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DCF III-1, Doc. 21

2 set. 1917Alcobaçanotícia de imprensaSemana Alcobacense

O jornal "Semana Alcobacense", publica, a partir do jornal "O Mensageiro", a carta de João Pereira Novo a Francisco da Silva Coelho2.

Publ.: "Semana Alcobacense", Alcobaça, 28 (1.410), 2 Set. 1917, p. 1, cols. 4-5.

O FANATISMO EM ACÇÃO O "MILAGRE" DA FÁTIMA

Apesar de toda a propaganda que a seu respeito tem sido feita, é possivel que nem todos os nossos leitores estejam ainda devidamente elucidados ácerca daquele milagroso caso da aparição de Nossa Senhora, ali para os lados da Fátima, no concelho de Vila Nova de Ourem; e como póde ser que assim aconteça, além de que se trata de um facto na verdade dos mais notaveis nos ultimos tempos ocorridos a bem dizer no mundo inteiro, e digno, portanto, da maior publicidade, lembrámo-nos nós de contribuir para a sua maxima divulgação reproduzindo nas colunas da Semana as palavras que o estupendo caso mereceu a uma sua testemunha ocular, — ou seja o sr. João Pereira Novo — e as quais foram pelo Mensageiro insertas na segunda pagina do seu numero relativo a 22 de agosto findo.

Verdade seja que o mesmo jornal, a despeito de todo o seu catolicismo, e de ter pelo menos quatro padres a fazerem parte do seu corpo redactorial4, não dá um credito que se possa dizer absoluto ao depoimento do pobre homem (pobre, é um modo de dizer como qualquer outro, porque nós não o conhecemos e ignoramos, por conseguinte, se ele se governa com dificuldades ou sem elas). E é logo de principio que a aliás tão piedosa folha mostra as suas reservas contra um, ao parecer, tão insuspeito testemunho ácerca do milagre da Fátima. Assim, o Mensageiro não só encima desconfiadamente as duas colunas e pico que ao assunto dedica, — Aparição milagrosa?, interroga-se ele — como continua sangrando-se em saude dizendo, por exemplo, que não devemos emitir o nosso juizo (sobre a aparição da Virgem, é claro), e que cada um interpretará como lhe ... parecer a carta em que essa sobrenatural ocorrencia é relatada.

Mas vamos á transcrição do sensacional documento. O Mensageiro confessa que o seu signatario é pessoa de letras gordas (não só teve de alterar a pontuação intercalada nos seus dizeres, como a propria ortografia de algumas das suas palavras); o que ele, porém, não disse, nem podia dizer, é que o bom do homem (outra frase consagrada, tanto sabemos nós se se trata de algum coração de pomba, se da alma mais envenenada deste mundo) anda divorciado das boas e antigas praxes epistolares. Pois começa assim:

Amigo e sr. Coelho, em primeiro lugar muito estimo que esta minha carta o vá encontrar gosando de perfeita saude em companhia da sra Gloria e de toda a mais familia, que eu e toda a minha familia ficamos de perfeita saude, graças a Deus.

Entrando depois na descrição dos sucessos a que no dia 13 assistiu na Fátima, conta o autor da interessante missiva ao sr. Coelho e á sra. Gloria, mais ás manas dela, que tanto lhe pediram para a esse respeito as informar:

Vi lá um altar sobre uma azinheira e muita gente a rezar; conforme iam chegando assim iam rezando sem nunca cessarem de rezar. Eu nunca vi tanta gente junta nem tanto carro dos lados de Torres Novas e de Ourem. Chegavam aos quinze e vinte carros juntos sem que podéssem passar uns pelos outros.

Até aqui, tudo sem novidade, como se vê. Mas...

Á hora em que as crianças estavam para sair de casa dos pais acompanhadas de alguns padres que as tinham estado a interrogar, (Pobres crianças! Por que tratos de polé elas passaram!)5 aparece-lhes de repente um carro fechado á porta com o administrador dentro e um tal sr. que dizem ser carbonario. Os dois pegam nas crianças, dizendo: meninas, andem, vamos lá, que já são horas, e as crianças dispensaram o favor dizendo: nós vamos a pé na companhia desta gente. E dizem os tais srs.: não, não, meninas, hoje é dia de festa, gosto que vão de carro. Nisto pegam nas crianças, metem-nas no carro, dão meia volta aos cavalos e fogem com as crianças para Ourem.

