Explorar / Relato

Lúcia de Jesus · 13 de maio de 1917

Vidente
13 mai.Testemunho diretoViuInterrogatórioFiguras / visõesPalavras dos videntes

Aconteceu-te alguma coisa importante na Cova da Iria? Respondeu: aconteceu-me o seguinte: No dia treze de maio de mil novecentos e dezassete, andava eu a guardar o gado no sítio da Cova da Iria, da freguesia de Fátima, na companhia dos meus primos Francisco Marto e Jacinta Marto; depois de rezarmos o terço, como de costume, começámos a brincar, fazendo um muro à volta duma moita, quando vimos um relâmpago para o lado do nascente, e, receando que viesse trovoada, embora estivesse bom tempo, eu disse ao Francisco que era melhor irmos para casa recolher o gado quando chegámos ao meio da fazenda, deu outro relâmpago, e, dois passos adiante, vimos em cima duma carrasqueira, que teria um metro de altura aproximadamente, uma Senhora muito formosa, com aparências de nova, talvez de dezoito a vinte e dois anos, envolta num clarão mais brilhante que o sol. Ficámos muito assustados por vermos aquele resplendor que a envolvia, mas a Senhora a meia voz, mas bem inteligível, disse-nos: “Não tenham medo, porque eu não vos faço mal”. Eu perguntei-lhe: “donde é Vossemecê?” ao que ela respondeu: – “Eu sou do Céu” – “O que é que Vossemecê me quer?” Ela respondeu: – “Quero que venhas aqui durante seis meses, e no fim te direi o que quero”. Perguntei-lhe pela Maria, do José das Neves, e ela disse-me que estava no céu; perguntei-lhe pela Amélia, e disse-me que estava no purgatório. Se me disse mais alguma coisa neste mês, não me lembro. Nisto, desapareceu, subindo muito alto para o lado do nascente”.

– “Como estava vestida a Senhora?”. Respondeu: “Estava vestida de branco, coberta desde a cabeça até à extremidade do vestido com um manto galoado a ouro, preso com um cordão dourado, terminado por uma borla também dourada, nada tendo sobre a cabeça além do manto; as mangas do vestido chegavam até às mãos postas à altura do peito e donde pendiam umas contas brancas, terminadas por uma cruz também branca; parece-me que não vinha descalça, mas não posso determinar bem porque pousava sobre folhas envoltas em luz e porque não reparei bem nos pés; via-se um pouco das orelhas, mas não posso precisar se tinha brincos ou não, parecendo-me contudo que tinha um fiozinho de ouro”.

– “Qual era a tua idade e a dos teus primos nessa ocasião?”. Respondeu: – “Eu nesse tempo tinha dez anos, o Francisco nove e a Jacinta seis2”.

– “Os teus primos também viram e falaram com essa Senhora?”. Disse: – “Os meus primos não fizeram perguntas, mas a Jacinta dizia tê-la ouvido e o Francisco via-a, mas não a ouvia”.

– “E não te lembras de mais nada que acontecesse nesse dia?”. Disse: “Agora lembra-me isto: quando a Senhora me disse que ela era do Céu, eu perguntei-lhe se eu ia para o Céu, e ela disse que sim; se ia a Jacinta e ela disse que sim; se ia o Francisco e ela disse que sim, mas que ele devia rezar o terço; também me lembro que, depois de desaparecer a Senhora, veio um homem dizer que as ovelhas tinham ido para os chícharos e que já lhes tinha atirado com pedras e que os chícharos estariam comidos; foi por lá ver para avisar o dono, e depois disse ao dono, José Matias, que as ovelhas tinham ido para os chícharos, mas que eles não estavam comidos”.

– “A Aparição durou muito tempo? Tiveste medo durante ela? Contaste a alguém o que viste?”. Disse: “A Aparição durou pouco tempo e durante ela não tive susto nenhum; ao irmos para casa, combinei com os meus primos não dizer nada a ninguém, e nos dias seguintes íamos, quando podíamos com as ovelhas para a Cova da Iria, ou passaríamos lá ao recolher o gado, rezando aí uma Avé Maria”.

Notas dos editores (2)

1 António Rodrigues Pena. Foi pároco de Fátima entre 1909 e 1914.

2 Jacinta tinha já sete anos.

DCF Seleção, Doc. 82 (= DCF II, Doc. 8) · interrogatório · 8 jul. 1924 (7 anos depois)Digitalizações (3)
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