O que viram em Fátima?

Todos os relatos de testemunhas, diretas e indiretas, das aparições de 1917 na Cova da Iria e do «milagre do sol», tal como os imprime a Documentação Crítica de Fátima.

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Os três videntes junto à igreja paroquial de Fátima, 13 de julho de 1917Os três videntes junto à igreja paroquial de Fátima, 13 de julho de 1917 · colorizada por IA; compare com o original →
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Relatos das testemunhas

Maria Romana

Visitantesenhora correspondente de A Ordem
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuirA multidão

Eu declaro, e juntamente comigo varias pessoas de distincção com quem fallei e cujos nomes illustres posso citar; que propositadamente observámos o sol por varias vezes, e por espaços determinados, para nos certificarmos bem da veracidade dos factos; mas nada vimos de anormal depois do phenomeno milagroso. Que o milagre se deu é certo e bem certo; affirmam-no milhares de pessoas, não só rudes e ingenuos camponezes, mas pessoas illustradissimas, que conhecem bem as leis da natureza e que n'um brado unisono de respeito cahiram de joelhos proclamando a grandiosidade do milagre sem a mais pequena duvida.

Se se tratasse de qualquer phenomeno cosmico, não estaria isso já previsto e annunciado pelos sabios que se entregam á sciencia dos astros? E comtudo não houve d'isto a menor noticia desde o mez da Virgem que foi quando principiaram a dar-se os factos extraordinarios em todos os dias treze de cada mez, até agora, no mez do Rosario, que foi quando terminaram estas milagrosas manifestações, préviamente annunciadas pela pequena Lucia.

Eu (modestia á parte) que não sou de todo estupida nem ignorante, que fui ali cheia de curiosidade, mas sem fé na apparição, com a alma perfeitamente alheiada á grandiosidade do mysterio, surda ás vozes da inspirada creança que nos mandava em nome de Nossa Senhora olhar para o sol, receando estragar ou perder por isso a vista, segundo é crença geral; resistio á suggestão; e só depois de todos em volta de mim, em exclamações extaticas me despertarem a curiosidade de olhar, arrostei contra o receio egoista de perder a vista, e então olhei; e, Bemdito seja Deus! vi! Vi o que milhares de pessoas estavam contemplando!

A chuva que cahira toda a noite e toda a manhã, miudinha, persistente e enfadonha, cobrindo por completo o céu d'um manto cinzento, cessou de repente á hora annunciada pelos pastorinhos; as nuvens começaram a esfarrapar-se e a abrirem-se (permittam-me a comparação) como se fôra o panno d'um theatro, para deixarem ver o sol dardejando e insidindo os seus raios luminosos sobre o sitio onde se achavam em extasi as propheticas creanças.

O sol apresentava então o aspecto d'um globo de prata fôsca, circundando-o um disco arroxeado, muito escuro, como quando os eclipses não são inteiramente totaes.

Viu-se então uma coisa maravilhosa! O sol girando apressadamente como se fôra uma roda de fogo d'artificio: este prodigio repetiu-se por tres vezes consecutivas.

Realisava-se o prodigio annunciado pelos pequenos, para que todos cressem na apparição de Nossa Senhora!

Depois as nuvens foram desapparecendo a pouco e pouco do firmamento, que ficou limpido, sereno e azul como não ha nenhum que se eguale ao d'esta nossa bella terra portugueza.

Olhei em volta; o aspecto e as côres da paisagem eram as mesmas que se observam durante a duração d'um eclypse; a mesma luz azulada, sui generis, d'esse azul electrico especialissimo e particular aos phenomenos d'esta natureza.

Para bem mostrar quanto eu evitei deixar-me suggestionar, direi ainda que as côres amarella, vermelha e rôxa que muitas pessoas diziam ter visto ao baixarem os olhos sobre a paisagem, ou sobre os lenços que a commoção das lagrimas nos obrigava a levar aos olhos, não era mais do que o resultado de estarmos fixando o sol a olho nu, o que sempre acontece em circumstancias identicas.

Sobre a grandiosidade do espectaculo, as bellezas da paisagem, a imponencia da multidão, sobre o enternecimento que causava a devoção de tanta alma crente, entoando em côro o Avé, o Crêmos Deus, o Tantum Ergo, as preces fervorosas á Virgem Nossa Senhora do Rosario.

DCF III-1, Doc. 184 · notícia de imprensa · out. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (4)Ligação

Senhora não identificada, assinante do Raio de Luz

Visitantesenhora católica, assinante do Raio de Luz
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cair

Ficara combinado juntar-nos em Torres Novas todos os que deviam seguir no camion que nos levaria a Fátima. Com que commoção escrevo e pronuncio o nome d’esta terra abençoada!

Ás 9 horas menos 10 minutos partiamos debaixo de uma chuva continua que nos acompanhou até lá e que, a meu ver, era o primeiro beneficio que a Virgem Santissima nos alcançava, depois de 5 mezes de estiagem. Chegando a Villa Nova d’Ourem, começámos a subir para Fátima, não podes calcular a quantidade de vehiculos de toda a especie e de gente a pé por quem iamos passando e tanto primeiro do que nós tinham partido de suas casas. Apezar da chuva insistente, ninguem se via desanimado, todos olhavam prazenteiros, felizes, como que dizendo: “Cá vamos tambem animados da mesma fé.” Sentimo-nos todos como fazendo parte da mesma familia, e na verdade assim era.

Parámos na egreja, aonde fômos adorar o Santissimo Sacramento e renovar a Nossa Senhora a prece de que não permittisse que o Seu povo ficasse dasapontado. Eu por certo não descria do poder de Deus, descria de que nos fôsse dado vêl-o manifestar-se em nosso favor depois de tão ultrajado, tão desconhecido!...

Era meio dia, comemos alguma coisa dos nossos farneis, mais por reflexão do que por necessidade. Á 1 hora partimos para o local... e não podes fazer ideia da extensão de terreno occupada por uma multidão compacta, no maior socego e respeito; da quantidade de automoveis, carruagens, galeras e transportes de toda a especie que enchia a estrada n’uma extensão de quasi um kilometro, mal deixando passar a custo quem se aventurasse a atravessal-a a pé. Estivemos dentro do camion nem era possivel outra coisa.

Aproximava-se a hora e eu tinha a certeza que o tempo ia levantar. Effectivamente um bocadinho antes das 2 horas parou a chuva, conservando-se porem o céo de chumbo. De repente, toda aquella gente possuida de indiscriptivel anciedade e parte d’ella talvez desanimada começou a notar uma ligeira nevoa no sitio da carrasqueira e passando-se alguns minutos vimos todos a voltarem se para o lado do sol. Ouvi depois que Nossa Senhora tinha dito n’esse instante a Lucia (uma das creanças): “Manda o Povo olhar para o sol.”

De repente um disco luminoso do tamanho d’uma hostia grande, mas que todos podiam fitar como se fita a lua, como que se destacou do sol, (ou antes se lhe antepoz) baixando visivelmente n’uma rotação seguida que depois d’uma paragem se repetiu. Uma nuvem linda ora côr de fogo, ora roxa, ora côr de rosa, ora dourada se mostrava e desaparecia sucessivamente reflectindo-se a côr não só em todos os circumstantes como em todo aquelle recinto. A côr amarella sobretudo foi muito impressionante e já das outras vezes se tinha feito notar mas menos intensa. O horizonte, era limitado em circulo perfeito por focos luminosos eguaes em tamanho e distancia uns dos outros dando um pouco a impressão de quémadas mas no tom amarellado que por vezes se nota ao pôr do sol. Todo este effeito foi duradouro e os fócos a que alludo foram surgindo uns apoz outros. Simplesmente maravilhoso e assombroso!

.....
Levei uma lista das pessoas por quem queria pedir especialmente. Parecia que advinhára que lá só poderia gritar: “Louvado seja Deus, louvado seja Deus”; e isto sem cessar!

Muitos viram (e pessoas de todo o credito) uma estrella linda a caminhar na direcção da carvalheira com clarão.

Estive com as duas pequenitas que iam vestidinhas de branco com umas corôasinhas muito singelas nas cabecinhas. Disséram-me que Nossa Senhora lhes apareceu com S. José e o Menino ao pé, disse que era a Senhora do Rosario, que o rezassem muito, que isto era um aviso mas que se se não arrependessem e continuassem a offender o seu Divino Filho, Este mandaria um grande castigo a Portugal.

As duas pequenas em separado, fizeram a descripção da visão da mesma fórma e a Lucia, que, dado a sua pouca edade deveria estar doida no meio d'aquelle alvoroço de que se via rodeada, ia dizendo a todos em voz clara e sem se alterar, á medida que ia passando (ao collo do pae) — o que Nossa Senhora lhe disséra

DCF III-1, Doc. 250 · notícia de imprensa · out. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (3)Ligação

Maria Magdalena Trigueiros de Martel Patrício

Jornalistapoetisa e escritora, mulher de um juiz em Pinhel
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarCores nas pessoas e na paisagemLuz a diminuir

Despovoaram-se os logares, as aldeias, as cidades proximas.

Pelas estradas, já nas vesperas, seguiam grupos de romeiros a caminho de Fátima.

Pescadores da Vieira4 deixaram as casa de madeira negra assentes sobre o mar, as lides da arrumação da pescaria. Pelos pinhaes, onde as camarinhas parecem gotas de orvalho na verdura, pelos areaes onde giram as vellas dos moinhos, vieram a pé, os coturnos de lã nas pernas musculosas, saias de agazálho sobre as costas, á cabeça o sáco com o farnel, no passo meúdo e meneado, que lhes fazia voltear a rodaria das saias, e agitar os lenços alaranjados onde assentavam os chapeus pretos. Operarios da Marinha5, lavradores de Monte Real6, das Córtes7, dos Marrazes8, serranas de longe — das serras do Soubio9, de Minde10, do Louriçal11, gentes de toda a parte onde chegasse a voz do milagre, deixavam as casas e os campos, e vinham por ahi fóra a cavalo, de carro ou a pé, cruzando as estradas, atravessando montes e pinhaes, de longada pelos caminhos, que durante dois dias se animaram do rodar dos carros, do chouto dos jumentos, do vozear dos grupos dos romeiros.

O outomno avermelhava as vinhas vindimadas. O vento do nordeste, frio e cortante, anunciando o inverno, fazia tremer os choupos transparentes das bordas dos rios, que desmaiavam saúdosos do sol, em tons amarellos de rendas antigas.

Nos areaes giravam as vellas brancas dos moinhos. Nos pinhaes curvavam-se ao vento os cimos verdes dos pinheiros.

As nuvens iam cobrindo o ceu. Amontoava-se o nevoeiro em flócos leves e macios.

O mar, na vastidão da praia da Vieira, espumava, bramia, enrolava-se em ondas altas, e pelos campos ia-se ouvindo, n'um clamor sinistro, a sua voz!

Toda a noite, toda a madrugada choveu, uma chuva miudinha, persistente, que encharcava os campos, que entristecia a terra, que ia trespassando até aos ossos, de uma humidade fria, as mulheres, as creanças, os homens e os animaes, que cruzavam as estradas lamacentas, no caminhar apressado para a Serra do Milagre.

A chuva cahia, cahia, macia e teimosa.

As saias grossas d'estamenha e riscadilho pingavam, pezavam como chumbo, nas fitas das cinturas. Os barretes e os chapeus largos escorriam agua sobre as jaquetas novas dos fatos de vêr a Deus. Os pés descalços das mulheres, as botas ferradas dos homens, chapinhavam nas poças largas do lodaçal das estradas.

Mas a chuva parecia que não molhava, parecia que não sentiam a chuva!

Caminhavam sempre, subindo a serra, illuminados de fé, na ancia do milagre que Nossa Senhora promettera, no dia 13, pela uma hora, a hora do Sol, ás almas simples e puras de trez creanças que apascentavam gados!

Iam ficando para traz, perdidos na nevoa, esfumados na transparencia da chuva, pinheiros, choupos, carvalheiras, manchas vermelhas de vinhas, casaes, campos lavrados de terra escura... Os campos eram desertos. As casas eram fechadas!

Havia um silencio estranho nos campos desertos, de gentes e de gados, havia um ar de espera e de emoção na attitude das cousas, das casas pobres como adormecidas no silencio, janellas e portas fechadas á luz!

A serra era alta, mas parecia aos caminheiros que os não cançava a subida da serra!

A serra era triste, cada vez mais triste, de pedras escalvadas e negras sem a alegria da verdura de uma arvore, mas os caminheiros não sentiam a tortura impressionante e tragica da paysagem de dôr!

A chuva começou a rarear. Era agora só um veu de nevoa muito leve que se ia desfazendo a pouco e pouco, e pouco a pouco a serra ia aclarando.

