Vi lá um altar sôbre uma azinheira e muita gente a rezar; confôrme iam chegando assim iam rezando sem nunca cessarem de rezar. Eu nunca vi tanta gente junta nem tanto carro dos lados de Torres Novas e Ourem. Chegavam aos quinze e vinte carros juntos sem que pudessem passar uns pelos outros.
Á hora em que as creanças estavam para saír de casa dos paes acompanhadas de alguns padres que as tinham estado a interrogar, aparece lhes de repente um carro fechado5 á porta com o administrador dentro e um tal sr. que dizem ser carbonario6. Os dois pegam nas creanças, dizendo: meninas, andem, vamos lá, que já são horas, e as creanças dispensaram o favôr dizendo: nós vâmos a pé na companhia desta gente. E dizem os tais srs.: não, não, meninas; hoje é dia de festa, gosto que vão de carro.
Nisto pegam nas creanças, metem-nas no carro, dão meia volta aos cavalos e fogem com as creanças para Ourem. O povo corre ao local com a noticia, todo o povo chorava e seguiu logo um automovel atraz do carro para vêr se conseguia trazer as creanças mas não conseguiu.
Bem; o povo que lá tinha ido o mez passado animou-o de novo, dizendo: rezem, rezem e estejam com atenção que já não faltam cinco minutos para a hora do mez passado.
O povo fez silencio. O tempo era claro. Pois de repente se formou um relampago do céu sôbre o altar e fez de roda do altar um redemoinho que cobriu mais de trezentas pessôas de terra. Tudo fugia e caía e chorava. A terra arruou mas muito forte, as pedras mudaram de côr e então começa muita gente a gritar: olhem, olhem, olhem, a Nossa Senhora ali vem, vejam, com um fato branco! Os que a viram na terra fôram muitos, mas os que a viram no céu fôram muito mais; e mais de trez mil pessôas não viram mais porque quando a terra arruou e as pedras mudaram de côr, tudo que estava mais perto, uns caíram outros agastaram-se e eu tambem fiquei tão atrapalhado que, de tanto que queria vêr, vi pouco. Mas o que eu, e todos os que ficaram em soluços, ainda vimos muito bem foi arcos e grinaldas no céu ao lado sul, com flôres de todas as côres. Isto toda a gente viu.
E tambem as flôres que enfeitavam o altar faziam admirar toda a gente porque fazia calôr e elas cada vez mais lindas, e não estavam em vasos.
Se o povo tinha muita fé com muito mais ficou. Se o administrador prendeu as creanças nem por isso Nossa Senhora deixou de aparecer. Não falou, naturalmente por não ter quem lhe respondesse.
Depois de todo o povo vêr e tornar a ganhar siria diziam uns para os outros: vamos combinar com esta gente toda e vamos para Ourem fazer carne fresca. Visto que nos roubaram as nossas visinhas nós vamos lá buscal-as. Não sei mais nada, mas no dia 13 lá volto se Deus quizer.
A hora que apareceu foi á meia depois do meio dia.
Notas dos editores (2)
5 Outras notícias falam simplesmente de uma “charrette” aberta.
6 Cândido Alho, funcionário da administração.