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Manuel Nunes Formigão · outros acontecimentos de 1917

Cleropadre, professor no seminário e no liceu de Santarém
Outros de 1917Testemunho diretoInterrogatórioAtitude céticaa 2 km

No intuito de completar as impressões colhidas no dia 13 do corrente mês de Setembro e habilitar-me com os elementos indispensáveis para fundamentar um juízo, tanto quanto possível, acertado acerca dos acontecimentos que nos últimos cinco meses se têm desenrolado a três quilómetros ao sul da aldeia de Fátima, no local denominado Cova da Iria, fui pela segunda vez na quinta-feira última, 27, àquela pitoresca aldeia, graciosamente alcandorada num dos contrafortes da majestosa serra de Aire. Eram três horas da tarde quando me apeei do trem que de Torres Novas me conduzira por Vila Nova de Ourém à humilde povoação, cujo nome é hoje pronunciado como uma esperança fagueira de bênçãos e graças celestes por dezenas de milhares de lábios, de um extremo ao outro de Portugal. O rev.do Pároco a quem logo procurei, não estava em casa: tinha saído para fora da freguesia e só à noite devia voltar. Pesaroso por não poder trocar algumas palavras com ele sobre o assunto que ali me levava, resolvi ir a casa das crianças que se dizem favorecidas com aparições da Virgem Santíssima e ouvir da boca delas a narração pormenorizada dos estranhos sucessos cuja notícia tem atraído dia a dia à Fátima um sem número de pessoas de todas as classes e condições sociais.

À distância de dois quilómetros da igreja paroquial e do presbitério, num insignificante lugarejo chamado Aljustrel, pertencente à freguesia, ficam situadas perto uma da outra, as modestas habitações das famílias dos videntes. As duas crianças mais novas estavam ausentes.

Dirigi-me a casa da mais velha, onde a mãe me convidou a entrar e sentar-me, convite a que acedi. A uma pergunta minha sobre o paradeiro da filha que eu procurava, respondeu-me que ela andava a vindimar numa pequena propriedade que lhe pertencia e que ficava dois quilómetros distante.

Alguém se prestou logo a ir chamá-la de ordem da mãe. Entretanto, as duas crianças mais novas, que tinham regressado do campo, sabendo pelos vizinhos que eu lhes desejava falar, vieram ter comigo. Eram dois irmãos, um menino e uma menina.

Chegou primeiro a menina. Chama-se Jacinta de Jesus, tem sete anos de idade e é filha de Manuel Pedro Marto e de Olímpia de Jesus3. Bastante alta para a sua idade, um pouco delgada sem se poder dizer magra, de rosto bem proporcionado, tez morena, modestamente vestida, descendo-lhe a saia até à altura dos artelhos, o seu aspeto é o de uma criança saudável, acusando perfeita normalidade no seu todo físico e moral. Surpreendida com a presença de pessoas estranhas, que me tinham acompanhado e que não esperava encontrar, a princípio mostra um grande embaraço, respondendo, por monossílabos, e num tom de voz quase impercetível, às perguntas que eu lhe dirijo. Momentos depois aparece o irmão, rapaz de nove anos de idade, que entra com um certo desembaraço no quarto, onde estávamos, conservando o barrete na cabeça, decerto por não se lembrar de que o devia tirar. Um sinal que a irmã lhe fez para se descobrir não foi percebido por ele. Convidei-o a sentar-se numa cadeira ao meu lado, obedecendo imediatamente sem nenhuma relutância. Principiei sem demora a interrogá-lo sobre o que tinha visto e ouvido desde maio último na Cova da Iria no dia 13 de cada mês durante o tempo da aparição. Estabeleceu-se entre mim e ele o curto diálogo que segue.

[…]

Meia hora depois de terminado o interrogatório de Jacinta de Jesus, aparece Lúcia de Jesus. Vinha, como disse de uma pequena propriedade de sua família, situada a dois quilómetros de distância, onde tinha estado a vindimar. Mais alta e mais nutrida que as outras duas crianças, de tez mais clara, robusta e saudável, apresenta-se diante de mim com um desembaraço que contrasta singularmente com o acanhamento e a timidez excessiva da Jacinta. Singelamente vestida como esta, a sua atitude não denota e o seu rosto não traduz nenhum sentimento de vaidade nem de confusão.

Sentando-se, a um aceno meu, numa cadeira, ao meu lado, presta-se da melhor vontade a ser interrogada sobre os acontecimentos de que ela é a principal protagonista, sem embargo de se sentir visivelmente fatigada e abatida, mercê das visitas incessantes que recebe e dos inquéritos repetidos e prolongados a que é submetida.