Approximava-se um murmurio que vinha descendo do monte. Murmurio que parecia a voz longinqua do mar, que se tinha calado no silencio dos campos...

Eram canticos que se definiam, entoados por milhares de boccas.

No planalto da serra, cobrindo o monte, enchendo um valle, via-se uma mancha enorme e movediça de milhares e milhares de creaturas de Deus, milhares e milhares d'almas em prece!

Mãos erguidas, olhos em extase, vinham na fé ardente da crença. Vinham pedir o milagre a Nossa Senhora, pedir a redempção dos peccados, pedir a benção para as amarguras da vida!

Á uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva.

O céu tinha um tom acinzentado de perola e uma claridade extranha illuminava a vastidão biblica e tragica da paysagem triste, cada vez mais triste...

O sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudéssem olhar. O tom cinzento da madreperola transformava-se como n'uma chapa de prata luzidia, que se ia rompendo até que as nuvens se rasgaram e o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar, a girar em volta do circulo das nuvens afastadas!

Foi um grito só em todas as boccas; cahiram de joelhos na terra encharcada, os milhares e milhares de creaturas de Deus que a fé levantava até ao céu!

A luz azulava-se n'um azul exquisito, como se viesse, atravez dos vitraes de uma cathedral immensa, espalhar-se n'aquella nave gigantesca ogivada pelas mãos que se ergueram no ar...

O azul extinguiu-se lentamente para a luz parecer coada por vitraes amarellos.

Manchas amarellas cahiam agora sobre as caras, sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a serra.

Tudo chorava, tudo rezava, de chapeu na mão, na impressão grandiosa e unica do milagre esperado!

Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vivídos foram!

Passaram nuvens sobre a claridade vaga e cinzenta que velava o sol!

As almas em prece, que tiveram por instantes a vida suspensa, á vida voltaram.

Esfarraparam-se as nuvens, appareceram bocados azues do céu. O sol, na serenidade impassivel de todo o sempre, illuminou vagamente a serra escalvada, onde Nossa Senhora fez juntar, pela bocca de trez creanças que apascentavam gados, milhares e milhares de creaturas de Deus!

Notas dos editores (9)

3 Este artigo viria a ser publicado em PATRICIO, Maria Magdalena Martel - Impressões de arte e de tristeza, Porto, Officinas da Empreza Lit e Typographia, 1918, p. 63-68

4 Vieira de Leiria, lugar e freguesia do concelho de Marinha Grande, distrito de Leiria.

5 Marinha Grande, concelho do distrito de Leiria.

6 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

7 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

8 Lugar e freguesia do concelho e distrito de Leiria.

9 Não identificámos esta localidade.

10 Localidade do concelho de Alcanena, distrito de Santarém.

11 Freguesia do concelho de Pombal, distrito de Coimbra.

DCF III-1, Doc. 127 · notícia de imprensa · 13 out. 1917 · também publicado em DCF III-1, Doc. 346Digitalizações (4)Ligação

Maria Bettina Basto

Visitantejovem de Lisboa, de 19 anos
13 out.Testemunho diretoViuNotaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagemSol a girar

Passamos o dia em preparativos para a viagem. Deviamos partir às 11 h da noite fazendo a viagem de noite para lá chegar de manhã.

Para a noite o tempo começa a toldar-se e pouco depois a trovoada desencadeia-se mas que trovoada era mais de meia noite e não se ouvem senão trovões e as faiscas são continuadas que fazer não partir é uma desolação. O Carlos persigna-se e diz que assim não vai espera-se pedindo a N. Senhora que afaste a trovoada. Ás 2h o tempo está melhor decidem-se a partir, a noite está escurissima prendem a mula à carroça; dentro poem umas cadeiras baixas para nós, e com uns cobertores lá nos instalamos. No banco da frente vai a mulher do Carlos e a afilhada17 a trás vamos nós18 a Regina19 e a Emilia20. O Carlos leva a mula pela arreata e assim começamos a viagem.

De quando em quando, os clarões iluminam o caminho, a trovoada está mais longe mas continua.

Assim andamos mais de uma hora os caminhos são medonhos a carroça vai sempre aos tombos tem a vantagem de não nos deixar dormir a Emilia faz-nos rir constantemente.

Já começamos a subir a serra de Aire o pior é que a chuva volta e nós temos pouca defesa, pois a agua que cai dos chapeus de chuva encharca a carroça e molha os cobertores.

O Carlos uns bocados sobe para o banco e lá continua a guiar o bicho o que vale é que conhece muito bem os caminhos.

Começa a clarear a chuva, agora é miudinha quasi um nevoeiro molhado como já está alguma luz vemos arvores rachadas pelas faiscas da trovoada aqui na serra, devia ter sido medonha. Bem dizia o Carlos que não vinha; ele já as conhece.

Muito temos andado por esta serra que parece não ter fim. Agora dizem que estamos perto de Fatima chove a valer já estamos encharcadas. Para não arrefecer muito e nas subidas para ajudar a mula vamos todos a pé, menos a Emilia que não pode andar muito.

Finalmente chegamos a Fatima são 9h o tempo está um pouco melhor, mas o ceu está todo coberto e ameaça mais chuva vem chegando muita gente, por vários caminhos da serra como nós veem molhados a maior parte mas todos vão, nem eu sei para quê, pois não está nada marcado e é só porque dizem que a Senhora falará hoje à Lucia.

A carroça fica em Fatima comemos alguma coisa, e agora vamos a pé para a Cova da Iria que é o lugar onde dizem tem havido as aparições.

Andamos quasi uma hora quando chegamos ao campo uma extensão bastante mais baixa que a estrada e onde há apenas algumas azinheiras, está bastante gente que espera, vamos a ver o quê!

É perto de meio dia dizem que os pastorinhos vão chegar gostava de os ver. O local onde se deram já as aparições está marcado com uns paus para deixar espaço para os pequenos estarem mais livres do povo mas já não podemos aproximar-nos muito, pois está muita gente. A terra está tão encharcada que os pés enterram-se já estamos de tal maneira enlameadas. Resolvemos ficar num ponto um pouco mais alto embora mais longe. Há movimento na multidão são os pastorinhos que chegam uns homens abrem-lhe caminho mal os vejo vão para o sitio dos paus chove a valer.

Começa a dizer-se que a Lucia diz para fecharem os chapeus, que a Senhora vem mas chove tanto embora todos obedecem e fechamos os chapeus. Com efeito pouco depois a chuva pára, mas não vemos mais nada. Os nossos olhos procuram por toda a parte. Agora uma pequena nuvem parece que pousa sobre uma azinheira ao pé dos paus, o sol aparece entre nuvens, mas sem brilho nenhum, parece a lua e dir-se-ia que tem uma cruz no meio e agora, ó maravilha a atmosfera tinge-se das cores do arco-iris vejo o chapeu de feltro branco da Rita24 cor de laranja depois verde, depois azulado depois rosa25 e por ultimo doirado; está tudo doirado que coisa linda!

Todos se sentem fascinados um homem perto de nós cai no chão sem sentidos de repente, o sol negro completamente parece que se despega do ceu e começa a rodar sobre si mesmo muito depressa parece que vai cair ouve-se um grito de toda a multidão que cai de joelhos pedindo misericordia.

Encontro-me tambem de joelhos em cima26 dum monte de pedras sem dar por isso. Mas tudo passa num momento o sol volta a estar encoberto pelas nuvens, a nuvem parece que levanta estão todos sem saber o que se passou como que atordoados dizem que a Lucia falou com a Senhora. Não conseguimos tornar a ver os pastorinhos. Encaminhamo-nos para Fatima, onde nos metemos na carroça e voltamos para Rodrigo o tempo está bom apenas se veem algumas nuvens soltas no ceu e o sol tem o brilho natural.

Notas dos editores (7)

17 Clotilde da Assunção Ferreira que veio a casar com Manuel Pinto, do Carvalhal da Aroeira. Falecida a 4 de Março de 1986.

18 Trata-se da Autora e da sua irmã Rita (cf. nota 24).

19 Regina Ferreira ficou órfã, ainda pequena, passando a viver em casa de sua prima Isabel da Nóbrega Machado. Faleceu em 1953.

20 Governanta da casa do conselheiro Augusto Jacques de Magalhães Machado, casado com Isabel da Nóbrega Machado, vizinhos e amigos da família Basto (cf. notas 3 e 15).

24 Rita, irmã de Maria Bettina. Nasceu a 1 de Março de 1896. Casou com o escultor Salvador Barata Feyo (1899-1990). Rita faleceu a 8 de Agosto de 1969, no Porto.

25 Maria Bettina diz-nos: "a silhueta que desenhei foi a que imaginámos ser o vulto da Senhora que aparecia aos pastorinhos".

26 Maria Bettina diz-nos: "O esboço da igreja de Valhelhas foi feito no dia 12, quando visitámos essa igreja situada próximo de Rodrigos" (cf. nota 14).

Avelino de Almeida

Jornalistaenviado especial de O Século
13 out.Testemunho diretoViuNotícia de imprensaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarMovimento em ziguezagueSol a cair

Ao saltar, após demorada viagem, pelas dezesseis horas de hontem, na estação de Chão de Maçãs5, onde se apearam tambem pessoas religiosas vindas de longes terras para assistir ao “milagre”, perguntei, de chofre, a um rapazote do “char-á-bancs” da carreira se já tinha visto a Senhora. Com seu sorriso sardonico e o olhar enviezado, não hesitou em responder-me:

— Eu cá só lá vi pedras, carros, automoveis, cavalgaduras e gente!

Por um facil equivoco, o trem que nos devia conduzir, a Judah Ruah e a mim, até á vila, não apareceu e decidimo-nos a calcorriar corajosamente cêrca de duas leguas7 por não haver logar para nós na diligencia e estarem, desde muito, afreguezadas as carriotas que aguardavam passageiros. Pelo caminho, topámos os primeiros ranchos que seguiam em direção [sic] ao local santo, distante mais de vinte kilometros bem medidos8. Homens e mulheres vão quasi todos descalços — elas com saquiteis á cabeça, sobrepujados pelas sapatorras; eles abordoando-se a grossos vara-paus e cautelosamente munidos tambem de guarda-chuva. Dir-se-hiam, em geral, alheados do que se passa á sua volta, n'um desinteresse grande da paizagem e dos outros viandantes, como que imersos em sonho, rezando n'uma triste melopeia o terço. Uma mulher rompe com a primeira parte da ave--maria, a saudação; os companheiros, em côro, continuam com a segunda parte, a suplica. N'um passo certo e cadenciado, pisam a estrada poeirenta, entre pinhaes e olivedos, para chegarem antes que se cerre a noite ao sitio da aparição, onde, sob o relento e a luz fria das estrelas, projetam dormir, guardando os primeiros lugares junto da azinheira bemdita — para no dia de hoje verem melhor.

Á entrada da vila, mulheres do povo a quem o meio já infétou com o virus do céticismo, comentam, em tom de troça, o caso do dia: — Então vaes vêr ámanhã a santa?

— Eu, não. Se ela ainda cá viesse!

E riem-se com gosto, emquanto os devotos proseguem indiferentes a tudo o que não seja o objetivo da sua romagem. Em Ourem só por uma amabilidade extrema se encontra aposentadoria9. Durante a noite, reunem-se na praça da vila os mais variados veículos conduzindo crentes e curiosos sem que faltem velhas damas vestidas de escuro, vergadas já ao peso dos anos, mas faiscando-lhes nos olhos o lume ardente da fé que as animou ao ato [sic] corajoso de abandonar por um dia o inseparavel cantinho da sua casa. Ao romper d'alva, novos ranchos surgem intrepidos e atravessam, sem pararem um instante, o povoado, cujo silencio quebram com a harmonia dos canticos que vozes femininas, muito afinadas, entoam n'um violento contraste com a rudeza dos tipos...

O sol nasce, mas o cariz do céu ameaça tormenta. As nuvens negras acastelam-se precisamente sobre as bandas de Fátima. Nada, todavia, detem os que por todos os caminhos e servindo-se de todos os meios de locomoção para lá confluem. Os automoveis luxuosos deslisam vertiginosamente, tocando as buzinas; os carros de bois arrastam-se com vagar a um lado da estrada; as galeras, as vitorias, os caleches fechados, as carroças nas quaes se improvisaram assentos vão ajoujados a mais não poderem. Quasi todos levam com os farneis, mais ou menos modestos, para as bocas cristãs a ração de folhelho para os irracionaes que o "poverelo" de Assis chamava nossos irmãos e que cumprem, valorosamente a sua tarefa... Tilinta uma ou outra guiseira, vê-se uma carrocinha adornada de buxo; no emtanto, o ar festivo é discreto, as maneiras são compostas e a ordem absoluta... Burrinhos choutam á margem da estrada e os ciclistas, numerosissimos, fazem prodigios para não esbarrar de encontro aos carros.

