Algumas semanas depois voltei ao local das aparições para entrevistar as pastoras. Desejava conhecer essas crianças. Acompanharam-me minha mãe, a Baronesa de Alvaiázere9, minha irmã, Maria Celeste10, e o meu particular amigo Conde do Juncal11, e sua Ex.ma Mulher, que então eram nossos hóspedes. Junto da Igreja da Fátima parámos e pedimos que nos dissessem onde se encontravam as pastorinhas. Disseram-nos que deviam estar no local das aparições e que o pastorinho que as acompanhava e a quem a Virgem também aparecia que estava ali próximo e que o iam chamar. Pouco depois apareceu este. Era uma criança de dez a doze anos, trajando à moda do campo, bastante alegre e despreocupado, ao que parecia. Convidámos o pequeno a acompanhar-nos ao que ele se prontificou logo, saltando sorridente para o automóvel que nos conduzia. Fizemos-lhe várias perguntas mas ele sorria mais do que falava, mostrando-se muito deslumbrado com as várias peças do automóvel. Junto do local, em frente de uma mesa de madeira bastante velha, onde estava colocado um Crucifixo, várias pessoas oravam. Lá estava o tronco da azinheira cortada e os tais postes de madeira dos quais pendiam duas lanternas de lata. Ajoelhámos e rezámos também.
A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente, à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”. “Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”. Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes. Uma mulher que dizia ser tia dela auxiliava-a algumas vezes nas respostas e fazia várias considerações sobre um segredo que elas tinham e que a ninguém o revelavam embora já lhes tivessem feito vários prometimentos sedutores e até as tivessem ameaçado de que as deitariam a um poço ou de que as queimariam se elas o não revelassem. Disseram-nos ainda que as esmolas que recebiam eram para a construção de uma capela e que dessas esmolas era depositária outra mulher que ali se encontrava. Informaram-nos também ali que a pequena se encontrava fatigadíssima com a constante série de perguntas que toda a gente lhe fazia. A referida pequena, umas vezes me parecia concentrada, outras vezes me parecia distraída. Devo declarar que a impressão que me deixou não foi boa, ou foi pelo menos muito diferente da que eu esperava. Uma criança cheia de lógica, de coêrencia e de perspicácia seria também de recear. Se apesar dessas aparências estava ali uma criatura escolhida por Deus para uma tão assombrosa revelação, não posso eu dizê-lo. No regresso, parámos novamente junto da Igreja da Fátima; ali conseguimos falar à outra pequena, cujo nome não me recorda. Subiu ao estribo do automóvel que nos conduzia mas não conseguimos arrancar-lhe uma palavra por mais diligências que empregámos para esse fim. Tinha esta aspeto muito jovial e uns olhos expressivos. Devia ter sete ou oito anos de idade.
Notas dos editores (3)
9 Maria José da Câmara Faria Serpa Magalhães. Faleceu a 1 de janeiro de 1934.
10 Maria Celeste da Câmara e Vasconcelos, nascida a 22 de março de 1897. Faleceu, solteira, a 16 de setembro de 1977.
11 Pedro Sande Mexia Aires de Campo Vieira da Mota, segundo filho dos Condes do Ameal. Casou duas veze: a primeira com Maria Albina Cochofel da Silva Correia; a segunda, com Maria Luísa Tavraes Aires de Campos.