Testemunhas /
Correspondente não identificado do Diário de Notícias em Santarém
Jornalista
Correspondente não identificado do diário lisboeta Diário de Notícias em Santarém, que noticiou a remoção da árvore das aparições e de outros objetos para Santarém e a procissão burlesca ali feita (22 a 24 de outubro de 1917).
Residência: SantarémA região em redor2 relatos · Outros acontecimentos de 1917
Durante a noite de ontem, algumas pessoas que se fizeram transportar num automovel a Fatima, foram ao local onde se deu o tão afamado fenomeno do dia 13 do corrente mês, e de que tanto a imprensa se tem ocupado e, munidos dum machado, cortaram a carvalheira, sob a qual as três crianças (pastoras), se apresentaram naquele dia.
Trouxeram a arvore assim como uma mesa, sobre a qual alguns crentes haviam armado um modesto altar, onde foi encontrada a fotografia duma imagem religiosa, (Nossa Senhora), um arco que a encimava, feito de rama de murteira, duas lanternas de folha, duas cruzes, sendo uma de madeira e outra de cana, envolta em papéis de seda.
Todos estes objectos assim como dois vasos com plantas, deram entrada nesta cidade as 9 horas d’hoje, encontrando-se em exposição num primeiro andar do largo do Seminario.
O automovel, na ocasião da partida do referido local, teve uma “pane”, não ganhando o “chauffeur” e seus companheiros para o susto, receiosos de serem ali encontrados.
O caso deve ter produzido grande sensação no espirito dos crentes e bons catolicos da Fatima e suas cercanias.
Constou que iam ser pagas as entradas para a visita aos ramos da arvore e imagens e que o apurado reverteria em beneficio das Cantinas Escolares desta cidade, mas sabemos que a direcção desta instituição de caridade recusa qualquer quantia que daí provenha.
Ás 21 horas de ontem, um grupo de populares exibiu um cortejo pelas tres principais ruas da cidade conduzindo alguns deles, procissionalmente, os objectos ha dias trazidos da Fatima, onde se deu o afamado fenomeno do dia 13 do corrente mês.
Um dos populares conduzia a carrasqueira, um outro, acolitado por mais dois, figurando de eclesiasticos, conduziam sob um chapeu de sol uma cruz e, por fim, uns outros transportavam a estampa duma imagem religiosa, sendo encimada por um arco de mortinheira, ladeada por duas lanternas.
Ao som do badalar duma campainha e o rufar dum tambor, cerca de 100 populares entoavam uma ladainha, sendo sobre os mesmos e um policia civil lançado um balde de agua quando passavam proximo da ourivesaria Lemos.
A senhora que lançou a agua foi multada pela policia, mas o marido resolveu não pagar a multa e fazer escandalo no tribunal.
Toda a gente estranha ao cortejo, especialmente os catolicos, comentam verberantemente a indiferença ou consentimento de tal desacato por parte da autoridade administrativa que durante a sua estada aqui só tem revelado uma manifesta incompetencia no desempenho da sua missão, não sabendo evitar factos vexatorios e improprios duma cidade, como o que vimos relatando.
Notas dos editores (1)
2 Era, nesta altura, António R. Almeida Ribeiro, sob a presidência de Afonso Costa, que se manteve até à revolução de Sidónio Pais, a 8 de Dezembro de 1917.