Pelas dez horas, o ceu tolda-se totalmente e não tardou que entrasse a chover a bom chover. As cordas de agua, batidas por um vento agreste, fustigam os rostos, encharcando o macadame e repassando até os ossos os caminhantes desprovidos de chapeus e de quaesquer outros resguardos. Mas ninguem se impacienta ou desiste de proseguir e, se alguns se abrigam sob a copa das arvores, junto dos muros das quintas ou nas distanciadas casas que se debruçam ao longo do caminho, outros continuam a marcha com uma impressionante resistencia, notando-se algumas senhoras cujos vestidos colados aos corpos, por efeito do impeto e da pertinácia da chuva, lhes desenham as fórmas como se tivessem saído do banho!

* * *

O ponto da charneca de Fátima, onde se disse que a Virgem aparecera aos pastorinhos do logarejo de Aljustrel, é dominado n'uma enorme extensão pela estrada que corre para Leiria, e ao longo da qual se postaram os veículos que lá conduziram os peregrinos e os mirones. Mais de cem automoveis alguem contou e mais de cem bicicletas, e seria impossível contar os diversos carros que atravancaram a estrada, um d'eles o auto-omnibus de Torres Novas, dentro do qual se irmanavam pessoas de todas as condições sociaes.

Mas o grosso dos romeiros, milhares de creaturas que foram de muitas leguas ao redor e a que se juntaram fieis idos de varias províncias, alemtejanos e algarvios, minhotos e beirões, congregam-se em torno da pequenina azinheira que, no dizer dos pastorinhos, a visão escolhera para seu pedestal e que podia considerar-se como que o centro de um amplo circulo em cujo rebordo outros espectadores e outros devotos se acomodam. Visto da estrada, o conjunto é simplesmente fantastico. Os prudentes camponios, abarracados sob os chapeus enormes, acompanham, muitos d'eles, o desbaste dos parcos farneis com o conduto espiritual dos hinos sacros e das dezenas do rosario. Não ha quem tema enterrar os pés na argila empapada, para ter a dita de ver de perto a azinheira sobre a qual ergueram um tosco portico em que bamboleiam duas lanternas... Alteram-se os grupos que cantam os louvores da Virgem, e uma lebre, espavorida, que galga matagal em fóra, apenas desvia as atenções de meia duzia de zagaletes que a alcançam e prostram á cacetada...

E os pastorinhos? Lucia, de 10 anos, a vidente, e os seus pequenos companheiros, Francisco, de 9, e Jacinta, de 7, ainda não chegaram. A sua presença assinala-se talvez meia hora antes da indicada como sendo a da aparição. Conduzem as rapariguinhas, coroadas de capelas de flôres, ao sitio em que se levanta o portico. A chuva cae incessantemente mas ninguem desespera. Carros com retardatarios chegam á estrada. Grupos de fieis ajoelham na lama e a Lucia pede-lhes, ordena que fechem os chapeus. Transmite-se a ordem, que é obedecida de pronto, sem a minima relutancia. Ha gente, muita gente, como que em extase; gente comovida, em cujos labios secos a prece paralisou; gente pasmada, com as mãos postas e os olhos borbulhantes; gente que parece sentir, tocar o sobrenatural... A criança afirma que a Senhora lhe falou mais uma vez, e o céu, ainda caliginoso, começa, de subito, a clarear no alto; a chuva pára e presente-se que o sol vae inundar de luz a paizagem que a manhã invernosa tornou ainda mais triste...

A hora antiga é a que regula para esta multidão, que calculos desapaixonados de pessoas cultas e de todo o ponto alheias ás influencias misticas computam em trinta ou quarenta mil creaturas... A manifestação miraculosa, o sinal visivel anunciado está prestes a produzir-se — asseguram muitos romeiros... E assiste-se então a um espetaculo unico e inacreditavel para quem não foi testemunha d'ele. Do cimo da estrada, onde se aglomeram os carros e se conservam muitas centenas de pessoas, a quem escasseou valor para se meter á terra barrenta, vê-se toda a imensa multidão voltar-se para o sol, que se mostra liberto de nuvens, no zenit. O astro lembra uma placa de prata fosca e é possivel fitar-lhe o disco sem o minimo esforço. Não queima, não cega. Dir-se-hia estar-se realisando um eclipse. Mas eis que um alarido colossal se levanta, e aos espectadores que se encontram mais perto se ouve gritar:

— Milagre, milagre! Maravilha, maravilha!

Aos olhos deslumbrados d'aquele povo, cuja atitude nos transporta aos tempos biblicos e que, palido de assombro, com a cabeça descoberta, encara o azul, o sol tremeu, o sol teve nunca vistos movimentos bruscos fóra de todas as leis cosmicas — o sol “bailou”, segundo a tipica expressão dos camponezes.. Empoleirado no estribo do auto-omnibus de Torres Novas, um ancião cuja estatura e cuja fisionomia, ao mesmo tempo doce e energica, lembram as de Paul Déroulède10, recita, voltado para o sol, em voz clamorosa, de principio a fim, o Credo. Pergunte quem é e dizem-me ser o sr.

João Maria Amado de Melo Ramalho da Cunha Vasconcelos12. Vejo-o depois dirigir-se aos que o rodeiam, e que se conservaram de chapeu na cabeça, suplicando-lhes, veementemente, que se descubram em face de tão extraordinária demonstração da existência de Deus. Cenas identicas repetem-se n'outros pontos e uma senhora clama, banhada em aflitivo pranto e quasi n'uma sufocação:

— Que lastima! Ainda ha homens que se não descobrem deante de tão estupendo milagre!13

E, a seguir, perguntam uns aos outros se viram e o que viram. O maior numero confessa que viu a tremura, o bailado do sol; outros, porém, declaram ter visto o rosto risonho da propria Virgem, juram que o sol girou sobre si mesmo como uma roda de fogo de artificio, que ele baixou quasi a ponto de queimar a terra com os seus raios... Ha quem diga que o viu mudar sucessivamente de côr...

* * *

São perto de quinze horas.

O ceu está varrido de nuvens e o sol segue o seu curso com o esplendor habitual que ninguem se atreve a encarar de frente. E os pastorinhos? Lucia, a que fala com a Virgem, anuncia, com ademanes teatraes, ao colo de um homem14, que a transporta de grupo em grupo, que a guerra terminára15 e que os nossos soldados iam regressar... Semelhante nova, todavia, não aumenta o jubilo de quem a escuta. O sinal celeste foi tudo. Ha uma intensa curiosidade em vêr as duas rapariguinhas com suas grinaldas de rosas, ha quem procure oscular as mãos das "santinhas", uma das quaes, a Jacinta, está mais para desmaiar do que para danças, mas aquilo por que todos anciavam — o sinal do ceu — bastou a satisfazel-os, a radical-os na sua fé de carvoeiro. Vendedores ambulantes oferecem os retratos das crianças em bilhetes postaes e outros bilhetes que representam um soldado do Corpo Expedicionario Portuguez "pensando no auxilio da sua protetora para salvação da Patria" e até uma imagem da Virgem como sendo a figura da visão... Bom negocio foi esse e decerto mais centavos entraram na algibeira dos vendedores e no tronco das esmolas para os pastorinhos do que nas mãos estendidas e abertas dos leprosos e dos cegos que, acotevelando-se com os romeiros, atiravam aos ares seus gritos lancinantes...

O dispersar faz-se rapidamente, sem dificuldades, sem sombra de desordem, sem que fosse mister que o regulasse qualquer patrulha da guarda. Os peregrinos que mais depressa se retiram, correndo estrada fóra, são os que primeiro chegaram, a pé e descalços com os sapatos á cabeça ou dependurados nos varapaus. Vão, com a alma em lausperene, levar a boa nova aos logarejos que não se despovoaram de todo. E os padres? Alguns compareceram no local, sorridentes, enfileirando mais com os espectadores curiosos do que com os romeiros avidos de favores celestiaes. Talvez um ou outro não lograsse dissimular a satisfação que no semblante dos triunfadores tantas vezes se traduz... Resta que os competentes digam de sua justiça sobre o macabro bailado do sol que hoje, em Fátima, fez explodir hossanas dos peitos dos fieis e deixou naturalmente impressionados — ao que me asseguraram sujeitos fidedignos os livres pensadores e outras pessoas sem preocupações de natureza religiosa que acorreram á já agora celebrada charneca.

Notas dos editores (10)

4 Vila Nova de Ourém.

5 Também conhecida por Estação de Fátima.

7 De Chão de Maçãs a Vila Nova de Ourém são 10 kilómetros.

8 De Vila Nova de Ourém a Fátima são 13 kilómetros.

9 D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado, de Vila Nova de Ourém, filha de António José Pereira, nessa altura correspondente de "O Século" em Vila Nova de Ourém, diz que foi a Fátima na carruagem de seu pai, com Avelino de Almeida e seu companheiro (Ruah). Ao ter conhecimento dos factos de Fátima, seu pai pôs-se em contacto com o jornal "O Século", que enviou Avelino de Almeida e Ruah. Estes passaram por Ourém, procuraram o Administrador que não estava e partiram para Fátima em carruagem alugada.

10 Escritor e político francês, nasceu em Paris a 2 de Setembro de 1846. Em 1882 fundou e foi o presidente da “Liga dos Patriotas”. Foi o autor de Chant du Soldat (1872) e de Nouveaux Chants du Soldat (1875). Faleceu, em Nice, a 30 de Janeiro de 1914.

12 Segundo informação de Maria Elisa Cunha Serra, João Vasconcelos foi a Fátima na mesma carruagem que Maria Raposo, ela própria e outras pessoas. Cf. Doc. 117, de 18 de Outubro de 1917, nota 4.

13 D. Maria Isabel de Barros e Sá Pereira Machado diz que no momento do milagre estava junto à carruagem da família do Marquês da Foz. Ouviu ao Marquês uma frase muito semelhante a esta: "Ainda há gente que não se descobre perante tão grande milagre".

14 Trata-se do Dr. Carlos de Azevedo Mendes (cf. DCF, vol. 1, Doc. 56, de p.13 de Outubro de 1917, nota 10).

15 O acento agudo desta palavra está na penúltima sílaba: terminára (pretérito-mais-que-perfeito) e não na última sílaba: terminará (futuro).

DCF III-1, Doc. 87 · notícia de imprensa · 13 out. 1917Digitalizações (7)Ligação

Fernando António Souza Coutinho

AristocrataEstudantealuno do Colégio Militar, filho do Marquês do Funchal (mais tarde Conde do Funchal)
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corCores nas pessoas e na paisagemSol a cair

Durante toda a noite passou gente para Fátima. Ás 4 da manhã pessôas vindas num automovel bateram á porta aproveitando eu a ocasião para sair da casa sem saudades andando 12 K. de baixo de chuva constante e vento que cortava a cara se não fosse agua ardente que levava nem sei se chegaria ao sitio do milagre.

Ás 9, hora a que eu cheguei já se encontrava gente que tinha passado a noite á chuva. Até ás 2 horas hora a que devia haver o milagre não parou a chuva grauda tendo toda a gente sem arredar pé do sitio ficado molhada até aos ossos. Eu com capote e almofada na cabeça e manta por cima de tudo corria-me a agua pelos braços a baixo. Até ás 2 não parou a afluencia de gente e de vieculos de todas as especies e todas as provincias. Automoveis de Espanha e França; mulheres vindas a pé do Algarve e Alemtejo Varinas de Lisbôa que gastariam 18 000 na viagem emfim coisa (2) que eu nem tu vimos em dias da nossa vida. A charneca da aparição é no genero dos cassais do meu pae uma planicie circundada de montes e por esses montes e vale as pessôas acotevelavam-se como num comicio na Rotunda13.

Eu e toda a gente (apesar dos jornais anti-catholicos darem para baixo no numero de pessôas calculamos mais de cento e tantas mil pessoas de todas as regioes do pais etc.

Apesar da chuva incessante ouvia-se por todos os lados córos de raparigas afinadas a cantarem cantos sagrados.

Até ás 2 horas hora a que vieram as raparigas a quem aparecia Nossa Senhora não cessou afluencia de gente de todas os sitios do paiz com 12 leguas de vinda e 12 de ida a pé.

As pequenas ajoelharam-se no meio da turba onde havia um altar tosco e do qual eu estava distante apenas 100 metros tendo por isso muita sorte. O circulo de gente em volta das pequenas tinha um Kilometro de comprido por outro de largo dentro do qual se achava uma denssa maça de gente. A chuva continuava sempre sempre as mulheres até tremiam o queixo de molhadas que estavam nisto as pequenas mandaram fechar os chapéus de chuva e a chuva parou imediatamente.

