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DCF III-1, Doc. 11

14 ago. 1917Famalicão (Cortes, Leiria)cartaJoão Pereira Novo

22 ago. 1917, Leiria

Com uma introdução prudente, “O Mensageiro”, de Leiria, publica uma carta, sobre o dia 13 de Agosto de 1917, na Cova da Iria. (Data da redacção: 14 de Agosto de 1917).

Publ.: “O Mensageiro”, Leiria, 3 (151), 22 Ago. 1917, p. 2, cols. 1-2.

APARIÇÃO MILACULOSA?

São já bastantes conhecidos os factos, extraordinários (sobre qualquer aspecto que se encarem) que ha mezes se véem dando na freguezia da Fátima, concelho de Vila Nova de Ourem, a poucas legoas ao sul de Leiria e apenas a cêrca de quatro quilómetros do extremo sul do nosso concelho e da nossa diocese de Coimbra3.

Não devemos emitir o nosso juizo nem anteciparmo-nos á auctoridade competente. No entanto a titulo de informação e para satisfazer a legitima curiosidade nos leitores d’O Mensageiro que habitarem longe daqui, alguns dos quais nos teem pedido particularmente informações, aí vai uma carta cujo original nos veio ter á mão por obsequio dum amigo. Publicamol-a na integra apenas com uma pequena alteração na pontuação e ortografia de algumas palavras. Segue a carta que cada um interpretará como lhe parecer:

“Famalicão4, 14-8-917.

Amigo e Sr. Francisco da Silva Coelho: Amigo e sr. Coelho, em primeiro logar muito estimo que esta minha carta o vá encontrar gozando de perfeita saude em companhia da sra Gloria e de toda a mais familia, que eu e toda a minha familia ficamos de perfeita saude, graças a Deus para sempre.

Sr. Coelho, vou contar-lhe e pedir-lhe para dar esta carta a lêr á sra Gloria e ás manas dela, que tanto me pediram para lhe fazer a explicação como se passou no dia 13 na Fátima. Pois vou fazer-lhe uma explicação muito séria e verdadeira.

Vi lá um altar sôbre uma azinheira e muita gente a rezar; confôrme iam chegando assim iam rezando sem nunca cessarem de rezar. Eu nunca vi tanta gente junta nem tanto carro dos lados de Torres Novas e Ourem. Chegavam aos quinze e vinte carros juntos sem que pudessem passar uns pelos outros.

Á hora em que as creanças estavam para saír de casa dos paes acompanhadas de alguns padres que as tinham estado a interrogar, aparece lhes de repente um carro fechado5 á porta com o administrador dentro e um tal sr. que dizem ser carbonario6. Os dois pegam nas creanças, dizendo: meninas, andem, vamos lá, que já são horas, e as creanças dispensaram o favôr dizendo: nós vâmos a pé na companhia desta gente. E dizem os tais srs.: não, não, meninas; hoje é dia de festa, gosto que vão de carro.

Nisto pegam nas creanças, metem-nas no carro, dão meia volta aos cavalos e fogem com as creanças para Ourem. O povo corre ao local com a noticia, todo o povo chorava e seguiu logo um automovel atraz do carro para vêr se conseguia trazer as creanças mas não conseguiu.

Bem; o povo que lá tinha ido o mez passado animou-o de novo, dizendo: rezem, rezem e estejam com atenção que já não faltam cinco minutos para a hora do mez passado.

O povo fez silencio. O tempo era claro. Pois de repente se formou um relampago do céu sôbre o altar e fez de roda do altar um redemoinho que cobriu mais de trezentas pessôas de terra. Tudo fugia e caía e chorava. A terra arruou mas muito forte, as pedras mudaram de côr e então começa muita gente a gritar: olhem, olhem, olhem, a Nossa Senhora ali vem, vejam, com um fato branco! Os que a viram na terra fôram muitos, mas os que a viram no céu fôram muito mais; e mais de trez mil pessôas não viram mais porque quando a terra arruou e as pedras mudaram de côr, tudo que estava mais perto, uns caíram outros agastaram-se e eu tambem fiquei tão atrapalhado que, de tanto que queria vêr, vi pouco. Mas o que eu, e todos os que ficaram em soluços, ainda vimos muito bem foi arcos e grinaldas no céu ao lado sul, com flôres de todas as côres. Isto toda a gente viu.

E tambem as flôres que enfeitavam o altar faziam admirar toda a gente porque fazia calôr e elas cada vez mais lindas, e não estavam em vasos.

Se o povo tinha muita fé com muito mais ficou. Se o administrador prendeu as creanças nem por isso Nossa Senhora deixou de aparecer. Não falou, naturalmente por não ter quem lhe respondesse.

Depois de todo o povo vêr e tornar a ganhar siria diziam uns para os outros: vamos combinar com esta gente toda e vamos para Ourem fazer carne fresca. Visto que nos roubaram as nossas visinhas nós vamos lá buscal-as. Não sei mais nada, mas no dia 13 lá volto se Deus quizer.

A hora que apareceu foi á meia depois do meio dia.

Sr. Coelho: tambem lhe peço por favor que dê esta carta a lêr ao meu bom amigo Alexandre Marques para ele lêr deante da familia dele, e mesmo póde ser lida por toda a gente que isto que eu aqui digo é só a verdade e verdades destas pódem-se espalhar por toda a parte.

Muitos cumprimentos para com todos os meus amigos. Não lhes cito os nomes para não ser mais maçador. Sou de todos muito amigo, obrigado e respeitador

João Pereira Novo”8

Notas dos editores

3 Com a extinção da diocese de Leiria em 1882, o concelho de Leiria foi integrado na diocese de Coimbra.
4 Lugar da freguesia das Cortes, concelho de Leiria.
5 Outras notícias falam simplesmente de uma “charrette” aberta.
6 Cândido Alho, funcionário da administração.
8 Nasceu a 17 de Abril de 1875, nas Cortes, Leiria. Filho de Luís Pereira e Maria Joaquina. Casou com Joana Jacinta.
Aparato crítico e remissões (2)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. Doc. 5, de 25 de Julho de 1917.
2 Sic.
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