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DCF III-2, Doc. 381

29 set. 1918Figueira da FozcartaGonçalo de Almeida Garrett

Carta de Gonçalo de Almeida Garrett ao Dr. Manuel Nunes Formigão, falando do fenómeno da manifestação de fumo, ocorrido na Cova da Iria, durante as aparições.

A – AForm, Doss. 3, fl. 5, doc. 6

Descrição do documento: Duas folhas duplas (8 páginas), de 16 linhas.

Figueira da Foz R. Bella
29..9..18

Illmo e Exmo Sr.

Julgo urgente uma resposta á presada carta de V. Exa.

Muita, muitissima penna tenho de não podermos ter uma amavel conferencia e placida discussão.

Nos tempos que vão correndo de incredulidade, é mais importante um phenomeno da ordem phisica, do que da ordem moral, e principalmente para os homens illustrados e scientificos e de saber.

Haja vista a inorme importancia que se liga e dá ao escorecimento do sol á morte de Christo. E tanto que o domingo de Paschoa é variavel e sempre o 1º domingo depois da lua cheia de março.

É mais importante um phenomeno phisico, importante mas inexplicavel, do que um milagre, como vulgarmente se diz, que poderá ser produzido ou ocasionado pela acção do systema nervoso.

Ha casos de paralyticos andarem, por um choque electrico, ou pela acção hypnotica d'outra pessoa. O mesmo n'um homem sego póde acontecer. Etc., Etc.

Estes assumptos teem dado logar a graves e immensas discussões sôbre a veracidade dos milagres.

Ha as mesas falantes, etc.

Sei que se teem dado milagres chamados estupendos, evidentes.

Consultei o Dr. Ferreira da Silva5 lente da Universidade do Porto. Diz elle que o phenomeno da impressão do fumo, poderá ser considerada em trez cathegorias:

1º Produzida por uma evaporação

2º Ocasionada por uma combustão incompleta.

3º Causada por uma reação chymica, como a reação de dois compostos gasosos, como o gaz chloridrico e o amoniaco, dando corpos solidos: o chloreto de amoniaco.

Os gases ou vapores produzidos em qualquer dos casos, elevam consigo elementos solidos diminutissimos, infinitesimaes que produzem a impressão de fumo, por serem opacos.

O phenomeno da manifestação do fumo tem de ser estudado durante duas epochas.

1º Durante o periodo da aparição de 13 de maio a 13 de outubro de 1917, em Fatima, pelo meio dia.

2º Antes e depois deste periodo no mesmo local, junto á azinheira abençoada.

1º caso

(a) Examinar e averiguar a manifestação do fumo nos dias 13 dos seis mezes de maio a outubro, pelo meio dia, junto á azinheira.

(b) Examinar e averiguar a manifestação do fumo nos outros dias de 14 de maio a 12 de outubro, e se teve ou não teve logar e a qualquer hora.

A hypothese (a) é a mais melindrosa a comprovar, sendo necessario obter testemunhas oculares para todos os 6 dias, designados para cada dia. Houve tambem em 13 de maio?

Examinar ou comprovar o que se deu em 13 de Agosto, em que não compareceram as creanças. A prova positiva de (a) é melindrosa e capital e directa com testemunhas oculares. A hypothese (b) é facil de verificar e comprovar, nomeando em Santarem ou outra terra uma commissão de 3 ou 5 membros de pessoas illustradas, serias e respeitaveis as quaes podem proceder a um inquerito entre os habitantes das redondezas de Fatima e da mesma terra.

2º Caso

(c) Examinar e averiguar qual a manifestação do fumo, antes de 13 de maio de 1917, as quaes não consta tivessem logar em Fatima a qualquer hora do dia, junto á azinheira.

(d) Egualmente averiguar e saber qual fosse a manifestação do fumo, depois de 13 de outubro, apesar de não constar que houvesse manifestação alguma.

As hypotheses (c) (d) de modo similhante são facilimas de verificar e comprovar, pela nomeação d'uma Commissão, 3 ou 5 vogaes de pessoas de Santarem ou outra terra, pessoas intelligentes[,] illustradas e respeitaveis. Procederiam a inqueritos rigorosos entre os habitantes das redondesas. Sistematisando os inqueritos (a), (b), (c), (d) pelo modo indicado é facil averiguar o que se tem dado em Fatima, sôbre a manifestação do fumo, nos 6 dias das apparições, nos mezes de maio a outubro. E tambem se póde chegar á conclusão rigorosa de que em nenhum outro dia se deu alguma manifestação do fumo conhecida no mesmo local e sobre tudo á mesma hora do dia. Se for provada por testemunhas oculares, fide-dignas que nos dias 13 dos mezes de maio a outubro, pela volta ou hora do meio dia, se deu a manifestação de fumo sempre; e se for comprovado pelas commissões nomeadas que não houve a manifestação nem vestigio de manifestação, no mesmo local, a qualquer hora, local de Fatima, junto a azinheira, fica demonstrado que as manifestações dadas e verificadas em Fátima são sobrenaturaes e miraculosas.

Comprovadas ficam as declarações das trez creanças de que a Virgem, com a designação do Rosario, appareceu por seis vezes junto a uma azinheira, no logar de Fatima.

Rogo a V. Exa o favor de me acusar esta carta, e quando não póssa ser por outro modo, por falta de tempo, espero a finesa de um bilhete postal que eu entendo.

Desejando a V. Exa a melhor saude para melhor trabalhar em favor das apparições da Virgem do Rosario em Fatima.

De V. Exa
attto ado agdo dedo

Gonçalo de Almeida Garrett

P.S. Peço desculpa da extensão desta carta.

[margem superior da fl. 4v]

Esteve aqui a Sra D. Maria de Jesus Raposo. Diz que esteve em Fátima no dia 13 agosto (em q. não estavam as creanças) de 1917. A manifestação do fumo foi muito maior, como uma especie de globo que envolveu a azinheira.

Notas dos editores

5 António Joaquim Ferreira da Silva (1853-1923). Natural de Cucujães (Oliveira de Azeméis) formou-se em Filosofia na Universidade de Coimbra. Lente de Química na Academia Politécnica do Porto. Foi director do laboratório de química até à aposentação. Autor de vastíssima bibliografia e considerado o “maior químico português do seu tempo” (cf. SANTOS, Cândido – Universidade do Porto. Raízes e memórias da instituição, Porto, Reitoria da Universidade, 1996, p. 141). Cf. DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, nota 140.
Aparato crítico e remissões (14)

As notas dos editores sobre correções, rasuras, variantes dos manuscritos e referências a outros documentos. As suas chamadas não aparecem no texto acima.

1 Cf. DCF, vol. 2, Doc. 9, de 13 de Abril de 1930, nota 137.
2 Cf. DCF, vol. 1, Doc. 7, 27 de Setembro de 1917, nota 2.
3 penna escrito sobre rasura.
4 Desde “sempre” até “março”, sublinhado no texto.
6 Acasionada corr. Ocasionada
7 chimica corr. chymica
8 esta [?] da corr. como a.
9 apparição corr. manifestação.
10 dois corr. duas
11 15 corr. 13
12 Acrescentou e.
13 se teve escrito sobre rasura.
14 (a) (b) corr. (c) (d).
15 Cf. DCF, vol. 3, 1, Doc. 105, de 17 de Outubro de 1917, nota 1.
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