Explorar / Relato

Luís António Vieira de Magalhães e Vasconcelos · outros acontecimentos de 1917

ProfissionalAristocrataadvogado e conservador do registo civil de Vila Nova de Ourém
Outros de 1917Testemunho diretoDepoimento ajuramentadoAtitude céticaPalavras dos videntes

Algumas semanas depois voltei ao local das aparições para entrevistar as pastoras. Desejava conhecer essas crianças. Acompanharam-me minha mãe, a Baronesa de Alvaiázere9, minha irmã, Maria Celeste10, e o meu particular amigo Conde do Juncal11, e sua Ex.ma Mulher, que então eram nossos hóspedes. Junto da Igreja da Fátima parámos e pedimos que nos dissessem onde se encontravam as pastorinhas. Disseram-nos que deviam estar no local das aparições e que o pastorinho que as acompanhava e a quem a Virgem também aparecia que estava ali próximo e que o iam chamar. Pouco depois apareceu este. Era uma criança de dez a doze anos, trajando à moda do campo, bastante alegre e despreocupado, ao que parecia. Convidámos o pequeno a acompanhar-nos ao que ele se prontificou logo, saltando sorridente para o automóvel que nos conduzia. Fizemos-lhe várias perguntas mas ele sorria mais do que falava, mostrando-se muito deslumbrado com as várias peças do automóvel. Junto do local, em frente de uma mesa de madeira bastante velha, onde estava colocado um Crucifixo, várias pessoas oravam. Lá estava o tronco da azinheira cortada e os tais postes de madeira dos quais pendiam duas lanternas de lata. Ajoelhámos e rezámos também.

A pequena Lúcia, aquela a quem a Virgem aparecia, conversava a certa distância com alguns forasteiros. Esperámos que estes a deixassem e aproximámo-nos dela. Esta era uma criança dos seus doze anos, de feições grosseiras e de cor muito macilenta. Estava vestida pobremente, à moda do campo, tendo ao peito uma pequena flor de papel vermelho e nas mãos um pequeno cofre, onde tilintavam algumas moedas. Tinham um ar tristonho e sombrio. Narrou-nos a aparição da Virgem da forma que já é de todos conhecida. Que a Virgem lhe dissera “que nós tínhamos ofendido muito a Deus e que nos emendássemos”. “Que fízéssemos ali uma capelinha e que lhe pusessem o nome da Senhora do Rosário”. “Que a guerra acabaria em breve”. Perguntando-lhe minha irmã o que vira ela no sol na ocasião do milagre, respondeu “que vira S. José”. Perguntei-lhe também se ela não tinha receado que se não desse o milagre pois que o povo a poderia matar julgando que ela estivesse enganando todos, disse-me com certa energia “que sabia que o milagre se daria e que por isso nem em tal perigo tinha pensado”. Disse-nos também que já tinha anteriormente ouvido contar os milagres da Senhora de Lourdes. Uma mulher que dizia ser tia dela auxiliava-a algumas vezes nas respostas e fazia várias considerações sobre um segredo que elas tinham e que a ninguém o revelavam embora já lhes tivessem feito vários prometimentos sedutores e até as tivessem ameaçado de que as deitariam a um poço ou de que as queimariam se elas o não revelassem. Disseram-nos ainda que as esmolas que recebiam eram para a construção de uma capela e que dessas esmolas era depositária outra mulher que ali se encontrava. Informaram-nos também ali que a pequena se encontrava fatigadíssima com a constante série de perguntas que toda a gente lhe fazia. A referida pequena, umas vezes me parecia concentrada, outras vezes me parecia distraída. Devo declarar que a impressão que me deixou não foi boa, ou foi pelo menos muito diferente da que eu esperava. Uma criança cheia de lógica, de coêrencia e de perspicácia seria também de recear. Se apesar dessas aparências estava ali uma criatura escolhida por Deus para uma tão assombrosa revelação, não posso eu dizê-lo. No regresso, parámos novamente junto da Igreja da Fátima; ali conseguimos falar à outra pequena, cujo nome não me recorda. Subiu ao estribo do automóvel que nos conduzia mas não conseguimos arrancar-lhe uma palavra por mais diligências que empregámos para esse fim. Tinha esta aspeto muito jovial e uns olhos expressivos. Devia ter sete ou oito anos de idade.

Notas dos editores (3)

9 Maria José da Câmara Faria Serpa Magalhães. Faleceu a 1 de janeiro de 1934.

10 Maria Celeste da Câmara e Vasconcelos, nascida a 22 de março de 1897. Faleceu, solteira, a 16 de setembro de 1977.

11 Pedro Sande Mexia Aires de Campo Vieira da Mota, segundo filho dos Condes do Ameal. Casou duas veze: a primeira com Maria Albina Cochofel da Silva Correia; a segunda, com Maria Luísa Tavraes Aires de Campos.

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