Em o ceu que estava completamente toldado de nuvens abriu-se um circulo onde se via o sol como se fosse a lua num dia de luar e apresentava em volta uma aureola de prata.

O circulo tomou então as cores sucessivamente azul encarnado amarelo e verde ao mesmo tempo todos os objectos tomavam essa côr. Isto durou 1 minuto findo o qual toldou-se de novo o ceu. Em seguida a ocasião em que Nossa Senhora falou com as pequenas e para o que desceu do ceu formou-se uma nuvem escura em volta do sol que toda a gente podia fitar sem lhe doer a vista tomando varias cores e parecendo descer sobre nós. Depois quando Nossa Senhora subiu ao ceu a nuvem agora que parcia fogo subiu de novo com o sol e a nuvem começou a girar em volta do sol em quanto este sobre o fundo azul do ceu sempre com a aureola de prata começou a tremer imenso.

Só visto este milagre deslumbrante é que se pode fazer ideia e eu dou-te a minha palavra d'honra que me convenci de que era milagre e tenho por testemunhas as 100 000 pessôas que assistiram. Digo-te tambem que logo que acabou o milagre que ao todo teve a duração de 15m. o sol brilhava de tal forma e como costuma todos os dias que ninguem como sabes é capás apenas durante 1m de o fitar. Ao mesmo tempo que se dava tal fenomeno elevava se ao ar de 100 000 bocas esclamações pias. Tendo eu assim como me disseram mais pessôas, uma impressão extraordinaria de modo ao mesmo tempo do que uma vontade saber o impossível. Findo o milagre toda a gente acordou como dum sonho e a impressão passou.

(3) Nossa Senhora disse áos pequenos para se fazer uma ermida nesse sitio e que a guerra acabava daqui a pouco tempo e que os Portuguezes voltariam em breve. O homem a meu lado que não acreditava em nada foi-se convertendo a pouco e pouco emquanto o milagre se dava. No fim de tudo toda a gente quiz ver as pequenas para o quê fiz varios esforços mas não consegui nada e quasi por um triz que não partia um braço. Toda a gente começou a retirar na melhor ordem sem ser preciso policias.... Não vi nenhum bebado nem houve sequer uma discussão. Enterroguei varias pessoas sobre o sucedido e toda a gente me dizia e me contava da maneira porque eu tinha visto. Durante 4 a 5 a 6 horas (só a metade porque a outra metade que éra de oeste retirou por outra estrada) desfilou como na avenida aos domingos ou como a saida da Praza de touros durante a estrada de 12 Kilometros a ponto tal que os automoveis acompanhavam os carros. Fiz-me a caminho de chão de maçãs percorrendo 22 Kilometros ao som dos canticos das raparigas de Tomar do Alemtejo etc. Veiculos ao todo deveriam ser 1000 pois que automoveis somente da parte de leste passava de 100 o seu numero.

Notas dos editores (1)

13 Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, local habitual das manifestações políticas da época.

DCF III-1, Doc. 84 · carta · 15 out. 1917 (2 dias depois)Digitalizações (6)Ligação

Leonor das Dores Salema Manoel

Aristocrataaristocrata (filha do Marquês de Tancos), de 59 anos
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarA multidãoPalavras dos videntes

Creio firmemente que Aquilo é Verdade, n'essa Fé já para lá fui, tive lá momentos de afflicção e desconsolo, que não fizeram com que deixasse de acreditar, só me faziam uma grande pena! Foi quando no momento solemne eu não vi nada do que os outros viam! Não vi então nada no sol, não vi nada ali que justificasse tudo o mais que eu via á roda de mim, mas esse espectaculo e tudo o que eu vinha vendo desde as 10 horas da manhã eram o bastante para eu continuar a crêr. Mas era uma lucta, porque ao mesmo tempo estava triste, tristeza que sem eu querer me vinha á cára, que a algumas pessôas fez impressão. Puzemos-nos a caminho, e feitos já alguns kilometros d'automovel, a Marianna Ribeira5, que tudo tinha visto, que tinha ouvido o recado da criança (eu não estava bastante perto para ouvir as palavras mas tinha podido vêr que ella vinha fallando muito animada em contraste com o que tinha visto antes como depois te direi) a Marianna diz-me: reparem para o sol que ainda não está normal. Eu então olho e vi, affianço que vi e juraria se necessario fosse. O sol sem brilho, sem côr e poude fital-o. Ia passando uma ligeira nuvem branca. Eu disse: deixa vêr quando passar a nuvem. Passou e eu sempre a fital-o, vi-o passar por differentes côres que não posso precizar e fez-se verde, bem verde claro, como verde salsa com um aro doirado á roda, e girando. Uns raios muito compridos pareciam tocar na terra e o sol parecia estar separado do ceu. Depois o ceu tomava uns clarões côr de rosa 2/ mudou para amarellado de roda do sol, e mais longe manchas aqui e alem. Passados uns momentos compridos que não sei precizar, ficou normal e não tornei a poder fital-o.

Porque vi ali e não vi lá? Aconteceria a mais alguem alem de mim e da Geni14, que lá não vio nada e alguma coisa vio depois, não tanto como eu ia vendo e lhe dizia, ao passo que a Marianna foi das quazi extasiadas! Não sei, o que sei, o que affianço é que isto assim aconteceu! Como chegassemos cedo fomos até Aljustrel; fomos a pé e já chovia bem. Vi a pequena, fallamos-lhe, fizemos-lhe algumas perguntas a que ella se não mostrava disposta a responder, comquanto nos sorrise com um modo muito simples e bom. Muito instada disse, como quem repete uma coisa já muito dita a historia da primeira Apparição tal qual tu m'a mandaste contar. Nada mais disse e não insistimos.

[…]

Eu agora, quando rezo, não vejo diante de mim senão aquelle tosco arco de pinho, as duas candeias e uns ramos de flôres, e diante d'isso aquelle povo a rezar o terço e a cantar a ladainha, só porque acreditaram que ali tinha estado e ia estar Nossa Senhora!

Notas dos editores (5)

1 Nasceu a 4 de Abril de 1858, era filha dos quintos Marqueses de Tancos e décimo primeiro de Atalaya. Faleceu a 6 de Setembro de 1930. Em 1917 tinha 59 anos.

2 Nasceu a 21 de Janeiro de 1881. Filha de João Evangelista Gonçalves Zarco da Câmara (Ribeira Grande) e de Eugénia de Melo Breyner (Mafra). Foi educanda no Colégio das Religiosas da Visitação de Santa Maria (Salesias), em Belém, Lisboa. Faleceu a 4 de Julho de 1928.

5 Marianna Caetana Rita da Câmara, nasceu a 22 de Maio de 1858, casou a 16 de Agosto de 1877 com Manuel Maria de Castro Lemos de Magalhães Menezes, Senhor da Casa do Covo. Faleceu a 22 de de Novembro de de 1935.

14 Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo, nasceu a 17 de Junho de 1901. Filha de Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein e António Mimoso Brandão de Melo.

17 Dr. Carlos de Azevedo Mendes.

DCF III-1, Doc. 93 · carta · 16 out. 1917 (3 dias depois)Digitalizações (4)Ligação

Domingos Pinto Coelho

ProfissionalJornalistaadvogado e jornalista católico (A Ordem), chefe miguelista
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararSol a mudar de corSol a girarSol a cairCalor

Do que, a este ultimo respeito, occorreu no recente dia 13, sabbado, podemos nós testemunhar, porque lá estivemos, não como peregrino, note-se bem, mas como curioso.

Das 11 á uma e meia a chuva foi constante e impelida por vento forte: um tempo francamente agreste e desagradavel que a enorme multidão de muitos milhares de pessoas supportou d'excellente humor, sem outro abrigo mais que os chapeus de chuva e os vehiculos — pois não se descortina nas immediações uma só edificação.

Uma hora e 37 minutos e meio — o meio dia solar — era a hora annunciada da visão, com a qual se esperava coincidissem os phenomenos no ceu.

A essa hora continuava chovendo.

Minutos depois, a chuva diminuiu e quando era uma e tres quartos cessou por completo.

O sol, até então encoberto, mostrou-se entre nuvens que corriam com certa velocidade. E como era variavel a densidade d'estas, mais ou menos diaphano era o veu que ellas punham sobre o astro-rei.

Como toda aquella multidão, olhámos então para o sol com attenção sustentada e, atravez das nuvens, vimol-o com aspectos novos: novos para nós, note-se bem.

Umas vezes rodeado de chammas encarniçadas, outras vezes aureolado de amarello ou roxo esbatido, outras vezes parecendo animado de velocissimo movimento de rotação, outras vezes, ainda, apparentando destacar-se do ceu, approximar-se da terra e irradiar um forte calor.

Para quê, negal-o? Estes phenomenos que jámais tinhamos visto, impressionaram-nos fortemente. Estabelece-se, nas multidões, uma psychologia collectiva. E, na sua grande generalidade, sobre aquella multidão perpassava uma grande onda de fé, que fortemente commovia.

[…]

Em summa, voltámos de Fátima n'aquelle mesmo estado d'espirito em que para lá fôramos - na duvida.

DCF III-1, Doc. 97 · notícia de imprensa · 16 out. 1917 (3 dias depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 273Digitalizações (3)Ligação

Maria Bettina Basto

Visitantejovem lisboeta que viajava com um grupo familiar
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corFiguras / visõesSol a cair

Nunca pensei que puderia ver um milagre e não fazes ideia a impressão que me fez.

Partimos daqui na quinta feira para Torres Novas depois metemo-nos num carro para ir até á vila depois montamos em burros até Rodrigo que é uma aldeiazinha onde mora uma gente conhecida da Belinha7, gastamos o dia todo neste caminho, porque tudo é longissimo ahi ficamos e no sabado, á 1h da manhã8 partimos para Fatima num carro (ou melhor numa carroça) onde fomos aos trambulhões todo o caminho porque não julgues que é perto pois só lá chegamos ás 10h e meia, e desde as 4 que chovia não ficamos com um fio enchuto mas tudo isso nada vale porque o que então presenciamos nunca mais verei. Nunca vi tanta gente. Agora imagina toda essa gente resando o terço e depois cantando, tudo debaixo de chuva. Ao meio dia chega a pastorinha que pede para fecharem os chapéus no mesmo instante a chuva para e nós vemos as nuvens afastarem-se e o sol aparece-nos sem brilho e branco e no meio uma cruz como uma hostia depois as nuvens tornam-se doiradas e vê-se passar como uma nuvem muito transparente o vulto de N. Senhora as nuvens tornam-se azus rouxas e verdes o sol parece que se desprende do ceu, gira sobre si e desaparece para logo depois nos aparecer brilhante como de costume as nuvens vão andando e fica uma tarde linda. Não é extraordinario? Isto é o principal as peripecias depois te contarei.

Notas dos editores (5)

2 Fernanda Guiot Basto Rosado, irmã de Maria Bettina, estava a passar o Verão em casa de uns tios do marido, Manuel Dias Ferreira e Joaquina Dias Ferreira, na Quinta das Lanças, em Ferreira do Zêzere. Tinha casado com Álvaro da Costa Rosado, filho do General Garcia Rosado e de uma irmã de Joaquina Dias Ferreira. Faleceu em Maio de 1978.

3 Corr. Mamã. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 2. Por este documento, não se pode concluir que a mãe, Fernanda Guiot Correia Basto, tenha ido também a Fátima. Por outro lado, o Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917, também não refere o nome da Mãe.

4 Para a identificação das pessoas que foram com Maria Bettina cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 147, de 21 de Outubro de 1917.

7 Isabel da Nóbrega Machado. Cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 20.

8 Já dia 13 de Outubro.

DCF III-1, Doc. 104 · carta · 17 out. 1917 (4 dias depois)Digitalizações (2)Ligação

João Maria Lúcio Serra

Profissionalinspetor escolar em Torres Novas
13 out.Testemunho diretoViuCartaAtitude céticaA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarCores nas pessoas e na paisagem

Convidado pela Senhora D. Maria de Jesus, que num requesito de extremada gentileza quiz tambem por ventura proporcionar a um suposto descrente ensejo para lhe pôr á prova a sua crença, fui á Fátima, lugar de tradição moirisca, no dia 13 do corrente, em que, conforme estava de há muito anunciado, se devia produzir o grande sinal que teria o condão de converter em crentes os descrentes. O dia, ao contrário dos que o antecederam, amanheceu chuvoso e frio.

