar gado para a Cova de Santa Iria3, na falda da Serra de Aires4... O caso fez sucesso e o povo ingenuo ouviu extasiado essa historia maravilhosa que em tempos idos o encantaria mas que neste momento não poderá ser tomado a serio — por tal fôrma surge clara a explicação e a especulação. Trata-se de um caso de alucinação de pobres creanças que frequentam assiduamente a igreja, ou de um proposito clerical? É o que as autoridades teem o dever de averiguar e estamos certos de que assim procederão, encontrando-se á frente do concelho um dedicado republicano como é o sr. Artur de Oliveira Santos, que tem sido exemplar no cumprimento do seu dever. O caso tem já o carimbo de exploração clerical. O Ouriense, boletim clerical do concelho de Vila Nova de Ourem, redigido por um padre, escreve o seguinte:

Esta freguesia (Fatima) experimentou no passado dia 13 o espectaculo mais maravilhoso e comovente, que a imaginação podia idealizar. Quererá a Rainha dos Anjos fazer desta freguesia uma segunda Lourdes?!! Ha!! Quem o merecera?!! A Deus e á virgem Mãe não é impossivel. Não foi possivel fazer o calculo aproximado do numero de pessoas que vieram á distancia de tantas leguas, desde o humilde pastorinho, rude lavrador aos que fazem agradaveis passeios em velozes automoveis, para tomarem fé de alguma prova da tão propagada Aparição de Nossa Senhora a 3 creanças, desta freguesia, (3ª vez 13-7-917). Todas as pessoas, ou pelo menos a maior parte, ficaram satisfeitas só em verem a maneira como as creanças se apresentaram e falaram — pergunta[n]do...pedindo...e esperando tempo de resposta sem que mais ninguem as ouvisse.

Como se vê, os clericais já aceitam como facto estabelecido que a aparição foi verdadeira.

Como se deu inicio á especulação

O inicio da especulação clerical foi em 13 de maio. Três creanças — Lucia, de 10 anos, Francisco, de 8 e Jacinta, de 7 - residentes em Aljustrel, andavam na vasta planice da Cova de Santa Iria a apascentar doceis ovelhas, quando lhes apareceu uma senhora, toda vestida de branco, diz a Lucia. A senhora disse aos pastorinhos que deviam aprender a ler e a escrever e que no dia 13 de cada mês lhes apareceria no mesmo sitio, junto a uma carvalheira. No dia 13 de outubro desceria pela ultima vez do ceu á terra para fazer a paz no mundo — e acabar com a guerra. Todas as pessoas que não acreditassem na sua obra seriam castigadas.

Ahi está o exemplo de mais um simbolo da pureza que vem resgatar o mundo pela bondade, mas ao mesmo tempo ameaça fulminar os que não quizerem acreditar nas suas virtudes. O mesmo odio aparece na doentia e erotica lenda da aparição da Virgem a S.

Domingos de Gusmão. Tambem a virgem lhe apareceu em sonhos e lhe suplicou voluptuosamente que fosse pelo mundo fóra.

— Vai, Domingos, vai prégar aos povos o meu rosario e dize aos que não se converterem que todo o meu amôr se trasmudará em odio.

Fundou-se assim a Inquisição.

Como essa aparição, tambem esta préga o odio.

Deve concordar-se que para fantasia de creanças é demais. Uma creança inculta não teria expontaneamente, nem fixaria com facilidade, as ideias enunciadas. Foram previamente preparadas para desempenhar esse papel. A Lucia, de resto, é assidua frequentadora de igrejas. Só em um mês confessou-se quatro vezes. E insiste em que conserva um segredo que só poderá revelar no dia 13 de outubro. Os padres teem afluido ao local e — coisa curiosa! — todos eles encontram na pequenita os traços de aquele papagaio bem falante que foi a Bernardette, de Lourdes.

Mais aparições e começa a manifestar-se o odio contra os liberais

Em 13 de junho tornaram as creanças a vêr a senhora, no mesmo local e á mesma hora, das 12 para as 14. Apareceram com os pequenos algumas pessoas que não viram nada, mas que julgaram vêr. Os padres começaram a explorar com o caso, pretendendo fazer acreditar em um verdadeiro milagre. Pobres mulheres do povo recordaram frases ouvidas nas catequeses e simples creanças de tenra idade, logo sonharam um anjo bom que aparecesse aos petisitos para lhe[s] dar uma alegria eterna. Tisicos, coxos, doentes de varia especie, estorcendo-se em sofrimentos, aproveitaram logo o ensejo e solicitavam dos pobres videntes que servissem de intermediarios junto da aparição para a cura dos seus males.

No dia 13 de agosto, todos queriam assistir á aparição, preparando-se para seguir as crianças até á Cova de Santa Iria. Foi então que a autoridade interveiu, conduzindo as crianças para Ourem, a fim de não darem mais pretextos para especulações. No campo uma pobre velhota ainda teve um trabalho enorme para ver a senhora, ao mesmo tempo que santas criaturas incitavam o povo simples, ainda fanatizado pela perversa obra da igreja, a que matassem os republicanos, os maçons, os liberais. E os padres sancionam, quando não provocam, essas manifestações de crendice, em que ha alguma coisa de pouca vergonha e muito de ignorancia.

J. do V.10

Notas dos editores

3 O local das aparições era e é designado vulgarmente por Cova da Iria. Não sabemos se se trata de uma referência a Santa Iria.
4 Serra de Aire.
10 José do Vale, jornalista e político, nascido em 1880.
Aparato crítico e remissões (7)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 9, de 18 de Agosto de 1917, nota 1.
2 Doc. 9, de 18 de Agosto de 1917.
5 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 53, de 11 de Agosto de 1917, nota 1.
6 Cf. Doc. 6, de 29 de Julho de 1917.
7 Cf. Doc. 6, de 29 de Julho de 1917.
8 Cf. nota 3.
9 Cf. nota 3.
Abrir