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DCF III-2, Doc. 469
Notas do Dr. Manuel Nunes Formigão sobre os videntes Francisco e Jacinta Marto.
A – AForm, Doss. 2, fl. 11, doc. 1
Descrição do documento: Apontamento a lápis inserido num caderno que tem na capa (impresso, colado) o título FATIMA, (11x175) sem numeração de páginas. O presente apontamento está nas fls. 3-6. Segue na fl. 7 o título: “1920 – Notas sobre a Jacinta”, mas sem ser preenchido.
Fatima 9 d’Abril de 1920
Francisco Marto adoeceu no dia 22 23 de Dezembro de 1918, adoeceram todos na casa excepto o pae, as visinhas ajudaram a tratar os enfermos bem como o pae. O Francisco esteve de cama com a força da doença uns quinze dias, levantando-se nos principios de Janeiro, muito fraco, cada vez mais. Dizia á mãe, ó mãe só posso rezar metade do terço quando resava o terço como de costume. Dizia “Ó minha mãe não me atrevo a rezar o terço todo”. Respondia-lhe a mãe que se não o pudesse rezar de rijo, rezasse só com o pensamento. Dizia muitas vezes que a oração que Na Sa lhe tinha dito, nunca lhe esquecia. Ó minha mãe, a oração que Na Sa lhe ensinou nunca lhe esqueça, que eu nunca me esqueço. Mas, filho, ás vezes esquece-me. Dizia o pequeno “Quando fôr pelo caminho reze-a. Ó meu Jesus perdoae-nos, livrae-nos do fogo do inferno, levae as alminhas todas para o Ceu principalmente aquellas que mais delle precisarem”. Elle rezava-a sempre quando o terço. Ás vezes dizia: Ó minha mãe, eu não sei offerecer o terço como muita gente sabe. “Meu filho offerece-o a Na Sa. Mas como tu entenderes”. Ás vezes a mãe dizia-lhe e á pequena: Vocês mentem! Na Sa não lhes appareceu. Você é que mente. Mas eu nunca vi N. Sa. Você não vê porque não quer, porque é muito ruim, muito mentirosa.
O pequeno começou a sahir, chegou a ir varias vezes á Cova da Iria. Nunca mais teve saúde. Diziam-lhe ás vezes que elle melhorava. Elle dizia que não. Dizia que A madrinha Thereza de Jesus disse-lhe um dia: se melhorares hei-de te pesar a trigo para oferecer á N.Sa da Ortiga. Elle respondeu: Já não é a tempo. Disse-lhe isso mais de uma vez. (Quando pastava o gado a mãe mandava-o pelos montes7 da madrinha, e o pequeno dizia que a mãe não devia ensina-lo a roubar, e se quizesse que elle fosse, avisasse a madrinha). No dia 3 de abril la foi viaticado pelo parocho. Então eu não hei-de receber a No Senhor? A familia chamou o parocho para o confessar no dia 2. No dia 3 foi-lhe pela manhã em jejum administrado o Sagrado Viatico. Elle pediu-lhe na véspera á mãe o deixasse estar em jejum. Está bem disse a mãe, depois da meia-noite não tomarás mais nada. Quiz sentar-se na cama. A familia não deixou. Ficou muito contente. Perguntou á mãe. Não tornarei a receber a No Sor, minha mãe? Não sei, filho. Pediu durante o resto do dia agua e leite. Á noite á mãe pareceu-lhe que estava peor e perguntou-lhe como se sentia. Elle disse que não estava peor e que não lhe doia nada. Morreu no dia seguinte, 59, sexta-feira, pelas dez horas. Faria 11 annos, se fosse vivo, no dia 11 de junho. Nascera ás dez horas da noite pouco mais ou menos10.
Meia hora antes delle dar contas a Deus, a mãe disse-lhe. Ó Francisco estás peor? Não, o que desejava era ver a madrinha. O pae foi chamá-la. Ella chegou e elle, logo que ella assomou á porta, disse ó madrinha dê-me a sua benção e perdôa-me? A madrinha abraçou-se a elle, não querendo crer que elle morresse ainda, dizia: Ó Francisco, tu não morres ainda. Dez minutos depois morreu. Quando morreu, deu um ar de riso e morreu. A Jacinta disse, porque estão vocês a chorar, pois elle estava a rir. Então porque não choras? Nunca chorou, não teve pena delle ou, se a tinha, não a mostrava. Nem pelo enterro chorou. E dizia vocês é que hão de morrer. Elle não morreu. Morreu, mas foi para o Ceu. Mas reza por elle, quando a familia lhe rezava por alma.
Jacinta Marto
Adoeceu no dia 22 de Dezembro de 1918. Ainda no dia 20 tinha ido com a mãe á procissão de penitencia de Boleiros, promovida por Manuel Paulo12, indo o SS.mo Sacramento de Fatima para Boleiros.
Esteve uns oito dias de cama levantou-se, appareceu-lhe um tumor no lado esquerdo, tornou á cama no mez de Janeiro ou Fevereiro. Rebentou o tumor. Dois ou trez mezes depois foi para o hospital de V. N. d'Ourem, em Junho e Julho. Depois do tumor rebentar foi a mãe com ella ao collo, ao medico Dr. Preto duas vezes, com differença de 15 dias ou mãe. Da 2a vez é que elle disse que fosse para o hospital. No fim de dois mezes disse elle á mãe que a retirasse, que mais não lhe podia fazer, só uma operação em Lisboa, mas que mesmo assim naturalmente não melhorava. Foi durante a doença muitas vezes a cavallo num burrinho á Cova da Iria, a pedido della, que insistia. No dia 13 de Jo foi lá pela última vez. Quando chegou á estrada, disse á mãe cale-se agora, não diga nada, que eu quero rezar dois terços, e na Cova da Iria offerece-los a Na Sa porque não queria que lhe fizessem perguntas, que não lhe dissesse nada. Pouco dormia durante a doença. Mas não dava incommodo durante a noite.
Rezava o terço. Ás vezes dizia ó minha mãe já não posso rezar senão sentada. Então dizia a mãe se não puderes rezar não rezes. Durante á doença, emquanto podia andar de pé, chamava as creanças dos visinhos e ensinava-lhes a doutrina. Emquanto foi viva havia sempre creanças á porta. Ella tinha dois laços de fita de seda que lhe tinham dado. Pediu á mãe, para os ir offerecer a N.Sa. á Cova da Iria. Pendurou-os e depois disse nunca mais cá torno.
Uma vez que ella se confessou em Lisboa antes de ir para o hospital, não percebeu bem o padre, e a mãe perguntou-lhe se tinha percebido a penitência e disse que sim e se se tinha confessado bem e disse que sim, e acrescentou que não tinha peccados grandes, mas só ralhar aos cachopos quando faziam barulho ou rixavam e faltas de paciência com o tratamento do buraco. Tinha sempre muitas dores. Queixava-se quando lhe mexiam da cintura para cima. Mudava de roupa duas ou trez vezes por dia por causa do pus, e isso custava-lhe muito. Ia de vez emquanto a pé (e só uma vez a cavallo) á egreja parochial para se confessar e commungar. Em Lisboa confessou-se uma ou duas vezes e commungou tres vezes, sendo duas na egreja da Estrella. Fez a 1a communhão ha dois annos, um anno depois da ultima apparição.
Notas dos editores
Aparato crítico e remissões (11)
As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.