E o meu entusiasmo, que frio tambem era porque o não estimulava o calor de uma convicção intima, teria cedido á contrariedade que á jornada opunha o tempo agreste e inclemente, se á mente não me acudisse que a desistencia poderia maguar a Senhora D. Maria de Jesus que com tão penhorante amabilidade quiz reservar-me um dos muito cobiçados lugares4.

A chuva que nos déra treguas desde a nossa partida de Tôrres, ás 9 horas, até chegarmos perto de Vila Nova de Ourem, começou de fustigar-nos batida do vento que soprava rijo, encharcando-nos e enregelando-nos, até á Fátima, em casa de cujo prior nos recolhemos para enxugarmos a roupa e tomarmos alguma coisa que nos confortasse.

Não julgues que eramos nós só que assim tão corajosamente afrontavamos sem dar mostras de cobardia ou fraqueza a intemperie do tempo e a fúria do vendaval. Dezenas, centenas, milhares de pessoas de todas as classes e condições sociais encontrámos nós pelo longo caminho utilizando todos os variados meios de transporte, desde o burro cabisbaixo e de orelhas cahidas até ao automovel luxuoso e cómodo. A todos a fé no desconhecido dava alento e coragem, sem um grito de revolta, sem um gesto de desânimo. A gravidade e a compostura que em todos os rostos se descobria éra garantia segura da crença fervorosa que impelia muitos, e do respeito que essa crença ingénua e pura a todos impunha.

Reconfortados com os cómodos e gasalhado do lar hospitaleiro do bom do Prior, seguimos para o teatro dos sensacionais e estupendos acontecimentos, que da Fátima dista uns bons dois quilómetros.

Entretanto a chuva continuava impertinente e o vento soprava rijo, apenas se vendo correr na atmosfera os castelos encantados de nuvens densas e negras. Ao chegarmos ao sitio já agora memoravel, eu tive a impressão de um vastissimo acampamento onde milhares de pessoas se acolhiam em barracas cobertas de ardósia. Tal o efeito de milhares de chapeus de chuva abertos...

Como a estrada estava alagada da chuva que caía abundante, não saímos do auto, e ficámos ali, onde centenas de carros e automoveis estavam alinhados num extensão aproximada de um quilómetro.

A distancia que nos separava da famosa Carrasqueira, que parece ter servido como que de trono á celeste Visão, não mediria cem metros, e não prejudicava a observação do que junto dela se passava. A multidão, em muitos milhares de pessoas computada, aglomerava-se numa ordem, num respeito, num acatamento que impressionavam vivamente o espirito dos espectadores. Até nós vozes se ouviam, distintos écos de canticos religiosos em que a multidão retemperava a fé emquanto não chegava a hora solene.

Acabavam de chegar as tres crianças, boçais e rudes protagonistas do espectaculo mais grandioso e estraordinário que ainda me foi dado presenciar. No relógio do auto o ponteiro marcava duas horas: aproximava-se o momento augusto por que milhares de corações ricos de fé anciavam. A chuva, que tinha abrandado, deixou-nos então de todo; e para o norte diviso numa nesga de céu o azul limpido rompendo as nuvens plumbeas.

Ao meu espirito já então comovido com o que presenciava ocorreu que bem poderia suceder que aquela manhã chuvosa, de céu carregado de nuvens pardacentas, fôsse a mis-en-scène de um espectaculo grandioso que estivesse para dar-se. O ponteiro indicou 2h e 5m, depois 2h e 10m e na terra o silencio éra apenas cortado por ecos mal distintos que repetem as orações que junto á Carrasqueira se fazem. Emquanto a multidão aguardava em ancioso recolhimento o acontecimento maravilhoso que havia de revigorar-lhe a fé, eu pensava no modo mais airoso de me sair do ridiculo a que não me pouparia a mofa dos meus amigos companheiros de todos os dias.

Já em algumas almas piedosas surgia o receio de que facto estrondoso anunciado não se désse realizasse, quando de repente toda aquela imensa multidão se agitou e num brouhaha significativo de espanto e assombro levantou a cabeça para o ceu, aonde milhares de olhos contemplaram estarrecidos o sol em pleno azul, visivel a todos, sem a intensidade dos raios a ferirem a retina e a dificultarem a visão, coroado de côres várias num movimento de veloz rotação, que na frase pitoresca de alguns lembrava uma rodinha de fogo.

Os espectadores, entreolhando-se, apresentavam-se uns aos outros de côr amarela, e no horizonte vermelho-alaranjado onde quer que os olhos se fitavam viam-se fachos de luz esbatida, parecendo colocados a igual distancia, e reflectindo-se na terra.

Tal foi o fenomeno surpreendente que todos tiveram ocasião de observar, e que a uns arrancou a confissão sincera de fé ardente, e a outros a quem o vento adusto do scepticismo crestou a flôr da crença, lançou n'uma expectativa benévola.

Descrentes lá houve, e alguns até com resaibos de ateísmo, que se declararam rendidos perante o poder que tal prodigio operava.

Aqui tens, minha boa Isabelinha, o que eu observei, e comigo milhares de pessoas.

[…]

Há ainda a notar que, terminada a visão, no dia 13, a Lúcia uma das tres crianças que afirmam ter-lhes a Virgem aparecido, em dado momento voltou-se para o pôvo e diz-lhe que a Virgem mandara que olhassem para o sol onde ia produzir-se o sinal anunciado. Imediatamente o sol, que até então se conservára encoberto, aparece e mostra-se pela fórma que fica dito.

Notas dos editores (3)

1 Nasceu em Castelo Branco. Foi Inspector escolar em Torres Novas. Foi convidado por Maria de Jesus Raposo para ir a Fátima, pois ela queria ter consigo uma pessoa responsável e de confiança. Faleceu a 23 de Novembro de 1919.

2 Isabel de Maria Amado Jara de Carvalho, sobrinha da esposa de Lúcio Serra, portanto sua sobrinha, por afinidade. Filha de João Maria Amado de Melo Ramalho Pimentel de Almeida da Cunha e Vasconcelos Matamouros e de Isabel Maria de Figueiredo Azevedo Velez Dantas Pereira.

4 Foram no automóvel as seguintes pessoas: Mariana Dantas, João Amado da Cunha Vasconcelos, Josefina da Cunha Serra, esposa do autor, Maria Ermelinda de Vilhena Barbosa e sua Mãe, Branca Lobo de Moura Vilhena Barbosa, o Dr. Formigão, a filha de João Serra, Maria Elisa da Cunha Serra e o autor desta carta.

DCF III-1, Doc. 117 · carta · 18 out. 1917 (5 dias depois)Digitalizações (5)Ligação

Carlos Silva

Visitanteautor de uma carta a O Mensageiro, que dizia não ser fanático
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoA chuva a pararCores nas pessoas e na paisagemSol a girarRoupa a secarPalavras dos videntes

De vespera fui ficar a casa do meu amigo e correspondente do Mensageiro Antonio Pereira das Neves, na Quinta da Sardinha3, onde fui tratado por este nosso amigo e sua ex.ma esposa, com todos os carinhos de que não sou digno. Ás 4 horas puz pés a caminho da Fátima afim de assitir á aparição milagrosa que as pequenas diziam ser a ultima vez.

Atravessando a serra tive ocasião de vêr a grande peregrinação de devotos que de todos os lados faziam caminho para mais depressa chegarem ao local indicado. O aspecto é sublime, mulheres com sacas á cabeça, os seus trages garridos e domingueiros, a pé, a cavalo, etc..

Perguntava d'onde eram, e... ao ouvir pronunciar as suas terras admirava-me como aquelas almas vinham de tão longe para presenciar o que duas creancinhas afiançavam!...

Mas que lindo era o serpentear de tantas creaturas pela serra! Sublime! Isto só visto para se poder apreciar os efeitos de tão grande romaria.

Depois de atravessar a Loureira4 e a Moita5, diviso a uns 200 metros a estrada que segue para Vila Nova de Ourem passando pelo Reguengo do Fétal6 e outras povoações. Os carros já ali se encontravam em grande numero, carroças, caléches, automoveis, bicicletes, e toda a qualidade e feitio de veículos, alguns originaes que transportavam crentes e não crentes do que se estava para presenciar.

A chuva começa caindo, engrossando pouco a pouco; os guarda-chuvas abriram-se e em pouco tempo, açoitada pelo vento, enxarca as pernas dos que se tapavam com os chapeus e punha em verdadeiros pintos aqueles que se não tinham prevenido contra este contra-tempo. Todos olhavam para o céu a vêr se haveria esperança do temporal passar, mas cada vez mais fechada a cerração. Ninguém arredou pé de onde estava, ouvindo-se sempre vários canticos á Virgem, e o movimento dos peregrinos cada vez mais!

Era uma hora (oficial) e tudo estava ancioso pela chegada das meninas. Eu estava perto de uma enorme azinheira teritando com frio e enxarcadinho até aos ossos. Nisto, não sei como, levanta-se uma lebre que faz várias evoluções fugindo ás pessôas que a perseguiam, sucumbindo a uma paulada, não chegando um pêlo a cada um que a seguia!

Olho em frente e vejo uma enorme bicha de gente que acompanhava as meninas para junto da pequena azinheira, onde elas dizem lhes apareceu N. Senhora, azinheira de que apenas existe um fragmento do tronco de 10 centimetros de fóra da terra, pois que a teem pelado para recordação.

Diz uma das meninas: Já lá está Nossa Senhora! Fechem os chapeus e resem...

A chuva pára, as nuvens correm com grande velocidade e o Sol aparece brilhante, espalhando seus luminosos raios sôbre a assistencia.

Não sei como, vejo todos tirarem os seus chapeus e ajoelharem. Eram 14 horas e 10 minutos oficiaes.

Oiço várias preces, suplicas á Virgem e Mãe Santissima e vejo os róstos da enorme assistencia de côr de rosa carregado, depois transformou-se para um anilado e em seguida para um amarelo cadaverico!!

Não sei o que isto significava, nem quiz fitar o Sol para não atribuir a ilusão optica.

Mas na minha frente estava uma senhora com um chapeu de feltro branco, que me servia de espelho do que se passava no rei dos astros. Isto durou uns 20 minutos. Ouvia a meu lado chóros, suplicas várias e dizer que o Sol andava de roda que parecia uma roda de fogo de vista!

Pouco depois as meninas disseram o que Nossa Senhora lhes tinha dito:

— A guerra acaba por estes dias; brevemente os nossos soldados regressam a Portugal; os homens devem ser bons uns para os outros; rezem o terço e façam uma capela pois que sou a Senhora do Rosario.

As pequenas são levadas em triunfo por entre a multidão, regressando a casa de seus paes, e a assistencia começa retirando para as suas terras, dando por bem empregado o tempo que estiveram a pé firme apanhando toda a chuva e o vento da serra!

E eu fiquei com cara de palerma a olhar para tudo isto sem saber explicar tão imponente fenomeno.

Se ámanhã se repetisse, eu lá estava caído novamente, pois que não estou arrependido de ter assistido ao que nunca tinha presenciado.

O que é para me fazer admirar é que estando eu todo molhado, momentos antes, reparei que já estava enxuto! Seria milagre? não creio. O que creio é que a mais pessôas sucedeu o mesmo.

Tanto milhar de gente junta e tanto respeito, nunca vi, pois que não foi preciso policia, guarda republicana, nem força militar para conter a ordem! Seria milagre? não sei.

Tanto carro, trens, carroças, automoveis, bicicletas, etc. sem se dar um desastre! Seria milagre? não sei.

O que sei é que o caso deu-se e que de todas as paragens mais longinquas, ali afluiu gente trazida pelos ditos de duas creancinhas e não a reclames, foguetes ou musicas!

Notas dos editores (4)

3 Lugar da freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho e distrito de Leiria.

4 Lugar da freguesia de Santa Catarina da Serra, concelho e distrito de Leiria.

5 Lugar da freguesia de Fátima, concelho de Ourém, distrito de Santarém.

6 Lugar e freguesia do Reguengo do Fetal, concelho da Batalha, distrito de Leiria.

DCF III-1, Doc. 122 · notícia de imprensa · 18 out. 1917 (5 dias depois) · também publicado em DCF III-2, Doc. 390ADigitalizações (3)Ligação

Ana Maria da Câmara

Aristocrataaristocrata lisboeta, antiga aluna das religiosas da Visitação
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girarSol a cair

É-me impossivel encontrar palavras para descrever o que se passou. Tive que luctar com difficuldades de toda a especie para ir a Fátima, mas consegui-o e dou graças a Deus por isso.

O sitio das Apparições é em plena charneca e a paysagem o mais portuguesa possivel.