Filha de António dos Santos4, de 50 anos de idade, e de Maria Rosa, de 48 anos, tem um irmão e quatro irmãs, todos mais velhos do que ela: Maria5, de 26 anos, já casada, Teresa6, de 24, Manuel7, de 22, Glória8, de 20, e Carolina9, de 15. Completou dez anos de idade em 22 de março do corrente ano10.

Tinha oito anos quando fez a sua primeira comunhão. A mãe, tipo da mulher cristã, e da boa dona de casa, entregue às lides domésticas, procurou sempre inspirar aos filhos o santo temor de Deus e levá-los ao cumprimento de todos os seus deveres morais e religiosos. Altamente preocupada com os sucessos que atraem a todo o momento as atenções de milhares de pessoas para a sua pobre habitação, até há pouco tempo ignorada do mundo, nota-se desde logo que o seu espírito hesita, numa ansiedade inquieta, entre a esperança de que sua filha seja realmente privilegiada com a aparição da Virgem e o receio de que ela seja vítima de uma alucinação que lhe traga desgostos e cubra de ridículo toda a sua família.

A uma pergunta minha acerca da piedade da sua Lúcia, responde que não lhe nota nada de extraordinário neste particular, vendo-a rezar da mesma forma e com o mesmo fervor que antes das aparições, exatamente como fazem as suas irmãs.

Notas dos editores (10)

1 Mãe de Lúcia. Nasceu na Perulheira, freguesia de S. Mamede, concelho da Batalha, a 6 de julho de 1869 e faleceu, em Aljustrel, a 16 de julho de 1942.

2 Nasceu em Tomar a 1 de janeiro de 1883. Foi professor do Seminário e do Liceu de Santarém. Em 1922, foi nomeado, por D. José Alves Correia da Silva, Bispo de Leiria, membro da Comissão Canónica para o estudo dos acontecimentos de Fátima, sendo o autor do Relatório, apresentado a D. José em 1930. Em 1926, fundou a Congregação das Religiosas Reparadoras de Nossa Senhora Dores de Fátima. Faleceu, em Fátima, a 30 de janeiro de 1958.

3 Nasceu em Aljustrel a 31 de maio de 1869. Casou com José Ferreira da Rosa, a 6 de fevereiro de 1888, ficando viúva em 1895. Deste matrimónio nasceram dois filhos, António Ferreira Rosa e Manuel Ferreira Rosa. A 11 de fevereiro de 1898, casou com Manuel Pedro Marto. Faleceu, em Aljustrel, a 3 de abril de 1957.

4 Nasceu a 3 de janeiro de 1868, em Aljustrel; casou a 19 de novembro de 1890 com Maria Rosa. Faleceu a 31 de julho de 1919.

5 Maria dos Anjos, nasceu 13 de agosto de 1891. Casou a 23 de agosto de 1916 com António dos Santos Valinho. Faleceu a 26 de agosto de 1986.

6 Teresa de Jesus nasceu a 22 de maio de 1893. Casou com José da Lomba. Faleceu a 29 de novembro de 1972.

7 Manuel dos Santos nasceu a 22 de agosto de 1895. Casou com Emília de Jesus de Oliveira, a 21 de junho de 1922. Faleceu, no Brasil, a 30 de abril de 1977.

8 Glória de Jesus nasceu a 5 de outubro de 1898. Casou com Francisco Inácio Vieira, a 6 de julho de 1922. Faleceu a 6 de agosto de 1971.

9 Carolina de Jesus nasceu a 17 de outubro de 1902. Casou com Manuel Pereira Carvalho, a 28 de julho de 1929. Faleceu a 31 de março de 1992.

10 Segundo declaração da própria Lúcia, a 23 de fevereiro de 1989, o dia de nascimento foi a 28 de março de 1907 e não a 22 de março: “Meu pai era muito assíduo em levar os filhos à pia batismal. Quando eu nasci – ouvi contar a minha mãe numa entrevista com o Dr. Formigão, que a interrogou perguntando em que dia eu fazia anos - a Mãe respondeu: “Nós dizemos que é no dia 22 de março, porque ela foi registada como tendo nascido nesse dia, mas, na verdade, não é bem assim. Ela nasceu no dia 28 de março. Era quinta-feira Santa. [...] O Pai tratou logo do batizado. Não lhe convinha na próxima semana, por motivo dos seus trabalhos, mas, como estava mandado que os pais levassem os filhos a batizar aos oito dias, depois de nascidos - que, de contrário, pagavam multa, o Pai resolveu dá-la como nascida no dia 22, para que o Pároco a batizasse no Sábado de Aleluia, que era o dia 30 do mesmo mês” (Memórias da Irmã Lúcia, Memória V, capítulo 1, nº 2, Fátima, Vice-Postulação).

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