Depois de um desafôro assim da autoridade administrativa, o povo, já se vê, ficou desapontado, chorou muito, e um automovel seguiu logo atraz do carro para ver se trazia as crianças, o que não conseguiu. Entretanto...:

O povo que lá tinha ido o mez passado animou-o de novo, dizendo: rezem, rezem e estejam com atenção que já não faltam cinco minutos para a hora do mez passado.

E eis-nos chegados ao melhor da festa:

O povo fez silencio. O tempo era claro. Pois de repente se formou um relampago do céu sobre o altar e fez de roda do altar um redemoinho que cobriu mais de trezentas pessoas de terra. Tudo fugia e caía e chorava. A terra arruou mas muito forte, as pedras mudaram de côr e então começa muita gente a gritar: olhem, olhem, olhem, a Nossa Senhora ali vem, vejam, com um fato branco! Os que a viram na terra foram muitos, mas os que a viram no céu foram muitos mais, e mais de tres mil pessoas não viram mais porque quando a terra arruou e as pedras mudaram de côr, tudo que estava mais perto, uns caíram, outros agastaram-se e eu tambem fiquei tão atrapalhado que, de tanto que queria ver, vi pouco. Mas o que eu, e todos os que ficaram em soluços, ainda vimos muito bem foi arcos e grinaldas no céu ao lado sul, com flôres de todas as côres.

E diz o homem da epistola que viram pouco! Que mais extraordinarias coisas os seus olhos não teriam então observado, se a terra não arrua e uns não caiem, outros se não agastam e ele não fica tambem tão atrapalhado ao fazer daquela?!

Mas não havia [de] esquecer a partida que a autoridade administrativa lhes pregára. É certo não ter sido preciso que as crianças estivessem presentes, para que toda a enorme romaria assistisse a quanto fique narrado, e a que falta, para o quadro ficar completo, acrescentar este pormenor tão curioso: é que se Nossa Senhora não falou, foi por não ter quem lhe respondesse...

No entanto...

Depois de todo o povo ver e tornar a ganhar siria, (sic) diziam uns para os outros: vamos combinar com esta gente toda e vamos para Ourem fazer carne fresca. Visto que nos roubaram as nossas visinhas, nós vamos lá buscá-las.

Não sabemos se, depois de se tornarem a encher de siria, (que demonio de bicho será este!) os homens da romaria á Fátima, os homens e as mulheres, — sim, porque o mulherio havia de ter entrado em grande numero na função — foram ou não a Ourem proceder á tal sangueira de que fala a carta cujos pontos essenciais acabamos de transcrever; mas, que eles não tivessem levado por diante os seus propositos, o facto de em tal haverem pensado basta a fazer eloquentemente a prova dos criminosos excessos a que o fanatismo religioso póde dar lugar, quando por qualquer fórma o contrariam nos exageros das suas expansões mais dignas de lastima.

E demonstra ao mesmo tempo quanta necessidade e urgencia ha de por todas as fórmas esse mal combater, hoje que a reacção por todos os modos tambem vai estendendo os seus negros tentaculos, neles pretendendo envolver e asfixiar toda a sociedade portugueza.

Notas dos editores

2 Cf. Doc. 11, de 22 de Agosto de 1917. A transcrição é frequentemente interrompida com comentários do próprio jornal.
4 O articulista refere-se certamente aos nomes que constam do elenco dos redactores, indicado no cabeçalho do próprio jornal: Pe. Júlio Pereira Roque (Jupero), António de Jesus e Silva, Pe. Manuel Pereira da Silva e Pe. António Gomes S. Miguel (Amavil). No entanto, António de Jesus e Silva não era padre. O director do jornal, Pe. José Ferreira de Lacerda, encontrava-se, nessa data, em França, como capelão militar.
5 O comentário entre parêntesis está no mesmo corpo de letra da frase transcrita.
Aparato crítico e remissões (4)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 18, de 26 de Agosto de 1917, nota 1.
3 No texto, da.
6 Sic.
7 O sic entre parênteses está no mesmo corpo de letra da frase transcrita.
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