Chegámos perto das 10h7, debaixo de uma chuva torrencial que nos encharcou até aos ossos. A multidão era espantosa. Os jornaes falam em 50:000 pessôas, não duvido que fossem mais. Não se notava máu humor contra o tempo, não se ouvia uma má palavra. Resava-se alto e cantava-se. Perto da 1 hora desci da estrada para o campo e fiquei chegada ao altarsinho muito tôsco, levantado no sitio da apparição, mas nunca consegui vêr as pequenitas. Estas logo que chegaram mandaram fechar os chapéos de chuva e logo esta parou e o sol, o sol de todos os dias, rompeu o véu cinzento que toda a manhã tinha toldado o céo. Ficamo-nos a rezar. Pergunto as horas. Alguem me responde: “Passa um bocadinho da 1 e meia”. Estamos portanto em pleno meio dia solar. D’ahi a uns minutos oiço como um suspiro gigantesco e alguem me diz: “Olhe para o sol”. Ao principio nada notei mas segundos depois vejo-o como se fosse a lua d’uma côr azul prateada muito clara d’ahi por deante o sol tinge-se de verde, rôxo, amarello, azul, mas conserva-se sempre desprovido de raios. Atira para longe com rôlos, por assim dizer de fumo da côr que apresenta, mas a fórma do disco é perfeita e esse disco gira de uma maneira vertiginosa e a certa altura o sol desceu. Mais tarde mostra-se mais á direita e depois mais á esquerda, ou vice versa. N’um momento o disco tóma uma côr de rosa vivo; por traz de cada monte levanta-se como um véu da mesma côr. Campos e multidão tudo a reflecte.

Não ha palavras para descrever semelhante esplendor. Muito tenho pensado nas palavras da Egreja: “Quem é esta que vem raiando como a nascente aurora?” E o povo? O povo chóra, grita, implora N. Senhora e Jesus Sacramentado. Ha uma mistura de confiança, alegria e temor. Sinto como todos que estamos em pleno sobrenatural e só posso dizer como os outros: “Nossa Senhora valei-nos”. Não sei quanto tempo durou, mas ouvi falar em 4 minutos. Pareceu-me muito mais.

[…]

No momento em que o sol desceu, o clamor da multidão foi muito maior; logo, todos viram ao mesmo tempo e perto de mim um homem exclamava aterrorisado: "Virgem SSma valei-nos que morremos aqui todos. Perdoae os nosso pecados!"

Notas dos editores (1)

7 Desta família, foram nesse dia à Cova da Iria: Eugénia de Mello Breyner da Câmara e os filhos: Vicente da Câmara e sua mulher Maria Seabra; Emília da Câmara e seu marido Alexandre de Proença de Almeida Garrett, engenheiro civil; a autora da carta; Maria de Jesus da Câmara; Maria Antónia da Câmara; Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo e seus filhos, José de Sousa Holstein Brandão de Melo e Eugénia de Sousa Holstein Brandão de Melo.

DCF III-1, Doc. 125 · carta · 19 out. 1917 (6 dias depois)Digitalizações (3)Ligação

Maria Augusta Saraiva Vieira de Campos

Visitantesenhora católica de Coimbra, mulher de um oficial do exército; autora de um folheto
13 out.Testemunho diretoViuLivroVeio de longeA multidãoA chuva a pararCalorDisco pálido / prateadoSol a cairSol a mudar de cor

Saí pois de Coimbra, na meia noite de 12 para 13 de outubro, com duas amigas minhas, D. Ermelinda Gomes Ribeiro e D. Matilde Forjaz de Sampaio, tomando lugar no comboio em 3ª classe, por promessa, e seguindo até Chão de Maçãs, onde tomamos uma diligência que nos conduziu até Vila Nova de Ourém.

Aqui chegámos às 7 horas da manhã, indo procurar o rev. pároco da freguesia6 para que nos ministrasse a sagrada comunhão.

Pudemos assistir à missa, que foi ouvida por bastantes pessoas, e fomos depois tomar uma pequena refeição, utilizando os farnéis que levamos. Tínhamos de andar uns 18 quilómetros a pé, caminho a subir. A dificuldade do caminho não nos desalentou. Tomámos por ele resolutamente, rezando o terço em coro. O povo que passava descobria-se em sinal de respeito. Era enorme a concorrência de automóveis, carros de todas as espécies, bicicletas, cavalgaduras; e como nós, a pé, seguia grande quantidade de povo.

Fazia um calor sufocante, ameaçando tempestade, pois muitas nuvens se acastelavam no espaço.

Os passageiros de um pequeno carro que passou por nós, gente boa que notou a nossa sensação de fadiga, ofereceram-se para nos levarem as sacas de viagem, favor que aceitámos reconhecidas, confiando na sua seriedade, apesar de não os conhecermos. Passado pouco tempo principiou a chover, e a chuva foi aumentado, tocada por um rígido e frigidíssimo vento, ficando nós em breve tão molhadas e encharcadas de água como se saíssemos de um banho.

A estrada parecia não ter fim; caminho aos zig-zags, muita gente molhada como nós, mas andando sempre, movida pelo mesmo desejo, pela mesma ânsia de chegar a tempo ao lugar da aparição.

Ao meio dia e meia hora, chegámos ao local, bem dispostas apesar de tudo. O espetáculo era imponente!

Apresentava-se-nos um pequeno vale, bastante árido, sem uma única casa; milhares de guarda-chuvas, abertos sobre as cabeças, davam a impressão de um verdadeiro acampamento. A multidão comprimia-se; caíam sobre ela torrentes de água, e contudo ninguém se retirava. O terreno, em volta do local da aparição era barrento e encharcado. No local destacava-se uma espécie de pórtico tosco, formado por três barrotes aparelhados; aqui e acolá pequenos carvalheiros, e em redor milhares de pessoas de todas as classes e condições.

Entre a multidão tomámos lugar, começando a rezar o terço em coro, cantando o Avé de Lourdes, que o povo e as senhoras acompanhavam, o Queremos Deus, recitando a oração de S. Bernardo, etc.

A chuva não parava um instante; tremia-se de frio porque o vento era cortante. Entretanto ouve-se dizer: lá trazem as pastorinhas.

De facto uns homens transportavam ao colo as crianças vestidas de azul claro, com véus de tule branco, seguros por coroas de rosas brancas e folhagem verde.

Reparo na minha companheira, D. Ermelinda Gomes Ribeiro, e noto-lhe uma impressão de grande sofrimento. Pergunto-lhe o que tem, e diz-me que sente uma pontada tão forte que mal a deixa respirar. Senhora doente, com febre quase todos os dias, assim molhada, com os pés sobre a terra encharcada, não tendo ali meio de transporte que nos conduzisse a um lugar onde pudesse tratar-se, o seu estado causou-me aflição. Lembrei-me de lhe fazer uma massagem sobre a pleura, o que aceitou; mas estava tão fria, tão molhada, que receei que nada valesse.

Confesso que já então nenhuma esperança me restava de ver o milagre. Como o local era ainda distante da estrada, viemos até lá à procura de alguém que por caridade nos cedesse um lugar em automóvel ou carro, em que pudesse vir a minha amiga, pois receava bem que não aguentasse o caminho, tendo de fazer novamente a viagem a pé.

Na estrada onde chegámos com as saias cobertas de barro vermelho, nenhum automóvel ou carro nos dispensou um lugar nem pago nem por favor.

Era grande a nossa impressão de desânimo, quando, de repente, se ouve de todos os lados: Milagre! Olhem o sol! Parara como por encanto a chuva; fecharam-se os chapéus; sentiu-se um calor como se entrássemos numa estufa aquecida, e começou a vêr-se o disco do sol, a perceber-se claramente na camada pardacenta que corria todo o céu. O calor aumentava, e o sol parecia descer, descer cada vez mais, apresentando novos e variados cambiantes. Vimos como que um véu prateado, com forma arredondada como se fosse a lua cheia; pouco depois passava para o roxo vivo, depois para o vermelho, depois para o verde-esmeralda e tomava finalmente a cor primitiva.

Ouviam-se gritos de todos os lados, quando se destacava do sol como que uma forma branca de neve, brilhante, sem ferir a retina, vindo para nós, voltando de novo ao sol, e por fim escondendo-se a terceira vez entre as nuvens. Todos choravam e de muitas bocas se ouviam preces, súplicas, atos de fé.

Notas dos editores (2)

5 Na realidade, a Jacinta também ouvia.

6 Pe. Manuel José Alves, pároco de Vila Nova de Ourém de 1904 a 1934. Faleceu em Valadares, Monção, a 9 de janeiro de 1952.

Maria Caminha

Visitantesenhora lisboeta, mãe de Regina
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA chuva a pararSol a mudar de corSol a cairSol a girarDisco pálido / prateadoCores nas pessoas e na paisagem

Faz hoje oito dias que cheguei a Lisbôa, de volta de Fatima, onde fui ver o grande milagre! Não é possivel descrever-te o que todos nós vimos.

[…]

Chovia torrencialmente e todos a pé firme se conservaram até ás 2 horas ou meio dia solar, momento em que as nuvens se afastaram para os lados deixando o sol a descoberto, e immediatamente começam a passar por diante do sol rolos de nuvens muito leves e amarellas como oiro, rouxas, côr de cravo, etc.

N'isto o sol pareceu desprender-se e desceu de de repente; momento de pavor.

N'isto começa n'um movimento rotatorio com uma rapidez incalculavel.

De repente é a lua que está mas isso é um momento, transforma-se na Sagrada Hostia vendo-se até a cruz como que cavada n'aquella materia opaca côr de farinha de trigo muito alva.

Eu vi assim no vacuo e em roda uma maravilhosa corôa das taes nuvens em varias cores. Espectaculo de espantosa belleza, não imaginas qual era a delicadeza dos tons, com que carinho Deus olhou para a nossa terra n'aquelle momento, sentiamo-nos amados com extremos sem limites.

Todos viram, perto de 100 mil pessoas.

As pessoas ficavam das cores das nuvens era interessante de ver, o sol com a sua luz por detraz parecia passar a claridade como que atravez de vidros de côres.

Tudo isto se passava em quanto a Nossa Senhora descia á terra a fallar á pequena Lucia.

Todas as trez crianças (1 rapazito e 2 pequenas) veêm, mas só falla a mais velha, 10 annos.

Nossa Senhora tornou-se visivel para algumas pessoas, eu não fui contemplada com essa graça, não me era necessaria para crer.

[…]

Em roda do valle escolhido para tantas maravilhas, succediam-se como simples ornamento e com a maior simetria umas manchas com as as trez côres preferidas20.

[…]

Tive uma comoção enorme quando vi uma tão grande e tão santa manifestação de fé. Que coragem e persistencia para arrostar com uma tempestade d'aquellas sem recuar, sem vinho, emfim admiravel. Não havia um policia, não houve nada, nada, que não fosse o respeito e o santo contentamento de que todos estavam possuidos.

N'um certo momento em que chovia muito, a pequenita disse que fechassem os chapeus, fecharam-se os chapeus e a chuva parou.

Nossa Senhora disse à Lucia que São José veiu abençoar o povo, e que todos os crentes (alli presentes) ficavam perdoados até áquelle momento.

Aquelle logar ficou bento, pessoas e animaes, tudo foi benzido.

N'esse momento houve uma grande claridade.

Notas dos editores (7)

2 Deve tratar-se de Regina Ferreira, referida no Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 19.

3 No Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, fl. 5, refere-se uma Emília, imediatamente a seguir a Regina. Trata-se da mesma pessoa: o Padre Francisco dos Santos Costa, natural de Rodrigos, certifica-nos que era Emília e não Emiliana. Foi portanto um erro da autora desta carta. Emília era criada de servir de Isabel da Nóbrega Machado, amiga de Fernanda Guiot Correia Basto.

4 Rita, irmã de Bettina Basto, dois anos mais velha, que veio veio a falecer no Porto em 1969 (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 24).

5 Irmã de Rita, autora do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 (Cf. nota 2, do Doc. 69).

6 Rodrigos (cf. Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917, nota 14).

15 Do texto do Doc. 69, de 13 de Outubro de 1917 e Doc. 104, de 17 de Outubro de 1917, não se depreende que Bettina Basto tenha visto Nossa Senhora, mas no Doc. 69 (fl. 10v), ela desenhou um desenho com uma silhueta que, em 1978, nos explicou ser o vulto de Nossa Senhora como ela o imaginou.

20 No texto está preferidas mas a autora queria dizer referidas.

DCF III-1, Doc. 146 · carta · 21 out. 1917 (8 dias depois) · também publicado em DCF III-1, Doc. 358Digitalizações (6)Ligação

José António Marques da Cruz Curado

Clerosacerdote católico, pároco de Penacova
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoSol a mudar de corDisco pálido / prateadoSol a girarSol a cairMovimento em ziguezague

Como a “Liberdade” nada disse ainda sobre tal assumpto, vamos nós referil-o como testemunha presencial. Chegamos ao local quatro ou cinco minutos antes da suposta visão. Havia ahi perto de quarenta mil pessoas vindas de todos os pontos do paiz. Alguem nos indicou um ponto marcado por uma bandeira hasteada n’um pau, dizendo ser alli que estacionavam as tres pastorinhas, aguardando a apparição. Pouco depois a enorme multidão descobre se. Todos fitam o céo ainda carregado de nuvens, em busca do sobrenatural, do signal prodigíoso. Parece que as pastorinhas haviam ajoelhado, confirmando mais uma vez que a Virgem lhes apparecera.

Teriam decorrido talvez quatro minutos, quando o sol, semilhante a peça de fogo prezo que, depois de accesa, faz um circulo luminoso no meio da escuridão da noite, fez affastar quasi rapidamente as nuvens que o toldavam, fazendo tambem um circulo, e dando ocasião a que pudessemos observar um phenomeno, que a todos pareceu extraordinario. O sol, já sem nuvens, não projectava os raios sobre a terra, mas parecia envolvido em chammas de côr desmaiada. De subito, perde toda essa luz ou chamas e apparece-nos uma placa de prata fôsca, como accertadamente disse o "Seculo", tendo um rapido e bem visivel movimento de rotação, parecendo até que se approximava da terra. Podia fixar-se indefinidamente sem incommodar a vista.

Incendiou-se pouco depois, deixem-me dizer assim, vendo-se então de novo envolvido em chamas côr de rosa, e tambem sem projecção de raios sobre a terra.

Passado talvez um minuto, perdeu de novo a luz e chamas, vendo-se outra vez a placa, agora muito branca, com o mesmo movimento de rotação muito rapido.

Ainda uma terceira vez o sol, que parecia ter movimentos bruscos, sacudidos, se envolveu em chamas azuladas, a que se seguiu a pêrda da luz e o movimento rotativo da placa. Terminára o phenomeno.

Quando o sol voltou depois a ter luz já a nossa vista não podia fitar os seus raios luminosos. A multidão, ajoelhada sobre a lama, afogada em prantos, gritava afflicta, de olhos fitos no céo e de mãos erguidas. Uns clamavam por Nossa Senhora, que lhes valesse; outros, confessando-se grandes peccadores, pediam misericordia. O quadro era deveras impressionante.

Tambem nos impressionou a coincidência do phenomeno com a hora da visão ou supposta aparição. E essa impressão subiu de ponto, quando o rev. Cardoso, de Portalegre4, que durante a visão esteve junto das pastorinhas, nos contou que a mais velha, estando ainda de joelhos junto da carrasqueira, disse para todos que a cercavam: — Olhem agora para o sol! — seguindo-se immediatamente o phenomeno solar.

Isto condiz com a resposta que ella me deu, quando lhe perguntei se a apparição tivera logar durante o phenomeno. "Não, respondeu ella; a Senhora já tinha desapparecido".

A multidão começa a debandar. Mas uma boa parte segue as pastorinhas, como a borboleta segue a luz. Todos desejam vê-las e fazer perguntas, a que ellas respondem de prompto. Venderam-se postaes com os seus retratos. E até houve quem se lembrasse de mandar fazer estampas, nas quaes já figura a pastorinha de joelhos, e no alto a imagem de Nossa Senhora.

Resta apenas o tronco da carrasqueira, que as pastorinhas dizem ter servido de pedestal á Mãe de Deus, durante as aparições.

Notas dos editores (3)

2 Nasceu na paróquia de Carvoeiro (Mação) a 14 de Outubro de 1873. Foi ordenado sacerdote em Portalegre a 16 de Agosto de 1906. A 8 de Janeiro de 1907 foi-lhe passada demissória ilimitada para a Diocese de Coimbra, para ir paroquiar a Igreja de Na Sa da Assunção, de Penacova. Cf. DCF, vol. 2, Doc. 4 de 28 de Setembro de 1917, nota 909.

3 Lugar da freguesia e concelho do distrito de Coimbra.

4 Pe. António Augusto Cardoso, da diocese de Portalegre. Tinha por alcunha "Pe. Pistolas". Segundo um depoimento de D. Maria de Lourdes Malato Correia, de Portalegre, de 14 de Novembro de 2000, este padre foi a Fátima no dia 13 de Outubro de 1917, acompanhado de Maria Francisca Mergulhão, Deodata Amélia Malato, Emília Malato de Noronha e uma sobrinha delas, então com vinte e sete anos, Maria da Encarnação Malato Correia, mãe da autora do depoimento, casada com Joaquim da Cruz Correia.

DCF III-1, Doc. 159 · notícia de imprensa · 23 out. 1917 (10 dias depois)Digitalizações (3)Ligação

Maria Eugénia Braancamp Sobral da Câmara

Aristocrataaristocrata (filha dos Condes de Sobral), mulher de Vasco Cabral da Câmara
13 out.Testemunho diretoViuCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararNuvem / coluna de fumoDisco pálido / prateadoSol a mudar de corSol a girar

Apezar dos jornaes já terem contado eu repetirei o que eu vi e o Tio Vasco e todos os que foram comigo, assim como todos os que comnosco falláram.

Começo por dizer que foi um espectaculo imponente e comevedor ver ali reunidas 50000 pessoas de todas as edades e de todas as classes sociaes animados da mesma fé, sem pensarem, nem se preocuparem com a chuva e horrorosa lama, sem haver o mais pequeno desastre nem desordem tudo no maior socêgo respeito e comoção. Não conseguimos chegar ao pé da carvalheira porque já lá estava muita gente desde a vespera mas, ficámos perto, embóra não podéssemos ver a attitude das pequenas, do que tenho muita pena. Pouco antes da hora a que devia apparecer Nossa Senhora, parou a chuva como por encanto e descobrio o sol, que pouco depois se tornou a encobrir, parecia um aviso. Pouco depois reparámos n'uma cousa que nos impressionou, foi ver as cáras das pessoas que estavam defronte de nós com sombra do lado de onde estava o sol (embóra encoberto) e illuminadas do lado opposto, isto é onde estava a carvalheira! Não quéro dizer com isto que visse nenhum clarão, que isso não vi. Quando estávamos reparando n'isso, assim como n'um certo fumo ou nevoeiro que se via por cima das cabeças das pessôas que estavam lá perto, fazia impressão ouvir os côros que entoavam todos de differentes lados, e pouco a pouco todos se fôram descobrindo. De repente torna a apparecer o sol começam todos a virar-se e em exclamações, nós resistimos algum tempo mas tanto insistiram que olhámos e vimos que se podia fitar o sol sem custo nenhum. Estava uma rodella branca, parecia uma hostia de repente transformou-se n'uma rodella prêta, cercada por um circulo dourado e essa rodella preta começa a andar de roda sobre si mesmo, e deitando de tempos a tempos raios luminosos ou para melhor dizer relampagos.

Tornou-se outra vez a fazer branca e depois cobrio-se d'uma nuvem doirada! — Não calculas os arrepios que fazia pela espinha; a comoção o que choraram o que éram as exclamações!

Notas dos editores (2)

1 Maria Eugénia Braancamp Sobral da Câmara (Eugénia Mello Breyner Braancamp da Câmara), filha dos Condes de Sobral, Luis de Melo Breyner e Adelaide Braancamp Sobral de Almeida Castelo Branco de Narbonne-Lara. Casou com Vasco Cabral da Câmara.

2 Maria do Carmo Figueiredo Cabral da Câmara. Filha dos Condes de Belmonte, José Maria de Figueiredo Cabral da Câmara e Maria das Necessidades de Siqueira.

DCF III-1, Doc. 196 · carta · 27 out. 1917 (2 semanas depois)Digitalizações (3)Ligação

Avelino de Almeida

JornalistaO Século (diário anticlerical), antigo seminarista
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaAtitude céticaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarMovimento em ziguezagueSol a mudar de cor

Foi assim que, no dia celebre e tão anciado, afluiram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam leguas ao sol e á chuva, outras que se transportaram em variadissimos vehiculos, desde os quasi pre-historicos até os mais recentes e maravilhosos modelos de automoveis, e ainda muitissimas que suportaram os incomodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quaes, para percorrer hoje relativamente pequenas distancias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados n'um sonho, dirigirem-se, de vespera, para o sitio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo d'eles é á recitação cadenciada do terço do Rosario, sem que os importunasse, os demovesse, os desesperasse, a mudança quasi repentina do tempo, quando as bategas de agua transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçães e ás doçuras do outono sucederam, por um dia, os asperrimos rigores do inverno... Vi a multidão, ora comprimida á volta da pequenina arvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para os guardar como reliquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina e que a mais pitoresca e heterogenea concorrencia de carros e pessoas atravancou n'aquele dia memoravel, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturaes, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponencia... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão em que superabundavam os camponios foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhel-as as demonstrações do mais intenso carinho por parte d'aquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado ao aproximar-se a hora do "milagre", a hora do "sinal sensível", a hora mistica e suspirada do contacto entre o céu e a terra...

E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacifica multidão animada pela mesma obcessiva idéa e movida pelo mesmo poderoso anceio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, á hora prenunciada, deixa de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei —disco de prata fosca— em pleno zenith aparecer e começar dançando n'um bailado violento e convulso, que grande numero de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes côres revestiu sucessivamente a superficie solar...

Milagre, como gritava o povo; fenomeno natural, como dizem sabios? Não curo agora sabel-o, mas apenas de te afirmar o que vi

Maria José de Lemos Queirós

Aristocratasenhora de Viseu, que escreveu para o Correio da Beira identificando-se como assinante; esteve presente com a filha, Maria do Amparo
13 out.Testemunho diretoViuArtigo da testemunhaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoSol a girarSol a mudar de corSol a cair

No dia seguinte, dia 13, fomos logo de manhã para o lugar da aparição. Entretanto é-me agradável dizer que Fátima é um pequeno lugarejo, bonitinho, talvez de cento e tantos fogos.

Às 8½, a estrada para o campo da aparição, já ia ladeada de carros, automóveis, carroças, burricos, e muita gente a pé. Devem ser 2 quilómetros de Fátima ao local do fenómeno.

Chegadas ali, o nosso trem retirou-se ao lado da estrada, como fizeram outros, para darem lugar ao trânsito. Já a essa hora estava imensa gente. Dentro do coupé envidraçado defrontávamos com o extensíssimo campo, parecendo um alguidar, levantado nos lados e abatido ao centro, formando a vastíssima bacia, com grupos aqui e além, e um extenso vale, que nos lembrava se deverá parecer com o Vale de Josafá!

Lá, muito ao longe, a um lado, víamos muita gente rodeando o local da aparição, marcado por 2 postes de madeira com uma cruz ao centro e 2 lanternas nos postes.

O dia 13 apresentou-se de chuva, o céu plúmbeo e vento.

Às 9 ou 9½ mais escureceu e mais chovia, parecendo-nos não poder melhorar o dia. Como víssemos que a chuva continuava, às 11 horas, tomámos a resolução de sair da nossa estufa e do mirante..., e seguimos com os ranchos em direção ao local que uns pastorinhos anunciaram como teatro de cenas sobrenaturais. Ao meio dia chegaram os 3 pastorinhos. Lúcia, de 10 a 11 anos, é que fala; os outros, Jacinta, a mais nova, e Francisco, irmãos um do outro e primos de Lúcia, diziam ter visto uma Senhora muito linda, toda vestida de branco com uma nuvem aos pés.

Passados minutos, depois da chegada dos pastorinhos, cessou a chuva, e o céu, até ali escuro, precisamente à hora (seria 1 da tarde) em que os 3 astrónomos anunciaram o caso mais fenomenal que se podia dar, em frente ao local da anunciada aparição, o céu aclarou um pouco, o que fez que quase todos os olhares instintivamente fitassem o mesmo local.

Cena verdadeiramente impressionável, presenciada por 40:000 a 50:000 pessoas, tantas foram aproximadamente calculadas!

Não afirmo o que não vi. Não vimos a Nossa Senhora, nem nos consideramos dignas disso. Mas vimos no sol, por si só, a afirmação dum fenómeno, dum caso sobrenatural!

Como foi e donde veio, não sabemos explicar. Mas o facto deu-se e contra factos não há argumentos.

Como já disse, à 1 hora, no céu, lugar onde a nuvem se desviara, aclarou; e qual o nosso espanto, quando apareceu um globo, prateado, fazendo um pequeno giro e aparecendo atravessado aqui e além pelas nuvens! Isto por 3 vezes, com intervalo, talvez, de 3 a 4 minutos.

Nesta ocasião, à nossa retaguarda, dava-se a cena dos pastorinhos junto à azinheira; nós ficámos a 7 ou a 10 metros deste local para escaparmos à turba-multa. A mais velha das pastorinhas impôs nesta altura silêncio e o resto da cena, ali, era para os 3! Depois deste simpático ensaio ou prelúdio ao Astro-Rei, como que eclipsado pelas nuvens, mas não de todo encoberto, de súbito rompe em todo o esplendor, muito diferente do usual, uma nuvem ou chama vermelha brilhantissima que o encobria, e passados momentos aquelle globo ou esfera se agitava nervosamente como impelido por eletricidade. Parecia avolumar-se e querer precipitar-se ou falar para a terra, a anunciar um caso de regozijo e pavor!

Mudou este cenário uma nuvem amarela, dourada; e assim foi desaparecendo esta realidade, que aos mortais parecera um sonho! Desejava poder descrever este acontecimento, único, maravilhoso, em frase burilada; limito-me a narrá-lo com a simples expressão da verdade, por nós presenciada.

[…]

Mal diríamos que o havíamos de presenciar no momento em que o sol nervoso tinha suspenso o auditório. Parecia vir para a terra, anunciando o milagre e saudando a Rainha do Céu e do universo, que naqueles momentos falava para os 3 pastorinhos, como as três crianças espontânea e intemeratamente6 afirmam.

Acredito e nada me repugna acreditar, em face do que vi. Mas, como a minha voz é fraca e débil no deserto, esperemos que outras vozes mais fortes e autorizadas o confirmem.

Logo que o astro-rei entrara na sua normalidade, tudo se retirou na melhor ordem e silêncio, subjugado pela verdade dos factos! Peripécias: o vasto campo do milagre era todo de barro, separado em arretos de pedras soltas.

Como choveu, ficou feito em lama. Logo que saí do carro, enterrei as botas na lama e os pés pesavam, que julguei não poder andar! Lá fomos indo, indo até parar bem próximo da azinheira, já cortada e depenada, cujos raminhos davam-se aos devotos, como os nossos irmãos que vão para o front levam lembranças e relíquias da família.

Comoveu-nos, no entanto, ver colegas nossas de sapatinho branco, julgando encontrar terreno seco e firme, onde só era barro movediço! Pena foi não subirem mais alto... calcando indiferentes a lama da terra!

[…]

Também nos não admira que entre milhares de pessoas alguma apareça como o nosso cocheiro, a quem, tendo ficado junto do carro, no alto do vale, perguntei:

– Então, sr. Manuel, gostou e viu o sol?...

Parece que nessa ocasião estava a dar de comer aos cavalos! Grande materialista (sendo aliás muito boa pessoa)...

Notas dos editores (2)

5 Joaquina Amélia nasceu em Casal Menino, Espite, a 24 de fevereiro de 1890 e faleceu a 1 de outubro de 1970, no mesmo lugar.

6 Confusão com “intimoratamente” (destemidamente, corajosamente)

DCF Seleção, Doc. 23 (= DCF I, Doc. 41) · notícia de imprensa · 30 out. 1917 (2 semanas depois)Digitalizações (4)Ligação

Isabel de Jesus Maria de Sousa Holstein Brandão de Melo

Aristocrataaristocrata (filha dos Marqueses de Sesimbra), mulher de um coronel de artilharia
13 out.Testemunho diretoEm parteCartaVeio de longeA multidãoA chuva a pararDisco pálido / prateadoPalavras dos videntes

Enfin comme le 13 oct. approchait et que j'avais un grand désir, un immense désir, d'aller à Fatima, l'endroit du miracle, nous avons arrangé, ma soeur, des cousines et des amies, à aller toutes ensemble. Il n'y a point de chemin de fer jusqu'au village, et du village même jusqu'à l'endroit de l'apparition c'est encore assez loin. Nous avons donc loué une grande automobile et sommes parties bravement de Lisbonne à 2 heure du matin, pour etre á l'endroit indiqué à midi. Nous avons voyagé toute la nuit, et á 10 heure[s] nous étions à l'endroit de l'apparition. Il y avait déjà une foule énorme qui attendait; on a calculé qu'il se trouvait là plus de 50.000 personnes. Pendant toute la nuit et la matinée nous avions rencontré des centaines de voitures, des gens à pied, à cheval, à âne, enfin tous les vehicules possibles; et je vous assure qu'il y en avait de véritablement préhistoriques. Cela fesait un peu rire, mais c'etait touchant en même temps de voir tant de personnes se diriger au meme endroit pour assister à l'apparition de la Vierge. Moi je disais que c'etait déjà là un vrai miracle: à la voix de ces pauvres enfants tant de milliers de personnes laissaient leurs maisons, leurs affaires, pour accourir, prier et chanter des cantiques. Il pleuvait à verse, une pluie comme il n'y a pas souvent chez nous au mois d'octobre où il fait encore si beau; et pourtant pas une personne ne se plaignait; on était là sous la pluie à attendre! on entendait comme le bruit de la mer et c'etait tous ces gens qui priaient à haute voix et chantaient des cantiques.

Enfin à midi on entend un grand murmur et des acclamations. C'étaient les enfants qui arrivaient, accompagnés par le docteur de l'endroit qui les a pris sous sa protection.

[…]

Mais j'en était à raconter quand les enfants sont arrivés à l'endroit où la Ste Vierge leur apparait. Cet endroit est marqué par un autel rustique surmonté d'une croix et ayant deux lampes allumées; c'est pres d'un olivier, ou plutot c'etait un olivier, mais il n'en reste plus qu'un tronc presque à ras du sol, les gens par dévotion ont arraché les feuilles, les branches, tout.

Mon Père, il est midi précis et la pluie qui tombait par torrents cesse tout d'un coup, les enfants sont agenouillés près de la croix et prient, leur petit visages transfigurés et couverts de larmes. Alors tout d'un coup voilà qu'on entend une clameur qui sort de milliers de bouches; tout le peuple crie: "Miracle, miracle, loué soit Jésus-Christ, louée soit la Très Ste Vierge". Et le soleil qui se laisse fixer et qui semble un disque de métal sans rayons, commence à tourner sur lui-meme et à monter et descendre plusieurs fois. Voilà ce qu'on dit à côté de moi, et ce que des milliers de personnes affirment avoir vu. Moi je ne l'ai pas vu; j'ai bien pu fixer le soleil et j'etais terriblement emotionnée d'entendre tout le monde clamer qu'on voit des signes extraordinaires dans le ciel. Je crois que N. S. ne m'a pas trouvée digne de voir ces phénomènes, mais dans mon ame je n'avait pas besoin de les voir pour croire à l'apparition de la Ste Vierge aux enfants. Deux de mes cousines qui étaient près de moi, étaient hors d'elle-même[m]es et affirmaient voir exactment le soleil comme une pièce de feu d'artifice tournant vertigineusement. Enfim cela dura quelques minutes, puis de nouveau les nuages couvrirent le soleil; les enfants se relevèrent et tout ce monde se précipita sur eux pour les entendre parler.

J'ai pu voir de loin l'une des petites filles sur les bras d'un monsieur. Je n'entendis pas ce qu'elle disait, mais on a raconté qu'elle disait ceci: "La Ste Vierge a béni tout le monde, elle veut qu'on prie, qu'on fasse pénitence et qu'on bâtisse en cet endroit une chapelle en l'honneur de la Vierge du Rosaire.

Les aumônes sont si abondantes qu'on va tout de suite commencer la chapelle, et cet endroit tout à fait inconnu il y a quelques mois, est devenu tout d'un coup célèbre. Comme je vous l'ai dit, plus de 50.000 personnes étaient réunies là le 13 Oct.; et tout ce monde-là est parti heureux et convaincu que la Ste Vierge a daigné descendre un moment sur notre pauvre Portugal. Moi, j'en suis sûre. Dites-moi, mon Père ce que vous trouvez de tout cela. Je suis heureuse d'avoir pu assister à une telle manifestation de foi et de religion.

Près de moi un vieux paysan ne faisait que crier: "Ste Vierge, mon fils, mon petit enfant, meu filhinho en portugais;" C'est une expression qu'on ne peut pas bien traduire, mais qui est si touchante; sans doute son fils est à la guerre, et le pauvre vieux sentant la Ste Vierge toute proche, lui demandait de le protéger.

Notas dos editores (1)

6 Foi em Agosto.

DCF III-1, Doc. 238 · carta · 31 out. 1917 (3 semanas depois)Digitalizações (4)Ligação

Nascimento e Sousa

Visitanteleigo, companheiro de Joaquim Sacristão, de Turquel
13 out.Testemunho diretoViuCartaA multidãoDisco pálido / prateadoMovimento em ziguezagueSol a mudar de cor

Fui dos primeiros que ali chegou, e dos ultimos a retirar. Nunca senti uma tão grande alegria e nunca tão pura satisfação d'alma. Desde o principio e apesar da chuva contínua e incómoda, notei logo que todos nós, numa comunhão de sentimentos e ideas, nos achávamos satisfeitos e esperançados; nem um gesto de desespero ou desfalecimento nem uma palavra de desagrado ou incorrecção. Tenho a certeza meu Caro amigo que podia chover ou fazer o peor tempo possivel que ninguem arredava d'ali, e apezar da multidão que viste, parece que já nos conheciamos, que eramos amigos e que todos desejavamos o bem estar dos outros. Ao pé de mim e debaixo do nosso guarda-chuva varias pessoas passaram abrigando-se e conversando como se nos conhecessemos de há muito e amigos velhos fossemos.

Entre êstes apareceu um velhote (pai do Joaquim de Maceira) 70 anos bem contados, que já tinha andado cinco leguas e tinha que novamente as percorrer; quiz saber se estava massado pela jornada e pela chuva mas não consegui obter outra resposta do amigo e simpático senão que “Mandava quem podia” e parece-me que isto sintetisava no seu “Manda quem pode” a opinião de quasi nós todos que lá estavamos; d’aí o nosso estoicismo e perseverança.

Por isso e apezar de tudo, nós esperavamos alguma cousa, aínda que alguns, e eu um dêles, anciosos, e diga-se a verdade com algum receio de que nada houvesse.

Nem todos têm a fé profunda dos verdadeiros crentes. Digo-te mais meu amigo, o meu companheiro o Joaquim Sacristão de “Turquel” tinha na mão um relogio certo pelo sol e nós viamos passar o tempo bastante inquietos.

Agora meu amigo descreva quem possa, eu não sou capaz, seriam 12 horas e trinta e cinco a quarenta minutos, no respeitavel relógio do meu amigo, vi com toda a evidencia porque a luz solar nos permitia fixar à vontade o sol, êste e as nuvens que o rodeavam tremer numa hesitação, de quem obedece a uma vontade e força superior que nêsse momento lhe houvesse lançado a mão e o obrigasse a obedecer-lhe. Tive a impressão de quando se dá um safanão numa pessoa e se força a ouvirmos. Que houve naquela ocasião um fenómeno solar, com mais ou menos apresentação de diversas cores não te reste dúvidas destas; só vi um amarelo muito pronunciado e pareceu-me ver uma côr preta por debaixo do disco solar mas esta não garanto.

Mais não te sei explicar, ainda que o sentisse e aínda hoje sinto, e tanto que nunca mais passarei tão agradaveis momentos.

Não reparaste tu na nossa alegria e satisfação depois do facto; todos nós interrogavamos e só uma unica pessoa me disse não ter visto. Pelo que se passou antes; a correcção do porte de tanta gente, as rezas, os canticos, a confiança em todos, a fé que transparecia nos rostos, o fenómeno solar que se deu, a alegria, a amizade que a todos nos uniu naqueles instantes e até a nossa estada alí, o respeito da multidão ajoelhada e fervorosa, as lágrimas de contentamento íntimo, o não ter havido a mais pequena zanga, roubo ou desastre tudo meu amigo e sobretudo pelo fenómeno solar que vi acredito que houve na Fátima no dia 13 de Setembro6 de 1917 um caso tão extraordinario que emquanto a sciencia mo não explicar é única e exclusivamente obra de Deus.

[…]

As crianças vi-as chegar e retirar, indo até ao pé da casa delas onde entrou minha familia.

Não entrei nem concordo com tanta pregunta tola e insediosa que fizeram às pobres creanças muitas pessoas que continuamente as procuravam e procuram.

De resto umas pobres camponezas mal ajeitadas nos seus fatos novos e coroas de flores.

Notas dos editores (1)

6 Sic, por Outubro.

DCF III-1, Doc. 239 · carta · 31 out. 1917 (3 semanas depois)Digitalizações (3)Ligação

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